Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

MÚSICA NO CORAÇÃO DAS PALAVRAS

O que torna "primário" o discurso poético não é a comoção inerente ao 'sentir' e, sim, a mera e ingênua tradução desta sensação. O sentimento aflorado favorece, apenas, a entrada em “estado de poesia”. E este se derrama no processo criativo da “inspiração”. Porém, essa matéria disforme, banhada de emoção, que pode levar às lágrimas o seu autor, ainda não é o poema. Neste instante, ele é a confluência do intimismo, o átimo de absoluta solitude, fruto da personalíssima possessão de seu criador, a sua concepção vivificada no real: o “dar à luz” do embrião. Pode até ser portador de alguma poesia, mas ainda não é a própria Poesia. “Meu coração é um balde despejado”, disse Fernando Pessoa, para tentar caracterizar o estágio inicial da criação. É nesse o momento que o poema vem ao mundo dos fatos: o seu cadinho de compulsivas emoções, carências traduzidas, ausências, desejos materializados no versejar da embrionária poesia, no dulçuroso palavreado da prosa poética. Mas não é o de seu registro definitivo – o da lavratura de sua certidão de nascimento – e que se dará mais tarde, bem mais tarde... O desafio para o escritor é esse traduzir dos sentimentos em linguagem que proporcione prazer e produza no outro pólo – o leitor – a comoção, o alumbramento, a sensação de gozo, de beleza, de novidade frente ao lugar comum da vida. Muitas destas compulsões sentimentais não chegam a esse grau de alumbramento textual e servem somente para curar as feridas de seu autor... Dessa sorte, nem todos os conceptos de poemas chegam à Poesia. É o exercício da intelecção que fertiliza a beleza original em Poesia, traduzida no relato do sentir: lampejo que vai à cabeça, através da percepção do texto, e remete o leitor à compulsão do seu autor, lá na origem dos sentires. E é a intensidade do relato poético que vai aproximar o similar até a primitiva originalidade. Repete-se a cena original em novíssimos matizes: a água do ‘balde de sentimentos’ se despejará nos segundos seguintes sobre a cabeça e o coração do leitor. E os versos se abrirão em múltiplas perspectivas... O poema – que é a manifestação da Poesia em palavras – constitui-se numa trivial e singela transfiguração da matéria da vida, ao seu tempo. Em muitos casos, o seu criador nem chega a ter exata dimensão do que escreveu... Porém, os requintes de beleza da peça produzem a sua permanência nos jardins da posteridade artística. É a cabeça do autor (e seus alter egos) quem escreve, produz o poema e sua imagística, e é o que basta para se perfazer a criação estética. É nela e por ela que surgirá a dança verbal – música no coração das Palavras.

– Do livro A POESIA SEM SEGREDOS, 2006/2012.
http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/639875
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 05/09/2007
Reeditado em 21/05/2012
Código do texto: T639875
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Joaquim Moncks). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2778 textos (755319 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/08/17 02:12)
Joaquim Moncks