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O Ser e o Tempo da Poesia, de Bosi, na Fábula de Fogo, de Gilberto Mendonça Teles

As palavras “ser” e “tempo”, utilizadas por Alfredo Bosi em sua obra, constituem-se em um verdadeiro jogo criativo da inteligência em movimento, alerta e sensível, no espaço que vai do geral ao particular; dos parâmetros da essência às formas de sua atualização histórica; do ser ao tempo da poesia. O ser da poesia, aimagem que “busca aprisionar a alteridade estranha das coisas e dos homens”; o som no signo, “a figura do mundo e a música dos sentimentos” recuperadas via linguagem; o ritmo da frase do discurso poético, “imagem das coisas e movimento do espírito”; esses são conceitos que Bosi nos transmite de forma brilhante. Alfredo Bosi é um grande divulgador das idéias estéticas do filósofo italiano, Giambattista Vico, que foi uma mente poética em tempos analíticos e investigou o ser da Poesia, em termos de linguagem, numa abordagem antecipadoramente estrutural.


Ao abranger o tempo da poesia, Vico, analisa a resposta dos poetas ao estilo capitalista e burguês de viver, desde “o autismo altivo” do “símbolo fechado” à paródia negativista que “brinca com o fogo da inteligência”; os valores religiosos, éticos e políticos da ideologia a fundarem de perspectiva.

O interesse de Bosi é pelo “Ser” e a “Origem” da Poesia. Ele busca salientar o primado da linguagem poética numa nova ordem de valores. Bosi faz uma analise da orientação pedagógica de Vico, que apelava para que a Filosofia não se isolasse em “puras abstrações lógicas”, mas que ela tivesse interesse, desenvolvesse interesses, também, no campo de outros “produtos culturais, como a literatura. Era preciso dar destaque à arte da invenção, tendo em primeiro plano a arte poética e o espírito platônico”. Segundo o filosofo Vico, seria uma “pretensão quimérica”, querer, com a lógica, explicar todas as realizações humanas, como a poesia, que não pode ser demonstrada logicamente, não tendo assim nada a ver com as “verdades matemáticas”.

Segundo o comentário do professor Bosi, Vico distingue a “linguagem mítica da linguagem silogística”. Na “linguagem mítica”, está contida a mimese de Aristóteles, ou seja, a verossimilhança da Arte, que não é a realidade pura e simples, mas algo semelhante a realidade à realidade. Na linguagem silogística está amarrada a sentenças precisas. O único modelo do saber, o lógico, está ultrapassado, e torna assim a Filosofia impraticável numa conversação em que entrasse a experiência da Poesia. Não haveria diálogo entre mimese e logicidade. A redução do conhecimento à razão seria comoreduzir o sensível, inteiramente, ao sentido.

Portanto, em seu livro “O Ser e o Tempo da Poesia”, Alfredo Bosi, constrói uma teoria/crítica que focaliza a Literatura, mas também dá destaque a erudição e o interesse humanístico tornando-a transcende para todas as outras formas de arte e expressões da cultura humana: música, artes plásticas, religião, mitologia, filosofia, psicologia, antropologia e até mesmo a sétima arte, o cinema.

Bosi ressalta que Vico procura a união entre Filosofia e Filologia, isso porque ele considera a linguagem um repositório de mitos, de fábulas, o que chamam de “expressões do espírito”, a cuja vinculação se acha, de modo preponderante, a Poesia. O professor Bosi, desenvolve seu estudo no sentido de que não haja uma separação entre o sensível e o inteligente. Nos nossos dias, há também essa tendência entre a Filosofia e a Estética, em reconhecer os dois estados, o do sensível e o da inteligência. Tal postura, em relação à aceitação das duas categorias, separadamente, seria hierarquizar o saber, ou seja, o luminoso e o cego, o racional e o sensível, o lógico e o empírico. Portanto, os modos de dizer e de pensar unem o significante e o significado, e o lado sensível do ser humano adquiriria maior liberdade. Vico foi o fundador da Estética moderna, filosoficamente falando, como uma “fenomenologia do saber imaginário”, do fantástico. Ele monta a palavra “mitopoética” exatamente para indicar a origem sagrada das posturas antigas do “saber sensível”.

