Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

NIETZSCHE, BENJAMIN E JOYCE, LEITORES DA TRADIÇÃO. BENJAMIN E JOYCE, LEITORES DE NIETZSCHE... E A INTERTEXTUALIDADE EM BAKHTIN

NIETZSCHE, BENJAMIN E JOYCE, LEITORES DA TRADIÇÃO. BENJAMIN E JOYCE, LEITORES DE NIETZSCHE – E A INTERTEXTUALIDADE EM BAKHTIN



“Aqui, onde entre os mares surgiu a ilha,
uma pedra de altar subitamente erguida,
aqui, sob o negro céu,
acende Zaratustra o seu fogo das alturas,
sinais de fogo para navegantes sem rumo,
ponto de interrogação para os que têm resposta(...)

Navegantes sem rumo! Ruínas de antigas estrelas!
Ó mares do futuro! Céus inexplorados!
A tudo o que é solitário lanço agora o anzol:
Dai resposta à impaciência da chama,
apanhai para  mim, pescador sobre altos montes,
a minha sétima última solidão! –
(Nietzsche. “Sinal de Fogo”)


     Quando Friedrich W. Nietzsche refere-se com desdém à filosofia e aos filósofos é, geralmente, para apontar os impasses e as armadilhas em que se deixou enredar o pensamento filosófico, devido aos comprometimentos com uma cultura adoecida e decadente. É no contexto de desencantamento de uma época – segunda metade do século XIX-, no qual a civilização européia  (depois do século anterior, que pregava as “Luzes”), saciada de ciência positiva, de industrialismo e de revoluções políticas; suprimi, enfim, a transcendência do mundo... É em tal momento que Nietzsche anuncia a morte de Deus e a alegria de Zaratustra – vidente de uma verdade nova.
     Postando-se diante do sol nas montanhas, Zaratustra assim roga:

“ ‘_ Grande astro! Qual seria tua felicidade sem aqueles a quem iluminas? (...) Vê! Estou saturado de minha sabedoria, como a abelha que acumulou demasiado mel; anseio por mãos que se estendam (...) Vê! Este cálice quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer de novo ser homem’ (...) Zaratustra desceu só da montanha (...) Assim que chegou à cidade mais próxima, na orla da floresta, Zaratustra encontrou muita gente reunida (...) e dirigiu-se assim à multidão: ‘_ Eu vos proponho o super-homem. O homem é algo que deve ser superado (...) O super-homem é o sentido da terra (...) Deus está morto, e com ele morreram seus detratores.’ (...). E toda a multidão se riu de Zaratustra.”
                                                                              (Nietzsche 1991, pp.11-17)

     Os gregos criaram os deuses olímpicos. Com isso, a Grécia criou a arte: “agora como se abre diante de nós a montanha mágica do Olimpo, e mostra-nos suas raízes...” (Nietzsche 1987)

     Sobre Sócrates: “quem é esse que pode ousar, sozinho, negar a essência grega, essa essência que, em Homero, Píndaro, e Ésquilo, em Fídias, em Péricles, em Pítia e Dioniso, como o mais profundo dos abismos e a mais alta das alturas, está segura de nossa admiração assombrada? Que força demoníaca é essa, que pode atrever-se a despejar essa poção mágica no pó? Que semideus é esse, ao qual o coro espiritual dos mais nobres da humanidade tem de clamar: ‘_ Ai de nós! Ai de nós! Tu o destruíste, o mundo da beleza, com teu punho poderoso; ele desmorona, ele se desfaz!”
                                                                                 (Nietzsche 1987, p.12)

