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IMAGENS QUE PASSAIS PELA RETINA / CAMILO PESSANHA ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DO POEMA




“Imagens que passais pela retina” (Camilo Pessanha)
Análise e interpretação do poema




Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
-Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
-O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
-Estranha sombra em movimentos vãos.



Camilo Pessanha
In “Clepsidra”






Introdução

Esse poema evoca a sensibilidade visual do leitor, usando explicitamente o vocábulo “imagens”, como termo introdutório do soneto. A valorização das imagens é patente pelo fato de o poeta dirigir-se a elas como se fossem um ser vivo, animizando-as. De fato, o caráter dramático do poema é dado nesta estrofe, pelo diálogo do poeta com as imagens que por ele passam. A colocação na forma vocativa enfatiza essa dramaticidade citada acima.

Na primeira estrofe, a imagem da água revela a idéia de transitoriedade. Essa idéia é reforçada pelo próprio verbo “passais” que aparece em repetição (1º e 3º versos). A qualidade cristalina da água denota, não só a fragilidade das imagens que não se fixam, mas também certa tranqüilidade ou paz interior, que sofrerão transformação gradativa.

A atitude do poeta aqui é passiva; é a de um observador dos fatos exteriores. A preocupação com o seu “eu” interior está, por enquanto, em nível secundário (ele vai intensificar essa preocupação a partir da segunda estrofe, havendo reiteração da idéia de “meus olhos” duas vezes na terceira estrofe). Na terceira estrofe, os olhos do poeta, os olhos em si, não aparecem como qualidade inerente a ele, mas sim restringindo a idéia principal da retina. O “enjambement” utilizado também é índice desse distanciamento. Por outro lado, o aparecimento de “que passais” e a interrogação “porque não vos fixais?”, dirigindo-se às imagens, demonstra a preocupação predominante na primeira estrofe que são as imagens fugidias, passando para nunca mais voltarem.


Estrato Fônico

Novamente a atitude do poeta faz o tom do poema, e o tom é calmo, quase resignado, com a pergunta solta, desfechando o segundo verso e uma reticência, fechando a própria estrofe. Aliás, a reticência sugere não só a resignação do poeta, mas a idéia do fluir sem fim da água que se escoa para distâncias desconhecidas. O tom e a imagem nos são transmitidos não apenas pela seleção de semas, mas também pelas qualidades sonoras dos vocábulos. Existe um entrecruzamento das imagens visuais com as imagens sonoras, dando-nos uma dimensão do sentimento daquele que descreve. As tônicas predominantes são vogais abertas, claras, e grande parte delas é constituída da vogal medial /a/, cuja emissão se faz em posição de relaxamento da boca: imagens;  passais;  fixais;  passais;  água; mais;  olhos;  cristalina;  fonte. As duas tônicas do /i/ , reforçadas pelo fato de estarem em rima no 1º e 3º versos, sugerem a idéia de infinito que vai ser reforçada no último verso a ser explicado. A própria palavra “infinito” mostra o valor da vogal /i/.

O 4º verso: “Por uma fonte para nunca mais!...”, já introduz vogais posteriores como uma preparação para o que virá na estrofe seguinte. Esse verso é impregnado de nasais. Das seis palavras que nele aparecem, apenas duas não contém nasais, e trata-se de instrumentos gramaticais cuja carga semântica é bastante reduzida. Os sons nasais nos transmitem a idéia de continuidade das imagens que vão passando, como passam as águas, continuamente, até o infinito. O vocábulo “mais”, com que se fecha a estrofe é muito sugestivo. O próprio som da palavra revela um lamento que se perde no infinito, conforme o que foi dito do /i/. E o lamento vai ecoando à distância, sem encontrar uma parada, o que é sugerido pela sibilante /s/. Esse lamento aparece não só nas rimas do 2º e 3º versos, como também na reiteração do verbo “passais” no 1º e 4º versos. Os “ais” estão contidos nessas palavras que ocupam posição importante dentro do esquema da estrofe. Aparecem em paranomásia. O ritmo da estrofe também expressa a calma do poeta: é fluente, contínuo. Essa cadência rítmica reforça a sucessão das imagens e a idéia de continuidade. Existe maior tensão após a cesura do 2º verso, o que vai enfatizar a interrogação: “porque não vos fixais?”.