Neste artigo, procurarei ver como a construção de um poema aplica de maneira prática, e como os conselhos de Bosi são essenciais neste desenvolvimento. O poema utilizado será de Gilberto Mendonça Teles, de sua obra, “Fábula de Fogo” (1961), com o poema que se intitula: Poética. Trata-se de um “metapoema”, onde Gilberto Mendonça Teles, fala sobre a arte de fazer poema. Com seus versos curtos, composto de sestinas, ele nos explica como a construção de um poema pode ser comparado a construção da vida. Vejamos a seguir, o poema na integra, e logo após faremos uma analise utilizando os conceitos apresentados por Alfredo Bosi.


Poética

I

Resolvo o meu poema
Sob o silêncio neutro
Das palavras perdidas
Na paisagem dos signos.

Pois saibam todos que
Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Não dessa realidade
Contida num cristal,
Alegre e transparente
E sem tranqüilidade.

Mas desta que sustenta
O seu próprio realce.
Sossegada em si mesma
Mas pronta para o salto.
Às vezes moderada
E muda, mas presente.
Presente e tão constante
Na sua exatidão
Que chega a ser um campo
Como os demais. E chega
A ser apenas número
Sem forma e distinção,
Ou qualquer vegetal
Entre os outros vegetais,
Ou simples edifício
Plantado indiferente
No centro da cidade.

II

Não também esta real
Ou falsa coisa-pedra
Ou qualquer coisa mesma
Impalpável ou não.
Uma árvore sem caule,
Presa no ar, calada,
Gesticulando apenas
A sua discrição.
Ou pássaro prudente,
Tranqüilo no seu vôo,
Também suspenso e mudo
Nalguma solidão.

Nem rio que se faça
Em rio de brinquedo
Espada de aço impuro
Entre a prudência e a mão.
Espada de tão curva
Que o contato da tarde
Arqueia no horizonte,
Nada que só pudesse
Valer-se de seu pouso
Para lançar no espaço
Um cone de penumbra,
E que durasse apenas
O tempo de uma lâmpada
Acesa na memória.

III

Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Melhor dizer, aquém
Da própria realidade
Ou dentro dela mesma
No que ela tem de puro,
De triste, de tão sujo
Que nela se mistura
E se torna o sinal
Da antiga transparência
Daquilo que se sabe
Ser leve como a vida.
Ou seja, a própria vida
Que por ser vida é breve
E por ser breve em nada
Perturba a cor do tempo
Na sua eternidade.

Assim, meu mundo é o mundo
Com suas coisas todas.
Imagens retorcidas
Nas contrações do olhar
E reduzidas todas
Ao mais puro silêncio.
E que, por ser milhares,
Se juntam noutro mundo,
Noutra paisagem, dentro
Da nova realidade
Cuja face de sombras
Amanhece cantando
No poema.


Na primeira estrofe, da primeira parte, podemos perceber a orientação do autor em como se faz um poema.

Resolvo o meu poema
Sob o silêncio neutro
Das palavras perdidas
Na paisagem dos signos.

Segundo Bosi, existe uma “maleabilidade infinita” com que o homem pode trabalhar a matéria fonética, estabelecendo assim uma relação constante e congruente entre o som e o sentido. E até do silêncio, que parece puro vazio, ausência de som, o poeta arranca de lá um mar de significados. Assim, se completa o objetivo principal da nossa linguagem que é dar uma direção, suprir a ausência de pessoas, coisas e ações e conseguir assim extrair ou fazer com se exprima sentimentos e pontos de vista, relacionados com a experiência vivida.

Os primeiros homens, como se fossem crianças do gênero humano, não sendo capazes de formar gêneros inteligíveis das coisas, “tiveram necessidades naturais de imaginar os caracteres poéticos, que são gêneros ou universais fantásticos”. Assim a poesia foi fundada “nas exigências de simbolização, dos primeiros homens, e ela, a poesia, sobrevive por uma espécie de lei eterna”, porque, no ser humano, parece existir uma necessidade de criação simbólica, e esta pode ser encontrada até mesmo no silêncio, na ausência de som.

Na segunda estrofe, da primeira parte, há uma busca do além físico, ele, o poeta, passa a considerar os efeitos que o tempo teve sobre o seu entendimento da vida e consequentemente em sua forma de fazer poesia. Assim, o poeta passa a recordar uma realidade já vivida, que por ser uma recordação, essa realidade já está no coração e, portanto, nem é mais uma realidade e sim uma invenção.