     Um Sócrates moribundo: (“A Gaia Ciência”, aforismo 340) “_ Admiro a bravura e sabedoria de Sócrates em tudo o que ele fez, disse _ e não disse. Esse zombeteiro e enamorado monstro e caçador de ratos de Atenas, que fazia estremecer e soluçar os jovens mais altivos, não era somente o mais sábio dos tagarelas que houve: ele tinha a mesma grandeza no calar (...) Mas, se foi a morte ou o veneno ou a devoção ou a maldade _ algo lhe soltou a língua naquele instante e disse: ‘Ó Críton, devo um galo a Asclépio’. Essa ridícula e  terrível ‘última palavra’  significa, para aquele que tem ouvidos: Ó Críton, a vida é uma doença!’ Será possível! Um homem como ele, que viveu sereno e diante de todos os olhos como um soldado_ era pessimista! Sócrates, Sócrates, sofreu com a vida!_ Ai, amigos! Temos de superar também os gregos!                                                                    (Nietzsche  1987, p.164)

     Evocação filosófica nietzschiana de uma Grécia passada, pré-socrática, cuja finalidade é diagnosticar os valores estabelecidos; tal subversão crítica exige a pergunta pela criação dos valores, porque para Nietzsche os valores não são transcendentes:

“Eu fui o primeiro que viu a primeira oposição: _ o instinto degenerado, que se volta contra a vida com subterrânea sede de vingança ( _ cristianismo, a filosofia de Schopenhauer, em certo sentido já a filosofia de Platão, o idealismo inteiro, como formas típicas), e, nascida da plenitude, da abundância, uma fórmula da suprema afirmação, um dizer-sim sem reserva, mesmo ao sofrimento, mesmo à culpa, mesmo a tudo o que é problemático e estranho na existência (...) Este último sim à vida, o mais alegre, o mais efusivamente arrogante (...) o dizer-sim à realidade, é para os fortes uma necessidade (...); os decadentes precisam da mentira (...) Quem não só compreende a palavra ‘dionisíaco’, mas se compreende na palavra ‘dionisíaco’(...) _ sente o cheiro da decomposição.”     (Nietzsche  1987, p.24)


JAMES JOYCE E AS BACAS

     Dublin: cidade das vozes. A influência do clássico, do mito, enfim, de Homero, é quem forneceu a James Joyce o andaime com o qual ele pôde construir o “edifício” ou a estrutura do seu “Ulisses”. Mas, se a odisséia homérica revela-se como  memória de um passado épico, cuja interioridade  heróica é claramente narrada, a poética joyciana em “Ulisses”, pelo contrário,  devido ao fluxo da consciência (transporte da voz interior para a linguagem, que se curva para comunicar não mais palavras conscientes ), mais próximo do inconsciente, é pura emanação de palavras, cores, sons, livremente associadas e sem qualquer ponto de referência. Daí, termos a nítida impressão de ouvirmos os personagens de “Ulisses”, característica aliás que imprime na obra um caráter mais sinfônico que narrativo ou até mesmo poético. Quando Jean-Michel Rabaté (1) recoloca em discussão a incômoda vertente da crítica literária, que sublinha Hermann Brock como o “Joyce alemão”, o referido crítico literário faz algumas alusões esclarecedoras quanto ao conteúdo de um artigo de Karl Jung, isto é, ao  “Ulysses: ein Monolog”. Numa discussão acerca do caráter alegórico de “Ulisses”, encetada por Jung, Rabaté questiona:

“(...) a questão do título e do ‘sujeito’ do romance: quem é Ulysses, o que simboliza, o livro não oculta símbolos? O único ponto ao qual Jung pode então chegar é o ‘eu criador’ em si mesmo, pois no ‘Ulysses’ romance, o Ulysses ‘sujeito’ será este eu, o equivalente de Fausto para Goethe, de Zarathustra para Nietzsche, um ‘Si’ que organizaria uma consciência da totalidade do livro (...)”                         (Rabaté  1992 , p.148-9)