Na segunda estrofe o tom adquire um aspecto sombrio. O poeta volta-se para dentro de si, fato nitidamente mostrado no 3º verso, após o que duas referências a si mesmo aparecem no 4º verso: “mim” e “me”. Agora a imagem da “água cristalina” é substituída pela do “lago escuro”, uma imagem sombria, tétrica, conotando morte em oposição à vida das imagens anteriores. O elemento, água, é o mesmo. Apenas o aspecto é que muda. Esse elemento de diluição vai culminar na “sombra das mãos”, na última estrofe do soneto. Por enquanto, vamos analisar a segunda estrofe. Novamente temos a aliança da imagem visual com o plano sonoro do poema. Note-se a predominância marcante das vogais fechadas, com o grande número de vogais posteriores, que dão a própria imagem do sombrio: /u/ e /o/. No verso mais expressivo dessa estrofe que é o 3º, aparece apenas uma vogal aberta em contraposição a cerca de dez vogais fechadas, na maioria, posteriores. Esse verso é importante porque denota a mudança de atitude do poeta. Essa valorização é feita inclusive no plano sintático, havendo uma quebra da ordem natural do pensamento com a identificação da oração que constitui o 3º verso e a continuação da idéia anterior no 4º verso (o enjambement de ”termina” valoriza a idéia da própria palavra terminando o verso). Essa quebra revela a tensão do narrador. O ritmo dessa estrofe, aliás, é tenso em comparação ao da primeira. A leitura torna-se mais pausada, mais lenta. A imagem do “lago escuro”, “silente de juncais”, se nos apresenta pois como a de um “poço” parado (sem vida) e profundo. A partir do momento em que o poeta se volta para dentro de si, no 3º verso, o tom passa a ser outro. “Porque ides sem mim, não me levais?” sugere um despertar para a realidade da sua dor. A interrogação adquire agora tom mais desesperado; o objeto dessa interrogação é ele mesmo: “porque não ME levais?” e esse ME é uma reiteração da idéia já expressa em “mim”. Esse verso é dividido em duas partes, havendo uma cesura após a palavra “mim”. Ambas as partes têm o mesmo significado, o que muda é a estrutura da frase, acarretando uma nova dimensão para a negação. Não ocorre uma simples repetição do conteúdo sob duas formas estruturais, mas uma mudança de estrutura, ocasionando diferenças de grau na interrogação negativa: a primeira frase nega, mas por exclusão (através do termo “sem”), ao passo que a segunda reforça tal negativa pelo uso da negação absoluta “não”.
Reforçada a interrogação, reforça-se também o objetivo dessa interrogação que, com já dissemos, é o próprio poeta. A cesura é elemento também importante na valorização da interrogação: “porque não me levais?”.

Simultaneamente ao distanciamento, ao afastamento das imagens, temos uma aproximação do “eu”. Depois de constatar sua inutilidade (pela diluição das imagens), apela para a “súplica” que é uma tentativa de agarrar-se a um referente externo, relacionado com o “eu”. No 3º verso do primeiro terceto há uma concentração de sibilantes /s/ e uma ausência total de nasais, sugerindo a interrupção do fluir anterior e o aspecto do deserto.Essa concentração nos dá a impressão de que as imagens são realmente “sucessivas” e se diluem, desaparecendo totalmente e dando lugar à súplica que aparece no último terceto.



Plano da Sintaxe

Consideremos ainda o 1º terceto. O que é o “eu”? O “eu” são os “meus olhos abertos” que nada fixam: recebem a imagem e a devolvem porque os “meus olhos” são o “espelho inútil” cuja reflexão é momentânea (sem poder de fixar as imagens). O 2º verso é aposto, referindo-se aos “meus olhos” do 1º verso, enfatizando a idéia inicial. Esse aposto registra a conscientização de seu ceticismo que culmina com a afirmação de que seus olhos são pagãos. Pagãos porque não acreditam em nada transcendental (estão em estado de não batizados, não preparados para a vida espiritual). O misticismo proposto está no nível do contato direto com a vida em seu aspecto material. A constatação de qualidade pagã de seus olhos presencia a resposta à interrogação que constitui o 1º verso. A resposta é dada pela imagem “aridez de sucessivos desertos”. Essa imagem é altamente valorizada pela insistência de apelo visual.
“Olhos” está triplamente qualificado (“abertos”, “inútil” e “pagãos”). A adjetivação e o aposto não são suficientes para qualificar os olhos, que são parte dele (poeta), já neste terceto, totalmente voltado para si mesmo (“meus olhos” = “eu”). A “aridez de sucessivos desertos” é, não somente os “meus olhos”, mas “eu”, “poeta”. A aridez é sentida também no choque de oclusivas (des/de) tornando desagradável a emissão. Novamente a sugestão de distanciamento das imagens aparece em “sucessivos” e, finalmente, a reticência reforçando a idéia dos “áridos desertos” que se distanciam. O desenvolvimento gradativo da consciência exterior para interior termina no primeiro terceto.