Pois saibam todos que
Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Não dessa realidade
Contida num cristal,
Alegre e transparente
E sem tranqüilidade.

Nesta busca que o poeta faz do além físico, há uma “retração decidida da linguagem para si e em si própria”. Ele atinge uma liberdade tal, na forma de colocação de seu poema, que se sente a vontade para mover o seu campo de aplicação do campo histórico e político para um espaço intratextual cujo referente é uma entidade metafísica, maiúscula (a Sensação, o Belo, o Ser, o Nada) ou a própria letra. Veja que ele alcança a partir desse momento histórico, um grau muito alto de autonomia, e o que no parnasianismo, era pensado como adequação da linguagem às coisas, passa a ser visto como inerente aos materiais do poema: os sons, os ritmos, as imagens verbais.

Mas a verdade dessa posição, ou desse recordar, é uma meia verdade, uma invenção. Entre a primeira formulação do poema e a essa segunda aparição, pela recordação do signo, o tempo passou, correu. Segundo Bosi, “O tempo é que faz crescer a árvore, rebentar o botão, dourar o fruto”. A recordação, a volta, não reconhece apenas, o aspecto das coisas que voltam, ela abre também o caminho para sentir o seu ser. A palavra que retorna pode dar à imagem evocada a aura do mito. A volta é um passo adiante na ordem da conotação, logo na ordem do valor. Então o que antes não tinha tanto sentido, passa a ter, o que antes tinha uma carga sentimentos, passa a não ser diferenciado das coisas do cotidiano. Ou seja, o mesmo movimento que permite o sossego do retorno pode aceder à diferenciação para a frente do discurso.

Passando para a terceira estrofe, da primeira parte, nota-se que o poeta se concentra na busca de uma realidade estética. Ele está ciente de que a linguagem verbal está ligada a visão, enquanto que nosso pensamento está vinculado aos sons, tanto que não conseguimos pensar em algo que não tem nome. O texto que, ora está parado, pode de repente saltar diante de nossos olhos e assim fazendo tem o poder de mudar nossos sentimentos mudando o ritmo de nosso coração.

Mas desta que sustenta
O seu próprio realce.
Sossegada em si mesma
Mas pronta para o salto.
Às vezes moderada
E muda, mas presente.
Presente e tão constante
Na sua exatidão
Que chega a ser um campo
Como os demais. E chega
A ser apenas número
Sem forma e distinção,
Ou qualquer vegetal
Entre os outros vegetais,
Ou simples edifício
Plantado indiferente
No centro da cidade.

A uma comparação do poema com a paisagem. Se o que compõe a paisagem são os vegetais, da mesma forma, o que compõe o poema são as palavras. Um poema não é feito de idéias, um poema é feito de palavras. Havendo uma interação das palavras é formada uma imagem perceptível e as imagens aparecem ao olho como algo de firme, de consistente.

A teoria da forma ensina que a imagem tende, para nós, ao estado de sedimento, de quase-matéria posta no espaço da percepção, idêntica a si mesma. Nós acreditamos fixar o imaginário de um quadro, de um poema, de um romance. Quer dizer: é possível pensar em termos de uma constelação, se não de um sistema de imagens, como se pensa em um conjunto de astros. Como se objeto e imagem fossem entes dotados de propriedades homólogas.

Mas somos advertidos do perigo do engano, mesmo que parcial, que a identificação pode supor. A imagem não decalca o modo de ser do objeto, não há uma reprodução exata do ser, ainda que de alguma forma essa identificação nos ajude a apreender o objeto. Isso se dá, porque o imaginado é, ao mesmo tempo, dado e construído. Dado, enquanto matéria. Mas construído, enquanto forma para o sujeito. Dado: não depende da nossa vontade receber as sensações de luz e de cor que o mundo provoca. Mas construído: a imagem resulta de um complicado processo de organização perceptiva que se desenvolve desde a primeira infância.

O paladar, o gosto muda com o tempo. Quando criança, a nossa preferência era certamente por coisas doces e coloridas, agora como adultos já somos capazes de comer verduras, inclusive jiló, e até apreciarmos o seu amargo. O mesmo se dá com os sentidos, a medida do tempo, vamos fazendo uso de um, de outro, de outro e com o passar dos anos, a junção destas sensações, destes sentidos formam a realidade para nós naquele presente no tempo. Ou como nos diz Bosi, nós, submetemos a matriz imagética a uma bateria de relações que excitaram os poderes diferenciadores do enunciado. A um movimento das relações de modo, tempo, número, pessoa, causa, inclusão, oposição e contradição.

