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JAMES JOYCE E OBRA: A HISTÓRIA DE UM JUDEU ERRANTE

JAMES JOYCE:A HISTÓRIA DE UM JUDEU ERRANTE (NOTAS SOBRE O MELHOR ROMANCE DO SÉCULO XX)

         

                               A
                               RODRIGO ORTIZ SALEMA,
                               MAIS QUE AMIGO, MEU IRMÃO.



     O romance "Ulisses" (1922), do escritor irlandês James Joyce (1882-1941), lidera, mundialmente, a relação dos melhores romances escritos desde 1900 (Cf. “Folha de São Paulo”, 03 janeiro 1999, Caderno Mais). Este texto apresenta alguns aspectos da produção literária joyciana, desde os primeiros escritos de James Joyce até a arquitetura monumental do seu "Ulisses", a legenda literária do nosso tempo.

A primeira parte, "A Ilha dos Santos e do Artista", apresentará alguns aspectos da história da Irlanda e da concepção estética do autor de "Ulisses".
A segunda parte, "A obra pela vida", apresentará dados biográficos do escritor James Joyce e certas influências que moldaram os textos do romancista irlandês.
A terceira parte, "A posição de 'Ulisses' no conjunto da obra de Joyce", apresentará a temática geral do romance, realçando as alusões joycianas aos textos antigos, em especial as procedentes da "Odisséia" de Homero.
A quarta parte, "Ulisses e o dia de todos os homens", apresentará, resumidamente, os paralelismos homéricos em "Ulisses", além de alguns pontos conclusivos sobre a temática abordada.

PARTE I: A ILHA DOS SANTOS E DO ARTISTA

     A história da Irlanda foi tecida sem jamais conhecer a reconciliação religiosa. Essa crise espiritual vai refletir de forma intensa na escrita de um dos mais reconhecidos romancistas da ilha: James Joyce. A tentativa de superação dos ideais religiosos — guiados, sobretudo, pelos dogmas católicos — inscritos no nacionalismo irlandês, talvez tenha induzido Joyce a inaugurar o seu "Ulisses" (1922), o mais famoso romance do escritor, parodiando o universo religioso. O proêmio do "Ulisses" é o seguinte:

“Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada, com um vaso de barbear, sobre o qual se cruzavam um espelho e uma navalha. Seu roupão amarelo, desatado, se enfunava por trás à doce brisa da manhã. Elevou o vaso e entou: _ Introibo ad altare Dei. Parando, perscrutou a escura escada espiral e chamou asperamente: _  Suba, Kinch. Suba, jesuíta execrável.” (Ul., p.7)  (1)

     Durante a Idade Média, o grande centro da civilização medieval não eram as cidades, mas os Mosteiros (Lérins, Monte Cassino, entre outros); eles se transformam em escolas ou centros de meditação espiritual da Bíblia. Entretanto, é completamente diferente o espírito do monaquismo irlandês. Nos primeiros anos do século V, depois de São Patrício ter sido levado muito jovem por alguns piratas para a Irlanda, ele se converteu ao cristianismo, guardando ovelhas e evangelizando a Irlanda. Com São Patrício, multiplicam-se os Mosteiros associados aos costumes pagãos irlandeses de longa tradição. O catolicismo irlandês, portanto, fundiu-se com os rigores nórdicos: jejuns, práticas ascéticas e outros ritos — que nada tinha da moderação beneditina que caracterizava os demais Mosteiros europeus. Além disso, pouco a pouco, os cultos e ritos católico-irlandeses mesclaram-se com uma vasta galeria de personagens procedentes das lendas primitivas da Irlanda. Decorre daí uma expressiva proliferação de santos na ilha. Em finais da Idade Média, a Irlanda já era considerada a Ilha dos Santos (2).
     A essa altura, compreende-se a razão do forte apelo da criação literária joyciana nas direções da ironia e da comicidade. As criações de James Joyce deitam raízes nos conflitos que se estabelecem entre as tradições religiosas na Europa ocidental, especialmente na Irlanda. A partir desse núcleo, pode-se considerar a ficção joyciana como uma realização parodística da conflitante história da Irlanda e dos irlandeses. Em algumas passagens do "Ulisses", Joyce satiriza explicitamente a fé irlandesa com respeito ao seu padroeiro, isto é, São Patrício, adepto do “crosfigill” - oração prolongada feita com os braços em cruz; algumas lendas religiosas dizem que São Kevin (outro santo irlandês) ficou durante sete anos nessa posição: as aves chegaram a construir ninhos em suas mãos. No "Ulisses", durante a memorável caminhada do judeu-irlandês Leopold Bloom pelas palimpsésticas ruas de Dublin, o pensamento do herói moderno pergunta a si próprio:

