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O FOCO NARRATIVO EM ‘TODOS OS NOMES’, DE JOSÉ SARAMAGO

Dentre os aspectos que compõem o contexto de uma obra literária, tal como enredo, espaço e personagens, entre outros; no quis respeito ao conjunto da obra do escritor português José Saramago, podemos dizer que o trato fundamental dado a esses aspectos é um tom de opacidade: no mais das vezes, esses elementos que compõem a narrativa parecem embrulhar-se em uma névoa: recebem pouca luz a uma primeira leitura. Prova disso é o trabalho dado à linguagem em suas obras; já que nestas as convenções da escrita, tais como o ponto de interrogação, são abandonadas, e cabe à atenção do leitor discernir perguntas, declarações, ordens, e assim por diante.

Um trabalho não menos merecedor de destaque nas obras de Saramago é o com relação ao Foco Narrativo. Segundo Massaud Moisés, em A Criação Literária, podemos, em linhas gerais, dividir o Foco Narrativo em quatro categorias básicas; a saber: 1) a personagem principal conta a sua história. 2) uma personagem secundária narra a história da personagem central. 3) o narrador, analítico ou onisciente, conta a história. 4) o narrador conta a história como observador. Os casos 1 e 4 tratam de uma análise interna dos fatos, já 2 e 3 dizem respeito à observação externa. Além disso, nos casos 1 e 2 o narrador funciona como personagem da história, enquanto que nos outros casos se coloca fora dos acontecimentos. Temos aqui, de forma simples, o esquema proposto por Massaud Moisés para o problema do Foco Narrativo.

Este, em especial aqui na obra “Todos os Nomes”, contudo, ganha um aspecto interressante: os vários tipos de Foco Narrativo, ou os Pontos de Vista, são apresentados meio que embaralhados no decorrer da narrativa, em especial os de Terceira Pessoa (Onisciente ou Observador) que vão se alternando ao longo da historia, em uma espécie de fusão lenta, demorada, que além de apresentar um forte contraste, é construída a partir do ritmo acelerado que a linguagem oferece.

Se considerarmos que o uso de cada um dos Focos Narrativos apresenta simultaneamente vantagens e desvantagens para o ficcionista, já que ora favorecem, ora limitam a possibilidade de visualizar o panorama em que a narrativa transcorre; temos de considerar que esta espécie de fusão entre os meios de se narrar uma história configura-se como uma boa estratégia com o problema apresentado; já que a alternância do Foco Narrativo permite que se possa contemplar este panorama em que transcorre a narrativa de forma complexa, acentuando a profundidade dos fatos, corriqueiros ou não.

No nosso caso, esta alternância do Foco Narrativo preenche ainda outro requisito importante na composição da obra literária, ou seja, a adequação entre este, o Foco Narrativo, e o Enredo; já que o Enredo não poderia ser trabalhado, no caso de “Todos os Nomes” sem essa volatilidade do narrador, nos apresentando os fatos ora como observador, como ver nas relações de trabalho apresentadas dentro da ‘Conservatória Geral’, e ora comportando-se analítica ou oniscientemente, como quando nos são apresentados os diálogos imaginários entre a personagem Sr. José e o teto de sua casa.

Não fosse esta particularidade da obra – ora observando, ora mergulhando no psicológico das personagens, e por que não, dos fatos narrados – o enredo em “Todos os Nomes” fatalmente perderia sua força, pois neste caso o que nos interessa é um mergulho nos anseios que levam a personagem principal a realizar sua empreitada na obra, ao passo que sem uma observação desinteressada, por assim dizer, onde se diminui a penetração psicológica em favor da ação, como episodio do ‘assalto ao colégio’, certamente o Enredo perderia em suspense, logo, a atenção do leitor tenderia a dissipar ao longo das paginas.

É, portanto, graças a este mecanismo que nos faz ver a historia como uma linha tênue e sinuosa, e que nos arremessa rumo a um desfecho incerto, mas coerente, é que “Todos os Nomes” ganha sua força: caso contrário, todo aquele anseio por motivo singular – no caso, a procura por uma pessoa desconhecida – que fizesse a personagem principal dar um novo ruma à sua vida, de enxergar com outros olhos aquilo que ela sempre viu, não seria possível de realização; ao menos em uma realização para o leitor.

Aquele que lê a historia só a vê como verossímil dentro desta fusão entre Focos Narrativos: o dialogo entre as personagens Sr. José e o Chefe da Conservatória só nos pode ser apresentado sob o ponto de vista de quem vê-se compelido a contar apenas o que registrou; e para o leitor, este episódio só ganha força devido ao mergulho na mente da personagem Sr. José antes e depois deste diálogo. É só assim que podemos perceber como ele transforma a personagem, e qual a importância – aqui relativa ao julgamento de cada leitor – esta transformação tem no decorrer da obra.

Fica claro, após a leitura integral do texto, como nos pareceria perder em importância se narrada em primeira pessoa. Em “Todos os Nomes”, um ‘eu’ que participasse dos fatos narrados não poderia dar a narrativa a mesma fluidez e o mesmo significado, já que em “Todos os nomes”, ao contrário, por exemplo, das “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, seria inconcebível se área de fabulação fosse restrita ao narrador em primeira pessoa – vale aqui lembrar, por exemplo, as limitações do nosso Sr. José - ; já que Saramago se vale de vida e morte, observação e onisciência, para tratar da vida humana na construção de “Todos os Nomes”.

 No entanto, este ‘eu’ que participa dos fatos narrados não perde o direito à voz, o direito de contar e explicar aos leitores o que lhe acontece na narrativa. Para que isso ocorra, o narrador, quando lhe é conveniente ou necessário, limita-se a apresentar em forma de grandes diálogos, psicológicos ou não, onde ocorre a construção, indireta, é verdade, de um discurso em primeira pessoa, o que faz com que a verossimilhança dentro da obra cresça, e o leitor, desse modo, sinta-se diante de um mundo coerente, onde as coisas ocorrem ao seu tempo.

É diante deste tratamento que envolve uma opacidade singular a esses textos, que podemos perceber a construção engenhosa de Saramago no campo da Literatura, uns dos porquês que o torna Universal.







MARÇO DE 2003
Literatura Portuguesa II
Referências:
TODOS OS NOMES, de José Saramago
A CRIAÇAO LITERARIA, de Massaud Moises
Nuno Vilamar
Enviado por Nuno Vilamar em 04/12/2007
Código do texto: T765064
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Nuno Vilamar
Palmas - Tocantins - Brasil, 34 anos
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