Neste ponto somos levados a considerar a potência expansiva do discurso, a reflexão filosófica tem de ser aplicada junto à formação das imagens, para que se chegue a uma formação da realidade. Se pegássemos apenas a imagem absoluta, sem a reflexão filosófica do discurso, ou a potência expansiva, esta nos daria a sensação de algo empedrado: “o meio do caminho o meio do caminho o meio do caminho a selva a selva a selva”. Quando se faz uma fragmentação da imagem pela reflexão filosófica, esta se revelará neste processo expansivo, com um grande poder de antecipação.

A seguir, passemos para a primeira estrofe da segunda parte, onde o poeta estabelece um diálogo com o leitor, nas suas considerações sobre os efeitos do ritmo, relacionado com os sons, no entendimento poético.

Não também esta real
Ou falsa coisa-pedra
Ou qualquer coisa mesma
Impalpável ou não.
Uma árvore sem caule,
Presa no ar, calada,
Gesticulando apenas
A sua discrição.
Ou pássaro prudente,
Tranqüilo no seu vôo,
Também suspenso e mudo
Nalguma solidão.

Para o entendimento da poesia a um andamento, uma movimentação rumo a formulação da realidade, isto é feito por se usar palavras que alterem o ritmo do poema, assim o leitor é movidos a buscar uma posição, a assumir qual lado assumirá nesta reflexão filosófica a que é submetido o poema.

O andamento da poesia é um efeito móvel da compreensão. É o modo sonoro pelo qual se dá a empatia entre o leitor e o texto. Neste andamento se conjugam fôlego, intenção, duração. Dele dependem, na leitura e na execução musical, as medidas internas do ritmo. O andamento é o tempo qualificado. É necessário apreciar na sua justa medida o poder semântico do andamento. Ao se visualizar e ler um texto poético é preciso fazer uma interpretação dos acontecimentos, vivenciar o andamento do poema, desta forma se consegue perceber em qual sílaba se deve concentrar o apoio do sopro vocal, e que sílabas devam rolar vibráteis e brandas pelo intervalo que separa os momentos fortes do período.

Nesta estrofe é sintetizada a filosofia de Saussure, em que ele afirma que a Linguagem humana é “pensamento-som”. O interessante é que o pensamento e o som, não se comunicam entre si, mas já aparecem na sociedade, reunidos em articulações que se chamam signos. Novamente reafirmamos o fato de o homem ter vinculo entre o pensamento e o som, não se consegue pensar em algo que não se tenha nome. Para Saussure, nada há de verbal aquém da síntese pensamento-som, nem além dela. O som em si e o pensamento em si transcendem a língua. A experiência, porém, mostra que a poesia vive em estado de fronteira, entre o pensamento e o som. No poema, força-se o signo para o reino do som.

Constitui um fenômeno histórico e social, a conjunção de certos pensamentos a certos sons. Na teoria de Saussure, isto é chamado de “arbítrio”, ou seja, sem um aviso prévio o signo pode se tornar irreconhecível, ou pode permanecer em um estado por um longo tempo. Bosi, diz que o signo não se comporta como uma espécie fixa do mundo vegetal, como por exemplo, uma samambaia, que se reproduz idêntica em nosso planeta há trezentos milhões de anos. O seu valor apura-se exato em um contexto. E as conotações que o penetram são, quase sempre, ideológicas.

Na segunda estrofe, da segunda parte, Gilberto Mendonça Teles, faz alusão ao trabalho do poeta, este não é simples, é árduo, é sofrido, precisa-se esperar o seu tempo determinado, não a como se apressar uma poesia, contudo sem a pesquisa, sem se perscrutar os caminhos sinuosos das palavras, não se consegue chegar a trabalho satisfatório.

Nem rio que se faça
Em rio de brinquedo
Espada de aço impuro
Entre a prudência e a mão.
Espada de tão curva
Que o contato da tarde
Arqueia no horizonte,
Nada que só pudesse
Valer-se de seu pouso
Para lançar no espaço
Um cone de penumbra,
E que durasse apenas
O tempo de uma lâmpada
Acesa na memória.