“Mesmo aviso à porta. Sermão do reverendíssimmo John Conmee S. J. sobre São Pedro Claver e a missão africana. Salve os milhões da China. Pergunto-me como se explicam os chinos pagãos (...) Converter o Dr. William J. Walsh D.D. à verdadeira religião. Buda deus deles jacente de lado no museu. Sem se afobar com a mão no queixo.
Sacraromatipauzinhos queimando. Não como Ecce Homo. Coroa de espinhos e cruz. Ideia inteligente São Patrício o trevo. Comestipauzinhos?” (Ul., p.63)

     Em "Um retrato do artista quando jovem" (1914), que trata do desenvolvimento psíquico do jovem, irlandês e católico, Stephen Dedalus, as personagens do romance são geralmente recriações de parentes e conhecidos do escritor irlandês James Joyce; ele próprio parece figurar com destaque nessa obra. É o caso, por exemplo, de Stephen Dedalus — protagonista do romance —, cujo conjunto de atitudes lembra alguns aspectos da personalidade do seu criador. Nesse sentido, acordado por alguns estudiosos do espólio joyciano, "Um retrato..." costuma ser classificado como um romance semi-autobiográfico (3). Entretanto, cada vez que um artista recorda, no mesmo instante ele cria. E o grande virtuosismo de Joyce na criação é sempre um perigo. Acompanhemos as palavras de Dedalus em "Um retrato..." :

“...o artista, como o Deus da criação, permanece dentro ou atrás ou além ou acima de sua obra, invisível, aprimorado fora da existência, indiferente, aparando as unhas.”

     É evidente que na personagem Stephen Dedalus mesclam-se um ou outro aspecto da personalidade de James Joyce. Porém, o conjunto da personagem está tão bem soldado, que seria impossível distinguir suas junturas. Acompanhemos mais uma vez o artista Dedalus, agora como um dos protagonistas centrais — o filho espiritual do peregrino Leopold Bloom — nas páginas de "Ulisses":

“_ No que nós, ou a mãe Dana, tecemos e destecemos nossos corpos _ disse Stephen _ , no dia-a-dia, as moléculas deles entrecruzando-se daqui para ali, assim tece e destece o artista a sua imagem.”

     A partir desses pontos, que nos mostram a prodigiosa conquista de um método na literatura, pensamos ser importante dar início ao estudo de qualquer obra da produção literária joyciana tecendo algumas considerações sobre a vida do escritor irlandês, o ambiente no qual se desenvolveu e as principais influências que sobre ele atuaram.


Notas (Parte I)
1. A abreviatura Ul. corresponde ao "Ulisses" de Joyce. As citações do Ulisses foram extraídas da seguinte edição: Editora Civilização Brasileira. Tradução de Antônio Houaiss. 8ed. Rio de Janeiro, 1993.
2. Sobre esse assunto, ver, por exemplo: Le Goff, Jacques. A civilização do ocidente medieval. 2v. Editorial Estampa: Lisboa, 1983.
3. Cf. em especial: Vizioli, Paulo. James Joyce e sua obra literária. São Paulo: E.P.U.,1991.