     Ancorados nessas considerações, multiplicam-se os enigmas procedentes da escrita joyciana: alegorias do  “Eu”? Micelâneas de metáforas? Sabemos, exatamente, para que fronteiras nos leva James Joyce? Reordenação de um novo mundo para um novo homem? Vislumbre de um novo tempo para um novo homem desejoso em se libertar de valores decadentes? A isso parece claro que poderíamos chamar de elementos nietzschianos na escrita joyciana: “A evolução progressiva da arte resulta do duplo carácter do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco”, são as palavras inaugurais de Nietzsche na obra “Origem da Tragédia”. Apolo e Diónisos, estas duas divindades da arte andam lado a lado. Porém, desconcertadamente, face a face,  Antigüidade e  Modernidade = têm-se, então, os pares de opostos. De um lado, o herói homérico Odisseus. De outro, o anti-herói joyciano Leopold Bloom. De um lado, a fidelidade de Penélope;  d’ outro, a infidelidade de Molly Bloom... Os dois instintos impulsivos andam lado a lado? Homero (Antigüidade) e James Joyce (Modernidade). Floresta de signos...
     No texto clássico, as significações limitada. No texto moderno, a proliferação dos sentidos, ou melhor, a desorientação.
     Foi vã a tentativa de Nietzsche em procurar acomodar literalmente o trágico como algo de universalmente humano aos espectadores modernos, que, aliás, já não contam com valores absolutos, mas são dilacerados pela história?  Elegendo o drama barroco alemão como objeto de estudo, o leitor nietzschiano Walter Benjamin refuta o conceito tradicional da estética clássica, endereçando severas críticas a Nietzsche, pois,

“Na verdade, nada é mais problemático que a competência do ‘homem moderno’ para julgar, sem qualquer orientação, à luz dos seus sentimentos, e mais ainda quando se trata de um julgamento sobre a tragédia. Essa tese está documentada no ‘Geburt der Tragodie’, publicado quarenta anos antes da ‘Asthetik des Tragischen’, e se torna ainda mais plausível se se leva em conta o simples fato de que o teatro moderno não conhece nenhuma tragédia que se assemelhe à dos gregos. Desconhecendo esses fatos, tais teorias dão a entender, presunçosamente, que ainda hoje é possível escrever tragédias.” (Benjamin 1984, p.124)
 
     Além disso,  Benjamin, compreendendo as diferenças conceituais entre o drama barroco (que visa o espaço interno dos sentimentos) e a tragédia (que visa a catarse purificadora) - ambos igualmente comparados por estudos literários tradicionais -, entende que essas duas formas de expressão pertencem a universos espirituais distintos.

“O mito trágico é para Nietzsche uma construção puramente estética, e a interação de energias apolíneas e dionisíacas, da aparência e da dissolução da aparência, permanece restrita à esfera estética. Tendo renunciado a um conhecimento histórico-filosófico do mito trágico, Nietzsche pagou um preço alto por seu projeto de emancipar a tragédia  dos lugares-comuns morais com que os comentadores a desfiguravam (...) Quando a arte ocupa na existência  uma posição central que os homens são vistos como manifestações dessa arte, e não como o seu fundamento, não como seus criadores, mas como os temas eternos das criações artísticas, podemos dizer que não há mais base para a reflexão racional.”                                                                       (Benjamin 1984 , pp.125-6)


DIALOGISMO E POLIFONIA

     Acomodar o texto ao de / em outra época. Devemos observar que a intertextualidade na obra de Mikhail Bakhtin é, antes de tudo, a intertextualidade interna das vozes que falam e polemizam no texto, num texto, nele reproduzindo o diálogo com outros textos. Os fios dialógicos de vozes completam-se ou respondem uns aos outros. Em Bakhtin afirma-se o primado do intertextual sobre o textual. A paródia e o diálogo intertextual:

“Bakhtin é um dos primeiros a substituir o recorte estático dos textos por um modelo onde a estrutura literária não é / não está mas se elabora em relação a uma outra estrutura (...) Cruzamento de superfícies textuais, diálogos de várias escrituras (...) todo texto é absorção e transformação de outro texto. No lugar da noção de intersubjetividade instala-se a noção de intertextualidade”.(apud Kristeva  1993, p.93)   (2)

     E, assim, os “nós” da literatura e da filosofia tecem brilhantemente o intertextual:

     Zaratustra anuncia: “seduzir e afastar muitos do rebanho - eis a meta a que vim”. Com plena aceitação do real até em seus piores aspectos, Zaratustra, mensageiro da moral do super-homem, diz SIM a este mundo, o único.