No primeiro verso do segundo terceto, com o início da súplica, temos mais uma mudança, que é a do tempo verbal: de presente do indicativo em todos os empregos anteriores para imperativo (positivo). Esse emprego constante do presente também pode indicar uma impossibilidade da parte do poeta, de reter as imagens, já que elas “vem” e “vão” (“passais”) e ele permanece num dado momento do tempo: o presente. Essa tentativa também fica marcada pela ação das mãos e dos dedos que se flexionam, mas fica destruída, no entanto, no plano da adjetivação, quanto ao aspecto semântico (“flexão” / “casual” – “dedos” / “incertos” – “sombra” / “estranha” – “movimentos” / “vãos”). Trata-se de uma tentativa aleatória: as imagens já se dissiparam e resta apenas a sombra, na súplica do poeta, numa última instância de desvanecimento, pois a sombra é “estranha” (desconhecida, nada representando e tornando-se fugidia). Esse último instante do fluir (nesse caso escapar) é marcado também pela quantidade de nasais e sibilantes cujo significado já tentamos propor. A flexão de suas próprias mãos e, mais especificamente de seus próprios de dos, além de trazer uma intensificação do apelo, forma verdadeira imagem plástica do desejo de reter algo que se esvai. No aspecto gráfico, “flexão casual” ligada a “dedos incertos”; “sombra das minhas mãos” cruzada com “estranha sombra”, reiniciando o último verso; “flexão casual” cruzada com “movimentos vãos”, são elementos que dão essa visão plástica dos movimentos incertos. Já que é impossível fixar algo que tenha (ou dê) ao menos a ilusão de sua existência (representada pela “sombra de suas mãos”), a sombra, então, seria suficiente para lhe proporcionar a ilusão de vida no mundo que o cerca. Elas, as mãos, existem e são parte dele, e ele existe porque sente, mas nada é concreto (ele não sabe até que ponto ele, poeta, ou suas mãos são concretos). Há assim um apelo ao mínimo da imagem: a sombra. Na intensificação do apelo há ao mesmo tempo, uma intensificação do não ter. Afinal, a vida é uma imagem e a sua imagem será a referência de sua vida. A súplica é resignada e a diluição das imagens é total: “eu” e “imagens” integram-se em plano exterior. Ele é a própria imagem (“sombra das minhas mãos”). O “eu” não é nunca explícito;aparece através de possessivos o que denota a fragilidade de sua pessoa:a diluição do “eu”. Esse “eu” diluído representa o máximo de diluição (“a sombra da imagem”, dada pela “flexão casual dos dedos incertos” em “movimentos vãos” é a “sombra das mãos” e é “sombra estranha” donde se pode concluir que as “mãos são estranhas”). Na fragilidade de seu apelo, de suas evocações, isso é tudo que lhe resta.


Passível. Por certo, de várias interpretações, este poema nos chamou a atenção para duas, por algumas razões. Assim tentaremos expô-las.

Tomamos as imagens como o mundo e a retina como o ponto de contato do poeta com o mundo. Num nível de constatação, as imagens estão ligadas à água e , portanto, à vida. Diante desse mundo, o poeta possui duas opções dadas pela imagem da “água cristalina” ou do “lago escuro”. Isso pode dar uma idéia de finito e infinito e também de vida e morte. Essa idéia de morte, liga-se ao “silente” e ao coletivo “juncais” que pode denotar obstrução. Num primeiro nível de consciência o poeta fala em “vago medo”, donde surge o apelo (“porque ides sem mim”). Ele se questiona e a imagem do “espelho”, aposto de “olhos” nos dá a idéia de refletir a vida num processo de interiorização. A resposta, dada pela “aridez de sucessivos desertos” liga-se à ausência de água que de certa forma significa ausência de vida. O apelo do poeta é intenso, mas resignado sugerido pelo uso de “sequer” (pelo menos). A sombra é um resquício da imagem, ou seja, da vida (da relação do poeta com a vida) e as mãos são algo do próprio poeta. A flexão dos dedos é casual e revela uma tentativa infrutífera de agarrar algo. A sombra é estranha e essa estranheza induz o alheamento do poeta, sua incapacidade de se contatar com o mundo e fixa-lo em seu interior. Resta-lhe então a súplica que, dada como vã, leva a um grau extremo de diluição.