“O tempo de uma lâmpada acessa na memória”. Quanto trabalho, quanta pesquisa foram necessários para se chegar a este exato momento, em que o poeta é recompensado pelo seu diligente trabalho, a composição da poesia. O poeta obter esta imagem no poema, que nada mais é do que uma palavra articulada, a síntese do signo. Desta forma, a matéria verbal se enlaça com a matéria significada por meio de uma série de articulações fônicas que compõem um código novo, a linguagem.

O valor da escuridão, de angústia ou da morte não se produz apenas no som da vogal, mas em todo o processo de sonorização do tema, que enlaça o jogo de ecos e contrastes, o ritmo, o metro, o andamento da frase e a entoação. Um poema não se torna trágico somente por se incluir a palavra morte de uma forma isolada, como também não se tornaria um poema de amor somente por constar neste texto a palavra amor, ou beijar ou se abraçarem. Para que haja um sentimento, para as palavras evoquem o poder dos sentidos é necessário toda uma construção sonora e reflexiva no poema. Não dar essa base para que as palavras assumam seus significados com vigor, seria o mesmo que querer começar a construção de um edifício pelo último andar, isso não será com certeza possível, somente depois de toda uma estrutura de base estar pronta é que pode atingir o clímax, o último andar.

No poema, deve-se evitar forçar o sentido das palavras, ou não se pode torcê-las para que dêem um resultado desejado. Quando falta um esforço integrador, resultam pobres não poucas análises apenas fonológicas; e dessa carência vem o “sentimento de forçar a mão que tantas vezes inspiram”, nos diz Bosi.

Na primeira estrofe, da terceira parte, Gilberto Mendonça Teles, descreve um acordo subjetivo entre as reações globais. Ele nos mostra que esta em andamento uma construção e reforça ainda mais a necessidade de se reforçar as estruturas desta construção. Mas que construção está sendo erguida? Como a idéia de imagem, vem completar esse quadro da realidade? O poeta, nos faz pensar em quando olhamos para as nuvens nos céus e conseguimos visualizar um cachorrinho, ele está lá, lindo, fofinho, mas no momento seguinte, quando desviamos nosso olhar por alguns segundos: Puft! Sumiu! O cachorrinho desapareceu, e em seu lugar surge outra personagem qualquer. O signo pode também mudar o seu sentido, quase como num estalar de dedos, ou pode se manter em uma forma estável por um período grande.

Meu mundo tem raízes
Além da realidade.
Melhor dizer, aquém
Da própria realidade
Ou dentro dela mesma
No que ela tem de puro,
De triste, de tão sujo
Que nela se mistura
E se torna o sinal
Da antiga transparência
Daquilo que se sabe
Ser leve como a vida.
Ou seja, a própria vida
Que por ser vida é breve
E por ser breve em nada
Perturba a cor do tempo
Na sua eternidade.

Vemos destacado pelo poeta a importância dos sentidos em se estabelecer a realidade. Neste ponto, me lembro do conceito de Santo Agostinho, para ele o olho é o mais espiritual dos sentidos. E, por trás de Santo Agostinho, todo platonismo reporta a idéia de visão. Conhecendo por mimese, mas de longe, sem a absorção imediata da matéria, o olho capta o objeto sem tocá-lo, degustá-lo, cheirá-lo, degluti-lo. Intui e compreende sinteticamente, constrói a imagem não por assimilação, mas por similitudes e analogias. Daí, o caráter de hiato, de distância, terrivelmente presente às vezes, que a imagem detém; daí, o fascínio com que o homem procura achegar-se à sua enganosa substancialidade.

Bosi nos diz que mineradores do Id, tais como Freud e bacherlad, tentam neste ponto construir uma ponte entre a imaginação “ativa” e o poema. Porém, deve-se evitar pular da imagem diretamente ao texto, é preciso atravessar o curso das palavras, o seu discurso.

A imagem é influenciada por forças ópticas e psíquicas. A uma carga de tensão em cima da palavra “imagem” e do que ela representa, supõe claramente que se admite um caráter motivado nos processos semânticos, em jogo. Este é realmente um critério válido, segundo Bosi, para se acentuar as virtudes miméticas ou expressivas da onomatopéia e da metáfora, mas sempre é discutível quando este processo parece confundir a natureza lingüística das figuras com a matéria mesma, visual ou onírica, da imagem.