     Nietzsche:  “_ O dizer-sim à vida, até mesmo em seus problemas mais estranhos e duros.”

     Molly Bloom (3):  “_  ...  E EU PUXEI ELE PRA BAIXO PRA MIM PARA ELE PODER SENTIR MEUS PEITOS TODOS PERFUME SIM O CORAÇÃO DELE BATIA COMO LOUCO E SIM EU DISSE SIM EU QUERO SIMS.”

     Nietzsche: “_ O dizer-sim à vida, (...) alegrando-se no sacrifício dos seus tipos mais superiores à sua própria inexauribilidade”.

     Molly Bloom: “_ ...  ET JE L’AI ATTIRÉ SUR MOI POUR QU’IL SENTE MES SEINS TOUT PARFUMÉS OUI ET SON COEUR BATTAIT COMME FOU  ET OUI J’AI DIT OUI JE VEUX BIEN OUI.”

     Nietzsche: “_ ... o dizer-sim à contradição e à guerra, o vir-a-ser, com radical recusa até mesmo do conceito de ‘ser’ ” .

     Molly Bloom: “_ ... AND DREW HIM DOWN TO ME SO HE COULD FEEL MY BREASTS ALL PERFUME YES AND HIS HEART WAS GOING LIKE MAD AND YES I SAID YES I WILL YES.”

     Nietzsche: “Alguém, neste final do século dezenove, tem nítida noção daquilo que os poetas  de épocas fortes denominavam inspiração? Se não, eu o descreverei...”         (Nietzsche, Ecce Homo)

     Benjamin (1984), citando Rosenzweig : “ ... a tragédia moderna visa um fim desconhecido pela antiga, a tragédia do homem absoluto em sua relação com o objeto absoluto”.




NOTAS

1. Referimo-nos ao ensaio 'Broch e Joyce'. In “riverrun: ensaios sobre James Joyce. Org. Arthur Nestrovski. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

2. Cf. LOPES, Edward. “A palavra e os dias: ensaios sobre a teoria e a prática literária”. São Paulo: Editora Unesp x Unicamp, 1993.

3. Cf. “Ulisses”, de James JOYCE. Moly Bloom é mulher do protagonista do referido romance, isto é, do personagem Leopold Bloom.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. “A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais”. São Paulo: Hucitec, 1987.

BENJAMIN, Walter. “Origem do drama barroco alemão”. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1984.

HÉBER-SUFFRIN, Pierre. “O ‘Zaratustra’ de Nietzsche”. Tradução Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.

____________. “Ulysse”. Traduction Auguste Morel e Stuart Gilbert. Paris: Gallimard, 1948.

____________. “Ulysses”. New York: First Vintage Books Edition, 1986.

LOPES, Edward. “A palavra e os dias: ensaios sobre a teoria e a prática da literatura”. São Paulo: Editora Unesp x Unicamp, 1993.

NESTROVSKI, Artur. (Org.) “riverrum: ensaios sobre James Joyce”. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

NIETZSCHE, F.W. “Ditirambos de Diónisos”. Tradução Manuela Sousa Marques. Lisboa: Guimarães Editores, 1993.

NIETZSCHE, Friedrich W. “Obras incompletas”. 4 ed. 2 v. Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1987.



PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
Campinas, é outono de 2006
SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 11/05/2006
Código do texto: T154514

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
267 textos (352015 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 00:20)
SÍLVIO MEDEIROS