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Texto

Análise do Poema “Acima da Verdade” , de Ricardo Reis, Heterônimo de Fernando Pessoa

ACIMA DA VERDADE estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como as flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.

Ricardo Reis
(16-10-1914)

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O poema “Acima da Verdade” de um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, apesar de enquadrar-se temporalmente ao Modernismo português, possui grandes características do Arcadismo por apresentar forma fixa (uma ode que contém três estrofes de quatro versos) e versos brancos (existe a métrica – em todas as estrofes a disposição da métrica é a mesma: os dois primeiros versos são decassílabos e os dois últimos, pentassílabos - e não existem as rimas externas). Além disso, há uma valorização da cultura greco-romana, pela exaltação dos deuses.

Em relação ao conteúdo, o “eu-lírico” afirma que se a ciência é uma verdade, os deuses são mais ainda (idéia hiperbólica), pois aquela, apesar de ser verdadeira, possui falhas, diferente dos seres mitológicos que são perfeitos. Então, não cabe a ciência tentar desvendar esses mistérios dos deuses, mas adorá-los.
Essa adoração é comparada às flores (“[...] Mas adorar devemos / Seus vultos como as flores, [...]” - comparação), uma vez que o Arcadismo, como estética literária, tem como características a valorização da natureza, do campo (bucolismo), etc. Porém, diferentemente da poética de Alberto Caeiro que aprecia a natureza como ela é, nesta há uma valorização voltada para o ideal da cultura greco-romana, uma vez que o campo é, para esse período, um refúgio de paz (“[...] São tão reais como reais as flores / E no seu calmo Olimpo [...]”).

Através disso, parece que o “eu-lírico”, utilizando-se da primeira pessoa do plural, chama o leitor para ser mais um árcade - cultuar os deuses e valorizar essa natureza – (“[...] Não pertence à ciência conhecê-los, / Mas adorar devemos [...]”), como se fosse uma filosofia de vida; uma vez que, neste lugar, para o “eu-poético”, a natureza seria uma outra forma de viver, muito melhor, pois se têm ao lado os deuses do Olimpo (“[...] E no seu calmo Olimpo/ São outra Natureza [...]”).

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Conclusão

Esse poema mostra, portanto, através da utilização de forma fixa, versos brancos, da adoração dos deuses greco-romanos e da natureza que os cerca e, portanto, da aproximação de todas essas características ao Arcadismo, quem foi Ricardo Reis poeta, o heterônimo pessoano que se destacou pelo racionalismo clássico, pela rigidez formal / métrica e pelo culto às culturas grega e latina.
 
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Referência

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2003.





Veridiana Rocha
Enviado por Veridiana Rocha em 11/04/2007
Código do texto: T446243

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Sobre a autora
Veridiana Rocha
Recife - Pernambuco - Brasil, 31 anos
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