O caráter motivado está presente também nas palavras. Portanto, Bosi nos diz que há palavras que são ditas motivadas, há na verdade, um acordo subjetivo entre as reações globais, sensoriais e emotivas, e o modo de articulação de um determinado som.

Bosi vai ao ponto de dizer que o limiar da expressão, supõe movimentos internos ao corpo. Ou seja, os signos de maior dose de motivação seriam portadores de certas sensações que integram experiências fundamentais ao corpo humano. É claro, que estes “signos motivados”, não fazem uma “pintura” de objetos exteriores, como se os reproduzissem na integra. Não, mas, esse movimento de construção se faz dentro do organismo em ondas movidas pelo poder de significar.

Em alguns casos, nos parece que o signo lingüístico esta mais colado à coisa representada, o que acontece muitas vezes na poesia, e então acontece como que uma operação expressiva organizada em resposta à experiência vivida. Nessa operação o som já é um mediador entre a vontade-de-significar e o mundo a ser significado.

As aparências mais superficiais já são efeito de grau de estruturação que supõe a existência de forças heterogêneas e em equilíbrio. Os grandes teóricos da percepção procuram entender o movimento que leva à forma, e concluíram que os caracteres simétrico/assimétrico, regular/irregular, simples/complexo, claro/escuro, das imagens dependem da situação de equilíbrio, ou não, de forças óticas e psíquicas que interagem em um dado campo perceptual.

Finalmente, na segunda e última estrofe, da terceira parte, o poeta nos mostra que tira o seu poema da realidade, e com a aplicação dos gêneros poéticos, passa a criar uma nova realidade. Ele eterniza essa realidade a transformando em palavras, entrando de uma vez no mundo da poética. Por último também, o poeta destaca a presença do co corpo na produção do signo poético.

Assim, meu mundo é o mundo
Com suas coisas todas.
Imagens retorcidas
Nas contrações do olhar
E reduzidas todas
Ao mais puro silêncio.
E que, por ser milhares,
Se juntam noutro mundo,
Noutra paisagem, dentro
Da nova realidade
Cuja face de sombras
Amanhece cantando
No poema.

Vico afirma: “O trabalho mais sublime da poesia é dar senso e paixão às coisas sem sentido”. Mas também Vico reconhece de maneira dinâmica não só as diferenças entre modos de se enfrentarem “palavra e realidade”, mas, sobretudo, o seu tenso convívio. Ele também, Vico, fala em sabedoria poética, como a de alguns poetas, que usaram tons irracionalistas, palavras míticas carregadas de significados. Já havia um distanciamento em relação ao lógico das coisas, a ser retomados pelas futuras gerações de poetas.

Continua, porém, de pé a pergunta, a inquieta busca que a leitura poética sugere a cada passo: os movimentos, de que os fonemas resultam, não são, acaso, vibrações de um corpo em situação, ex-pressões de um organismo que responde, com a palavra, a pressões que o afetam desde dentro? Esta pergunta nos remete a incancelável presença do corpo na produção do signo poético.

Então, baseado, em Alfredo Bosi, Gilberto Mendonça Teles, Giambatista Vico e Saussure, Fica bem nítido o peso do “Ser” e o “Tempo”, realçando o trabalho incansável dos poetas, que acima de tudo “dão sentido ao que não tem sentido”.

Referências

BOSI, Alfredo, 1936 - O Ser e o Tempo da Poesia. São Paulo, Cultrix, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1977. 1. Poesia 2. Teoria literária I.

Fábula de Fogo. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1961. Prêmio Leo Lynce, da Uniâo Brasileira de Escritores, Seção de Goiás. TELES, Gilberto Mendonça.
Postado por Silvon Alves Guimaraes às 11:28
http://silvonguimaraes.blogspot.com.br/2011/01/o-ser-e-o-tempo-da-poesia-de-bosi-na.html
O Ser e o Tempo da Poesia, de Bosi, na Fábula de Fogo e de Gilberto Mendonça Teles
Enviado por J B Pereira em 10/04/2012
Código do texto: T3605611

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Sobre o autor
J B Pereira
Piracicaba - São Paulo - Brasil
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