PARTE II: A OBRA PELA VIDA

     Novelista, contista e poeta, James Joyce nasceu em Dublin na data de 2 de fevereiro de 1882. Foi educado numa escola interna jesuítica chamada “Clongowes Wood College”, no Condado de Kildare, em Dublin. Nesse período, a Irlanda se achava sob o domínio exclusivo dos ingleses. A mãe de Joyce era uma católica muito devota, e tudo fazia para educar os filhos dentro dos princípios de sua fé. Entre 1893 e 1898, Joyce freqüentou o “Belvedere College” — escola mantida por jesuítas —, também sediado na cidade de Dublin. Por esta ocasião, a família do escritor passava por dificuldades financeiras. Joyce optou, então, por estudar na “Universidade Católica de Dublin”, quando, na verdade, seu desejo era freqüentar o “Trinity College”, pois esta escola gozava da melhor reputação de ensino na qualidade de instituição de ensino superior. Na “Universidade Católica de Dublin”, Joyce fez um curso de Humanidades - centrado em estudos de línguas modernas -, graduando-se em 1902. No ano de 1900 é publicado o primeiro ensaio crítico de Joyce: "Ibsen’s New Drama". Ibsen, escritor norueguês, era ídolo de Joyce. Ibsen foi exilado de seu país pela incompreensão e pela intolerância provincianas. Autor de dramas com tendências filosóficas e sociais, seus escritos exerceram forte influência sobre Joyce. Além de Ibsen, Joyce é marcadamente influenciado pela tradição do período da Idade Média católica, sobretudo pelos escritos de Tomás de Aquino e pelos textos heréticos de Giordano Bruno, além das poéticas de Dante Alighieri e de William Shakespeare. Com as idéias filosóficas de  Giambattista Vico (1668-1744), cujo pensamento nas páginas da "Ciência Nova" inaugura a concepção da história como trabalho do espírito humano, temos o conjunto das mais fortes influências que marcaram decididamente a produção literária joyciana.
     Em 1902, desiludido com a família, com o provincianismo da cidade de Dublin, Joyce resolveu estudar medicina em Paris. Seu plano fracassou. Passou, então, a lecionar aulas de inglês e a escrever artigos para jornais de Dublin e Londres. Entre 1904 e 1905, Joyce começa a escrever o primeiro fruto do seu auto-exílio: "Dublinenses". Composto de quinze contos, "Dublinenses" — como o próprio título indica — apresenta cenas da vida cotidiana dublinense mediante figuras de carne e osso. Além disso, havia a epifania (uma espécie de “insight”) presente em cada conto. O primeiro esboço de "Um Retrato do artista quando jovem", apresenta a definição de epifania nos seguintes termos:

“Por epifania ele [Stephen Dedalus]  entendia uma súbita manifestação espiritual, fosse na vulgaridade da fala ou do gesto fosse numa fase memorável da mente. Ele acreditava que cabia ao homem de letras registrar essas epifanias com extremo cuidado, vendo que elas mesmas são os momentos mais delicados e evanescentes.” (Apud Burgess 1994, p.33) (4)

