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Paulo Leminski - Biografia e Análise.
Por Sabrina de Araujo



                               Enigmas Leminskianos
                   “Decifra-me ou Devoro-te”


          Paulo Leminski Filho nasceu no dia 24 de agosto de 1944 em Curitiba (PR). Seu pai era Polonês e a mãe, Áurea Pereira Mendes, era brasileira. Leminski desde muito jovem chamou a atenção por sua intelectualidade, cultura e genialidade. Estava sempre em erupção e assim produziu muito. É dono de uma extensa e relevante obra. Participou do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda em Belo Horizonte onde conheceu Haroldo de Campos, amigo e parceiro em várias obras. Leminski casou-se aos dezessete anos, com a desenhista e artista plástica Neiva Maria de Sousa (da qual se separou em 1968).

          Estreou em 1964 com cinco poemas na revista Invenção, dirigida por Décio Pignatari, em São Paulo, porta-voz da poesia concreta paulista. Em 1965, tornou-se professor de História e de Redação em cursos pré-vestibulares. No ano de 1966 foi classificado em primeiro lugar no II Concurso Popular de Poesia Moderna. Casou-se em 1968 com a também poetisa Alice Ruiz, com quem viveu durante vinte anos. Tiveram três filhos: Miguel Ângelo (que morreu com dez anos de idade, vítima de leucemia), Áurea (homenagem a sua mãe) e Estrela. De 1969 a 1970 decidiu morar no Rio de Janeiro, retornando a Curitiba para se tornar diretor de criação e redator publicitário.

          Dentre suas atividades, criou habilidade de letrista e músico. Verdura, de 1981, foi gravada por Caetano Veloso no disco Outras Palavras. Na poesia de Paulo Leminski, a influência da MPB é tão clara que o poeta paranaense só poderia mesmo tê-la reconhecido escrevendo belas letras de música, como Verdura.

          Por sua formação intelectual, Leminski é visto por muitos como um poeta de vanguarda, todavia por ter aderido à contracultura e ter publicado em revistas alternativas, muitos o aproximam da geração de poetas marginais, embora ele jamais tenha sido próximo desses poetas. Por sua vez, em muitas ocasiões declarou sua admiração por Torquato Neto, poeta tropicalista e que antecipou muito a estética da década de 1970.

          Na década de 1970, teve poemas e textos publicados em diversas revistas - como Corpo Estranho, Muda Código (editadas por Régis Bonvicino) e Raposa. Em 1975 lançou o seu ousado Catatau, que denominou "prosa experimental", em edição particular. Além de poeta e prosista, Leminski era também tradutor (traduziu para o castelhano e o inglês alguns trechos de sua obra Catatau, a qual foi traduzida na íntegra para o castelhano).

          Paulo Leminski foi um estudioso da língua e cultura japonesas e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. Entre 1984 e 1986, em Curitiba, publicou o livro infanto-juvenil ‘’Guerra dentro da gente’’.  Entre 1987 e 1989 foi colunista do Jornal de Vanguarda que era apresentado por Doris Giesse na Rede Bandeirantes.  A última publicação em vida de Leminski foi “Nossa Linguagem” , um ensaio sobre a linguagem curitibana. 
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          O poeta morreu no dia 7 de junho de 1989 de hepatite etílica aos 44 anos, ironicamente, exatamente como disse que não gostaria de morrer “não quero acabar como Fernando Pessoa com hepatite etílica aos 44 anos”.( carta a Régis Bonvicino, em 13 de abril de 1978). O livro de poemas “de L aVie en Close” é publicado postuamamente em 1991.

          De imediato na poética de Paulo Leminski, o que me chamou a atenção foi o fato do poema iniciar em minúsculo e terminar sem ponto final.Talvez a explicação seja a mesma dada pelo poeta Chicco Lacerda, que ao ser questionado sobre o motivo de alguns dos seus poemas não iniciarem com letra maiúscula e terminarem sem ponto final, respondeu que poesia não tem inicio nem fim.
 
                                   “sossegue coração
                                    ainda não é agora
                                a confusão prossegue
                                         sonhos a fora”

          Os versos de Leminski parecem um rio de águas tranquilas em um primeiro contato. Um rio sereno que cantarolando nos embala em rimas e ritmo, porém, ao entrar nesse rio e mergulhar nessas águas, nos deparamos com um rio ora raso, ora fundo; ora límpido, ora turvo; ora sereno, ora agitado. 
 
                                     quando eu vi você
                               tive uma idéia brilhante
                            de dentro de um diamante
                                 e meu olho ganhasse
                              mil faces num só instante

                                    basta um instante
                            e você tem amor bastante

                                     amar é um elo
                                       entre o azul
                                      e o amarelo
          Esse poema é um exemplo de como em um primeiro momento podemos nos enganar, atraídos por palavras que nos encantam , mas que depois nos faz adentrar no referido labirinto do texto de Fred Góes e Álvaro Martins “ Labirinto sem Limites”, que compara os poemas de Leminski ao labirinto do Minotauro,  e os leitores a um Teseu; porém há um agravante, esse labirinto lesminskiano é sem limites, o que nos leva a pensar que talvez não seja suficiente ser um Teseu.

          O legado dos versos de Leminski é o questionamento, a reflexão, “ amar é um elo entre o azul e o amarelo”. Seria o amor um gancho a unir duas pessoas diferentes? Seria o amor o verde por não ser uma cor apenas? Cada um precisa construir a sua própria resposta. 

          Sem se enquadrar em definições, o paranaense se destaca pela singularidade da miscelânea. Sua obra tem características do barroco, do concretismo, dos poemas clássicos etc, embora predomine a estética moderna. Leminski inventou um jeito próprio de escrever poesia, preferindo poemas breves, muitas vezes fazendo haicais, trocadilhos, ou brincando com ditados populares. A proposta era dizer o máximo com o mínimo em seus poemas diminutos.
 

                                   Aqui jaz um grande poeta.
                                        Nada deixou escrito.
                                     Este silencio, acredito,
                                 São suas obras completas.

                              (Lápide 1 – epitáfio para o corpo)
          O poeta curitibano foge do óbvio, disseminado em seus escritos enigmas a serem desvendados, e aos que não são bem sucedidos, o destino é o mesmo das vítimas da Esfinge, pois a sensação, de certo, é a mesma. Somos devorados pela inquietação de perceber que algo nos escapa, de que idéias pairam no ar e não conseguimos apanhá-las.
 


Referencia:

GOÉS, Fred. MARTINS, Álvaro. Labirinto Sem Limite. 



                                                          
Sabrina Mori Araujo
Enviado por Sabrina Mori Araujo em 22/07/2009
Reeditado em 19/08/2012
Código do texto: T1714133
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sabrina Mori Araujo
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