Uma outra linha de análise que desenvolvemos baseou-se, principalmente, num levantamento do vocabulário, numa verificação do poema no conjunto da obra e no seu confronto com o poema inicial, “Inscrição”. Chegou-se, assim, a uma visão do poema poder referir-se ao próprio fazer poético. As “imagens” sendo a “reprodução” no espírito de uma sensação, “na ausência do objeto que as produziu”, podem estar representando, entre outras coisas, a parte inicial da obra, e este poema, o último, está voltado para ela. As imagens passam pela retina que é “a parte mais interna do olho”, “instrumento essencial da visão”. O apelo denota o desconhecimento da causa da não fixação dessas imagens. As imagens são como a água que pode significar a “qualidade do talento”. Nesse caso a água (vida) está ligada à existência poética. Essas imagens fluem de duas maneiras entrevistas na imagem da “água cristalina” e do “lago escuro”.
A “água cristalina” está ligada à idéia de fonte de início de criação, de vida de algo que é claro como a água. Ao “lago escuro” está ligada a idéia de espaço fechado, de escuro,
De não transparente. O próprio termo “curso” lembra escrita e é um “curso silente de juncais”. O termo “juncal” sugere várias idéias: a de obstrução, a de elemento inerente, (ou ligado) à água, à idéia de fibra e por semelhança gráfica e sonora, a “juncal”, lembra, remotamente, papiro ou papel. O medo do poeta, “vago”, representa um início de consciência e pode referir-se a medo de várias coisas (do silêncio, da inutilidade da produção, da impossibilidade de transmitir o que a retina captou). Na repetição do apelo (“porque ides...”) temos a idéia de que o poeta aceitaria qualquer uma das opções. O apelo reiniciado por “sem vós...”, feito pelo poeta que pergunta a si mesmo, denota uma
Gradação que possibilita ver uma intercalação maior. A imagem do “espelho” aposto de “olhos” revela uma impotência para reproduzir as sensações (a idéia de rebater dada pelo espelho) ou a incapacidade do signo de fixar a imagem real, sensações do poeta diante do mundo. A resposta dada pela imagem do “deserto” que implica em ausência de água e de vida pode levar também a idéias de solidão e de esterilidade (podendo inclusive possibilitar a imagem do poeta como um “marginal”). Temos em seguida novo apelo para que fique a sombra, que seria um vestígio da criação, ou da tentativa de criar. Enquanto os olhos são o instrumento da captação da realidade exterior, as mãos são o instrumento da fixação da “visão” dessa realidade no papel, ou seja, aquilo que grava o que a mente visualizou. Na idéia de “flexão casual”, tentativa infrutífera de fixar algo, temos possibilidade de ligar “flexão” a “flexão de palavras” e “casual” também pode lembrar “caso” ( declinação). A sombra, por ser estranha, indica o alheamento e, portanto, resta apenas a própria tentativa. A diluição pode ser considerada em dois níveis – o do poeta que não consegue captar a realidade e transmiti-la e o das palavras que podem “significar tudo” ou “não significar nada”. Se não resta a sensação (imagem), nem qualquer tipo de vestígio, mas apenas o tentar que se dilui e se reduz ao próprio apelo, temos uma perda, por parte do poeta, do domínio (“mão) sobre o que ele produziu; uma intensificação do não ter.




            Nilza A. Hoehne Rigo



             Bibliografia:


             PESSANHA, C. (1969). Clepsidra e Outros Poemas. Introdução por João de Castro Osório. Lisboa: Edições Ática.
Nilza Azzi
Enviado por Nilza Azzi em 21/09/2007
Reeditado em 29/10/2007
Código do texto: T661555
Classificação de conteúdo: seguro

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