     Examinando o seu meio ambiente, isto é, a cidade de Dublin, Joyce volta-se para si mesmo — o que demonstra o conteúdo filosófico que transpassa nos contos dublinenses —, a fim de estudar a sua reação àquele meio que ele sempre julgara lhe ser hostil. Isso veio a se confirmar, pois Joyce amargou o desejo frustrado em não ver publicado os "Dublinenses". O texto não só foi recusado na Irlanda, como também na Inglaterra; veio a ser publicado somente no ano de 1914. Entre 1905 e 1907, Joyce, em exílio voluntário na cidade italiana de Trieste, veio a atuar, na qualidade de professor de inglês, na “Escola Berlitz”. Em maio de 1907, vem a lume o conjunto de versos joycianos "Música de Câmara". Joyce casou-se com Nora Barnacle e, mais tarde, trabalhou num banco! em Roma. De volta a Trieste, começa a reescrever "Stephen Herói", sob o título de "Um retrato do artista quando jovem". Este romance mostra o desenvolvimento de uma consciência artística — que já tivemos ocasião de nos referir —, desde as primeiras epifanias da infância até o momento da opção pelo auto-exílio, quando aos vinte anos, o protagonista Stephen Dedalus conclama o mito de Dédalo e “voa” para Paris. Em 1914 são publicados "Dublinenses" e "Um retrato do artista quando jovem". Por esta ocasião, Joyce escreve a peça teatral "Exilados"; "Giacomo Joyce" (misto de poema narrativo, prosa e drama) e dá início à redação do volumoso "Ulisses". O escritor irlandês passará oito anos de sua via a redigir referida obra. Durante o período da Primeira Guerra Mundial, Joyce mudou-se para o território neutro da Suíça, estabelecendo residência em Zurique. Em 1917, Joyce sofreu cirurgias devido a problemas na visão. Até a publicação de "Ulisses", Joyce circulará, com freqüência, por Trieste, Zurique e Paris. Não se pode ignorar o clima de orfandade e exílio que acompanha a vida do genial escritor irlandês por essas cidades, chegando até mesmo a dar um sentido a toda sua obra, haja vista "Ulisses" encerrar-se com os seguintes locais e datas: Trieste-Zurique-Paris, 1914-1921.
     Finalmente, em 2 de fevereiro de 1922, Joyce recebe como presente de aniversário a primeira edição do seu "Ulisses", por intermédio da amiga Sylvia Beach, estabelecida em Paris e proprietária da editora “Shakespeare and Company”. Em 1923, Joyce começa a trabalhar num texto por ele chamado de "Work in Progress" (Obra em Progresso). Trata-se, na verdade, do romance "Finnegans Wake": um enigmático monumento literário da fragmentação, criado pelo gênio de Joyce. "Finnegans..." foi concluído em 1939, tornando-se a obra derradeira do escritor irlandês. Se "Ulisses" limita-se a escrever sobre um único dia em Dublin — um livro diurno, portanto; ao contrário, com "Finnegans Wake", Joyce se propõe a escrever um livro noturno.
     A partir de 1924, as traduções das obras de Joyce tendem a se avolumar. Mas, concomitantemente a esse fato, avolumam-se, também, os problemas de várias naturezas enfrentadas pelo escritor em sua vida pessoal. Em 1927, a edição de "Ulisses" nos Estados Unidos sofre a ação de piratarias. Mais tarde, Joyce é submetido a uma nova operação na vista. Em 1933, "Ulisses" é julgado nos Estados Unidos sob a distinção de romance obsceno. Por fim, surgem os sérios problemas mentais da sua filha. No início da Segunda Guerra Mundial, Joyce regressa à França. Porém, com a invasão alemã no território francês, ele pede asilo na Suíça, local onde veio a falecer em 1941, durante uma cirurgia de úlcera perfurada (5).


Notas (Parte II):
4. In: Burgess, Anthony. Homem comum enfim. São Paulo: Cia.das Letras,1994.
5. Na recolha de dados biográficos do escritor James Joyce, demos preferência ao texto de Paulo Vizioli. In: op.cit.




