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O TEMPO NA NARRATIVA DE FICÇÃO

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Estudos Literários

 

“O ficcionista é senhor do espaço e do tempo em que a própria vida humana se realiza. É assim que podemos acompanhar Henry Esmond ao longo de toda a sua vida e que Hamlet poucas horas passará conosco. Em um dia de leitura podemos viver anos e anos da existência das personagens de uma ficção.” (João Gaspar Simões, Ensaio sobre a Criação no Romance)

 

O tempo na narrativa é o período que assinala o percurso cronológico (tempo de um acontecimento) que vai do início ao fim da história. Muitas histórias se passam em um curtoperíodo de tempo; outras têm umenredoque se estende por muitosanos. O tempo em um conto, geralmente é mais curto em relação ao romance e a novela, nestes o transcurso do tempo é mais dilatado. No romance, novela e conto, o tempo é fictício, ou seja, correspondem aos eventos da história. Por isso, o tempo da história nem sempre coincide com o tempo em que ela foi escrita ou publicada. Um dos mais comuns exemplos desta não coincidência temporal está no romance "O Nome da Rosa" de Umberto Eco, cuja narrativa se desenrola na Idade Média, embora tenha sido escrito há pouco tempo.

É importante também, não confundir o tempo do narrador com o tempo da ação (eventualmente pode ser o mesmo). Observe, no fragmento de O Ateneu (Raul Pompéia): "Eu tinha onze anos", afirma o personagem-narrador. Pelo pronome pessoal e o verbo no pretérito podemos perceber que o tempo da ação está no passado, mas, o da narração, no presente da história. O personagem-narrador na sua vida adulta narra fatos acontecidos durante a sua pré-adolescência. Por ser uma narrativa ficcional, e não histórica, a cronologia cria o seu tempo interno, atendendo a lógica temporal de passado, presente, futuro.

No romance, novela e conto há dois tipos fundamentais de tempo interno, ou melhor, da história: o cronológico ou histórico e o psicológico ou metafísico.

1. Cronológico ou Histórico

 É marcado pelo ritmo do relógio, pelo movimento do sol (alternância dia-noite), pelo calendário, pelas estações do ano, etc. É o tempo objetivo, visível ao leitor mais desprevenido: este vê a história desenrolar-se à sua frente, obediente a uma cronologia histórica definida. Geralmente, o próprio ficcionista na introdução da história, indica as datas em que os fatos se sucedem. E mesmo que não a indique, o próprio texto se incumbe de oferecer os dados que servem à orientação do leitor, ordenados segundo a cronologia do relógio. Serve de exemplo, o segundo capítulo de Senhora (José de Alencar); logo à entrada, observa-se a seguinte pormenorização cronológica:

“Seriam nove horas do dia. Um sol ardente de março esbate-se nas venezianas que vestem as sacadas de uma sala, nas laranjeiras.”

O processo narrativo no tempo cronológico pode apresentar os fatos no momento em que estão acontecendo, isto é, no presente da história, ou, então, no passado, quando já perfeitamente concluídos. Da mesma maneira, pode também entremear presente e passado, utilizando a técnica de flashback. José de Alencar, em Senhora, também trabalha o flashback, narrando o casamento de Aurélia e Fernando até a noite de núpcias, quando, então, promove um corte e passa a narrar fatos anteriores ao casamento, para finalmente retomar fatos acontecidos depois do casamento.

O flashback é muito utilizado nas novelas de televisão. Tem a função de esticar a trama, principalmente quando a novela é um sucesso e precisa ser prolongada por interesses financeiros. No entanto, o flashback cumpre papel importante na caracterização dos personagens e na introdução de elementos explicativos do passado para os conflitos do presente da narrativa.

As narrativas de ação usam o tempo cronológico. As Históricas, que fazem referência a fatos históricos reais, usam o tempo histórico. Referem-se a épocas passadas e apresentam uma cronologia que corresponde à realidade histórica do passado.

2. Psicológico ou Imaterial (metafísico)

Não obedece à cronologia, não mantém nenhuma relação com o tempo propriamente dito, cuja passagem é alheia a nossa vontade. O tempo psicológico transcorre no interior de cada personagem (ou de cada ser humano), numa ordem determinadapelodesejooupela imaginação do narrador ou dos personagens e reflete suas vivências subjetivas, suas angustias e ansiedades. É o tempo interior que se alarga ou se encurta conforme o estado de espírito em que se encontra. Falas como “Ah, o tempo não passa...” ou “Esse minuto não acaba!” refletem o tempo psicológico. Daí, dizer-se que o tempo psicológico altera-se de pessoa para pessoa. O que importa, como já foi dito, é o momento da personagem, suas emoções e reflexões. Por isso, através de seus devaneios e memórias ele poderá ir ao passado e ao futuro, sem obedecer à ordem do tempo cronológico.

Para exemplificar, observe esta passagem do conto Missa do Galo (Machado de Assis), em que o narrador-personagem espera a meia-noite da véspera de Natal: 

 “Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso”.

Observe como o tempo para o narrador-personagem se encurta, ou melhor, voa. Quer dizer, parecia que voavam, pois, era esta a sensação que ele, tinha naquele momento. É o tempo psicológico, o tempo interior que se alarga ou se encurta conforme o estado de espírito da personagem.

No processo de construção do tempo psicológico, não raro, se associa o flashback, técnica, praticamente, a serviço do tempo psicológico. Tomemos como exemplo, São Bernardo (Graciliano Ramos). Nele Paulo Honório (narrador-personagem) é perseguido pela lembrança da esposa morta, Madalena, todos os dias ao cair da noite.

3. A Gramática do Tempo

Para a obtenção de um determinado efeito temporal na ficção, é de suma importância controlar a flexão dos tempos verbais (presente, pretérito, futuro). Outros recursos para a construção do tempo são os advérbios e as locuções adverbiais, como: há pouco, ontem, agora, no dia seguinte, há dois dias, etc. Na construção do tempo de uma narrativa, deve-se em primeiro lugar determinar em que momento as ações se sucederão e, depois escolher os verbos, advérbios e locuções adverbiais de acordo com o momento a ser caracterizado. ®Sérgio.

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A Narrativa de Ficção.  

A Personagem na Narrativa de Ficção.

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Informações foram retiradas e adaptadas ao texto de: Cândida Vilares Gancho, Série Princípios, 7ª edição. Maria Luiza & Marcela Nogueira – O Texto Narrativo. Massaud Moisés - A Criação Literária.

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Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 13/03/2007
Reeditado em 10/02/2010
Código do texto: T410685

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Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 66 anos
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