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Mário de Sá Carneiro / Análise de um Poema.

Parte I – Mário de Sá Carneiro

O escritor português quando tinha dois anos sua mãe morreu, o pai começou uma viagem de negócios e deixou o seu filho na casa de avós. Sá Carneiro iniciou escrevendo no jornal O Chinó, jornal satírico da escola, todavia desistiu por achar o jornal demasiadamente satírico. Mário chegou a matricular-se na Faculdade de Direito de Coimbra em 1911, mas não chegou sequer há concluir o ano.

Mário de Sá Carneiro como poeta é esdrúxulo, melancólico, alucinado, iludido e pessimista, pois seus descontentamentos com a vida e com o que acontece nela deixam-no deprimido e com certa vontade de deixar de viver e cometer suicídio – e o cometeu quando sua vida estava financeiramente ruim, com isso deixando-o no mais profundo estado lastimável, antes de morrer escreve uma carta ao Fernando Pessoa, seu amigo que conheceu na revista Orpheu, revista literária do modernismo.

O poeta apresenta isso em seus poemas, além de apresentar sinais formais, por que seus poemas possuem métrica, que pode ser de redondilha menor ou maior, decassílabos, ou alexandrinos, rimas e possuírem formas criativas para os seus poemas, contudo sem deixar a formalidade da técnica e critérios.

Seus poemas apresentam também certa brevidade e desprezo à vida, como este chamado Fim:

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.


 
Parte II – Análise de um Poema

Quase

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão...
Mas na minh’alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
– Ai a dor de ser – quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...



Em Quase, formalmente descrevendo, há nos seus oito primeiros quartetos metrificação em decassílabos, no primeiro quarteto as rimas são alternadas e no segundo as rimas são interpoladas no primeiro e quarto verso enquanto que no segundo e terceiro as rimas estão idênticas, o poeta faz esse jogo dos dois primeiros quartetos em cada dupla de quartetos no poema; no ultima parte do poema que é um quinteto Mário deixa o primeiro verso com quartoze sílabas poéticas, o segundo fica com duas, o terceiro e o quinto ficam alexandrinos e o quarto com seis sílabas, as rimas são alternadas do primeiro ao quinto verso, fazendo ABABA.

Analisando o poema em seu significado, ele passa dum modo triste sobre a falta de algo em sua vida, mas que talvez tenha chegado perto de realizar-se, porém mesmo assim isso machuca e deprime o poeta deixando-o a ponto de achar que nada vez em sua vida e para a sua vida, bem como fá-lo querer fugir da vida deixando assim em seu poema uma imagem noturna e sombria perto do oceano, fazendo perceber sentidos de frieza e tristeza constantes, além do sofrimento e alto-tortura que o poeta se faz, e com uma dimensão desse outro mundo que o poeta tanto desejara: o da Morte.

Mário de Sá Carneiro mostrou técnica e sensibilidade ao escrever este poeta, provando assim um dos melhores poetas do Modernismo de Portugal, mostrando assim sua qualidade.



                                                           (Bruno Fagundes Valine)
Poeta Lendário
Enviado por Poeta Lendário em 29/08/2011
Código do texto: T3188151
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Sobre o autor
Poeta Lendário
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