PARTE III: A POSIÇÃO DE “ULISSES” NO CONJUNTO DA OBRA DE JOYCE

     No decorrer de sua vida, James Joyce estabeleceu uma relação de ódio e amor com sua terra natal. Ele detestava a estreiteza mental, o moralismo tacanho e hipócrita, bem como o provincianismo que sufocavam a Irlanda — razões pelas quais resolvera tornar-se um exilado voluntário, o que justifica as “errâncias” de Joyce por Paris, Roma, Pola, Trieste e Zurique. No entanto, o fato curioso é que ao mesmo tempo em que ele rejeitava e denunciava sua pátria em depoimentos, ou amargamente em suas obras, só escrevia a respeito da Irlanda. Na verdade, Joyce nunca conseguiu esquecê-la. Uma vez perguntado como reagiria se tivesse que regressar à Irlanda, respondeu prontamente, devolvendo laconicamente a seguinte pergunta: “Alguma vez a deixei?” A constatação dessa relação ambígua, mistura de ódio e de amor, é fundamental para o entendimento e apreciação do espólio joyciano. Com efeito, parece persistir uma dor nos escritos joycianos, como que a traduzir as dificuldades encontradas pelo indivíduo moderno na construção de sua própria identidade; indivíduo desterrado que se move pelos cruéis espaços das cidades modernas (ou da modernidade). Espaços atravessados por uma redução da temporalidade que dá origem a um presente vazio e mortífero, desprovido de memória e pobre em promessas. Estranha forma de se sair em busca daquilo que se é ou daquilo que somos. No desdobramento dessa problemática, ou a partir desse cruzamento temporal, nasce uma reflexão: os pensamentos do herói moderno Leopold Bloom e do leitor do "Ulisses" se cruzam num suplício mútuo, regrado de ponta a ponta por um alucinante “festival da linguagem” que arranha as fronteiras da linguagem, procurando apontar para um “outro país”.
     Como vários críticos apontam, "Ulisses" ocupa uma posição de destaque dentre as obras de James Joyce. Joyce dedicou oito anos de sua vida e os seus melhores esforços na redação de "Ulisses". Perseguido em vários países, o romance teria mesmo que ser publicado, como já vimos, em território francês. Parece-nos que a conflituosa relação estabelecida entre Joyce e a Irlanda conferiu a ambos, isto é, ao escritor e ao texto, a condição de judeus errantes numa penosa odisséia. Assim como a "Odisséia" de Homero, o "Ulisses" de James Joyce divide-se em três partes: a primeira parte, conhecida como “Telemaquia”, trata das peripécias do jovem artista Stephen Dedalus (o moderno Telêmaco) em busca de um pai espiritual. O corpo da obra aborda as peregrinações do judeu errante Leopold Bloom (o moderno Odisseu, ou Ulisses, na tradução e tradição latinas) pela cidade de Dublin; a última parte da obra mostra o retorno de Leopold Bloom ao lar (a nova Ítaca), junto à maliciosa e infiel mulher Molly Bloom (a moderna Penélope).
     Mas, afinal, o que é o "Ulisses" de Joyce? O que ele pretende transmitir? É um conjunto de epifanias da cidade de Dublin, ou a descrição da história do mundo? Uma metáfora do mundo moderno? Uma perseguição obsessiva pela significação profunda do universo cotidiano? Uma sinfonia de vozes de Dublin? Um território neurótico no qual a linguagem compõe uma confusa sinfonia? Uma ambição técnica em querer encerrar as várias obras clássicas e estilos de diferentes épocas num único romance? Um pacto diabólico com a linguagem?!
     O enredo de "Ulisses": a cidade é Dublin. A data é 16 de junho de 1904, e todos os eventos do romance ocorrem num período de aproximadamente dezoito horas. O monólogo interior é o mais importante agente gerador da narrativa. Na medida em que a narrativa se desdobra, fragmentos da vida cotidiana vão-se amontoando, e o seu conjunto forma a história de um singular dia de certos habitantes de uma ruidosa Dublin do início do século XX. Os eventos da história, em seu conjunto, são banais. Ademais, nada acontece de extraordinário durante o desenvolvimento do enredo. Contudo, algo de intrigante acontece ao leitor menos desavisado: o título do livro "Ulisses", como já assinalamos, reporta-nos a um outro universo, isto é, ao universo da antiga mitologia grega ou da epopéia homérica.  Com efeito, "Ulisses", em conjunto com os paralelos homéricos, e com o tratamento parodístico do mito empregado por Joyce — que naturalmente desconcerta e confunde os leitores atuais —, compõe uma das mais notáveis “arquiteturas” intertextuais da literatura moderna.



PARTE IV: “ULISSES” E O DIA DE TODOS OS HOMENS

     A primeira parte de "Ulisses" mostra Stephen Dedalus/Telêmaco sofrendo humilhações por parte dos “usurpadores” Buck Mulligan e Kinch Haines — ou Antínoo e Eurímaco, ambos pretendentes de Penélope na "Odisséia" homérica. Em seguida, Stephen vai visitar a sala do Sr. Deasy /Nestor (herói grego), diretor da escola na qual leciona. Depois de sair da escola do Sr. Deasy, Stephen põe-se a confabular num diálogo interior repleto de recordações pessoais que o induz a pensar num mundo em constante transformação (alusão à captura, pelo herói espartano- homérico Menelau - esposo da argiva Helena -, do deus metamorfoseador Proteu).
     Concluída a “telemaquia joyciana”, o herói moderno Leopold  Bloom aparece no cenário do seu lar (alusão ao herói homérico Odisseu, na ilha de Ogígia) prestativo aos caprichos da esposa Molly Bloom (fusão da ninfa Calypso e da fiel Penélope). No momento seguinte, Bloom, envolvido por uma atmosfera de lascívia e preguiça (Odisseu na terra do Lotófagos), cumpre pedestres compromissos pela cidade, antes de acompanhar o enterro de um amigo. No cemitério (a descida de Odisseu ao mundo dos mortos ou ao Hades homérico), Bloom, num denso e intenso monólogo interior, “reencontra” as personagens históricas da Irlanda. Em seguida, Bloom dirige-se à redação do “Freeman’s Journal” — local barulhento e ventoso (alusão à ventosa ilha homérica do deus Éolo); depois, vai ao centro da cidade de Dublin, para o almoço. Enojado com a comida oferecida (passagem de Odisseu pela terra dos Lestrigões), Bloom come apenas um sanduíche, e parte rumo à Maternidade em visita à Sra. Mina Purefoy.  Antes, porém, vai à Biblioteca Pública de Dublin, local onde Stephen Dedalus expõe considerações sobre a obra de Shakespeare com base em Platão e Aristóteles (alusão a Odisseu entre os rochedos Cila e Caribde). Em seguida, Bloom, em meio a uma multidão de pessoas (alusões aos perigos enfrentados por Odisseu ao cruzar os rochedos errantes: Cila e Caribde) que lota as ruas de Dublin, dirige-se até uma livraria com a finalidade de comprar um romance erótico para a mulher, Molly Bloom. Mais tarde, no “Ormond Bar”, Bloom faz uma refeição e ouve o concerto de Simon Dedalus, o pai do jovem Stephen Dedalus (referência a Odisseu e ao canto das Sereias). Já no bar de "Barney Kiernan", Bloom é desafiado por um violento nacionalista que o expulsa do local (Odisseu na ilha dos Ciclopes). Logo em seguida, busca descanso na praia; ali, sente-se atraído pela adolescente Gerty Mac Dowel (Odisseu na ilha dos feácios encontra e apaixona-se pela princesa Nausícaa). Mais tarde, na Maternidade, Bloom busca informações sobre a amiga Mina Purefoy; um grupo de estudantes discute o controle de natalidade na Irlanda (alusão ao sacrifício dos touros pelos companheiros de Odisseu). Bloom resolve, então, dirigir-se à zona dublinense do meretrício. Bella Cohen (a homérica feiticeira Circe) é a proprietária do prostíbulo. Os clientes, vítimas de alucinações, agridem-se. Stephen sofre ameaças, mas Leopold Bloom o defende dos demais. Bloom e Stephen dirigem-se, então, a um humilde restaurante (Odisseu reencontra o filho Telêmaco na cabana do porqueiro Eumeu); buscam o diálogo, mas não há entendimento entre ambos. Assim mesmo, Bloom insiste em levá-lo para o seu lar. Bloom convida o jovem a passar a noite no local. Stephen não aceita, e vai embora. Bloom prepara-se para dormir. Sobe até o quarto de Molly Bloom — local onde a infiel esposa recebe os amantes —, faz um breve relato do seu dia à Molly, e adormece (Odisseu mata os pretendentes da esposa, restabelecendo, desse modo, a ordem em Ítaca). Segue, então, o longo, tortuoso e labiríntico monólogo interior de Molly Bloom, constituído por um assombroso emaranhado de recordações pessoais, encerrando, dessa forma, o romance "Ulisses".
     Aturdidos perguntamos: o que fez Joyce? Num certo sentido, Joyce colocou o herói grego Ulisses (tradução latina de Odisseu)  disponível para o público-leitor moderno. Para isso, ele “arrancou” com violência o herói Ulisses do contexto homérico, tornando o nome Ulisses um nome inteiramente joyciano, moderno. Essa técnica de tomar emprestado o conteúdo do texto precedente já havia sido utilizada pelo poeta Virgílio na composição da "Eneida", na antiga Roma. A genialidade do poeta Virgílio, em seu épico, que canta os feitos heróicos do lendário fundador de Roma — o troiano Enéias —, reside justamente nisso: os Cantos I a VI da "Eneida" inscrevem-se no percurso da "Odisséia" de Homero (as desventuras do piedoso herói Enéias até a chegada ao seu destino definitivo; ou seja, o local onde deveria fundar a cidade de Roma). Em contrapartida, os cantos de VII a XII - também da "Eneida" - (que mostram as lutas de Enéias para permanecer no Lácio) inscrevem-se no percurso da "Ilíada" de Homero. Mas Virgílio não inverteu o sentido do mundo helênico, ou do mundo homérico, pois sua poética pretendeu cantar e perpetuar os grandes feitos do herói Enéias e do Império Romano. Joyce, ao contrário, embora tenha permanecido fiel à estrutura da "Odisséia" de Homero, inverteu na sua odisséia moderna o sentido do mundo homérico. As errâncias do herói moderno Leopold Bloom, no "Ulisses", não têm mais sentido, pois não existe mais nenhum caminho que conduza o herói do romance a uma possível redenção. Até mesmo o estilo da linguagem aplicado por Joyce durante a narrativa (Joyce abre mão da concatenação lógica da linguagem, liberando-a na corrente do fluxo da consciência) confirma a impossibilidade de qualquer tipo de salvação na labiríntica jornada junina bloomiana. A babélica linguagem joyciana disseminada pelas páginas de "Ulisses" — plena de alusões de diversas ordens, ecos, símbolos, metáforas, temas, motivos etc. — leva o leitor do romance a experimentar um autêntico desnorteamento. Sob esse aspecto, anuimos com Merten (6) quando afirma que “fora de Joyce não há salvação.” Por conseguinte, o nome da obra é uma ostensiva provocação. Trata-se, na verdade, de uma poderosa colisão com seu predecessor, o aedo (cantor) grego Homero, na medida em que "Ulisses" traz à tona uma profunda reflexão em torno do binômio herói/anti-herói. Ou seja, ao heroísmo que percorre com cores fortes toda a odisséia homérica da Antigüidade greco-heróico-arcaica, Joyce contrapõe a banalidade impregnada no prosaico cotidiano do mundo moderno, no qual não resta espaço para qualquer feito heróico. Inegavelmente, Leopold Bloom também é dotado de certas qualidades inerentes ao antigo herói Odisseu. Afinal, possui inteligência, astúcia, calma e tato; qualidades que o aproximam do herói homérico. Entretanto, em vários episódios do "Ulisses", Bloom revela outras qualidades, diametralmente opostas às primeiras, mediante insólitos comportamentos. Noutras palavras, Bloom assume ora a condição de tolo, ora a de vulgar ou de cínico, ora a de satírico ou de cômico, entre outras (7).
     Por outro lado, se o canto épico-homérico é fabulado pelas Musas - filhas de “Mynemosine” (significava Memória para os antigos gregos) - e cantado pelo aedo (poeta inspirado), com a finalidade de glorificar os feitos heróicos em grandes batalhas entre as suas personagens, procurando perpetuar as cenas épicas para a posteridade; ao contrário, na narrativa joyciana não existe nenhuma preocupação com a posteridade, já que o presente, ou o universo cotidiano, é tomado como um verdadeiro e permanente caos, um mundo desencantado no qual os deuses estão ausentes.
     De outra parte, o caráter enigmático de "Ulisses" nos empurra inexoravelmente para outras esferas da mitologia grega. Uma outra presença arquetípica nas páginas de "Ulisses" encontra-se na figura de Stephen Dedalus, ou, mais precisamente, na figura mitológica de Dédalo, o arquiteto que projetou o Labirinto para aprisionar o Minotauro nos subterrâneos do palácio de Cnossos, e que ensinou à princesa Ariadne o modo como o herói ateniense Teseu poderia escapar de seus desnorteadores caminhos. Minos, rei de Creta, ao descobrir a fuga dos atenienses do Labirinto, suspeita de Dédalo. Prende-o no Labirinto, de onde não consegue se libertar. Fato que vem demonstrar a excelência de sua obra. Nesse sentido, abrir "Ulisses" tem o mesmo efeito que entrar no Labirinto de Dédalo. Abrir "Ulisses" equivale, também, a abrir a caixa de Pandora. Abrir "Ulisses", enfim, é penetrar numa Dublin convertida numa galáxia hipersemântica, cujo herói é a própria linguagem.

Notas (Parte IV)
6. Luiz C. Merten. “Fora de Joyce não há salvação”. O Estado de São Paulo. 2 maio 1999. Caderno 2/Cultura, p.D3. 7. Algumas passagens do presente texto estão pautadas na antologia James Joyce no Brasil. Orgs.Munira Mutran e Marcelo Tápia. 2ed. São Paulo: Abei/Usp,1997.



SÍLVIO MEDEIROS. Doutor em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP; Historiador e Mestre em Filosofia Política pela PUC-Campinas.
SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 18/11/2005
Reeditado em 27/05/2006
Código do texto: T73110

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS