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TRADUÇÃO DE UM ARTIGO, CUJO AUTOR NÃO ENCONTREI O NOME.

UMA AULA DE WILLIAM FAULKNER


Foi assim. No sul dos Estados Unidos nasceu o romancista William Faulkner. Escreveu poemas, ecreveu a prosa, tornou-se famoso com “O som e a Fúria”, Absalão, Absalão, Santuário, O Mundo não perdoa” e outros.

Recebe o prêmio nobel de literatura em 1949. Sempre teve prazer em beber, torna-se alcólatra, morre em 1962. Grande parte dos seus romances e narrativas são passados no condado de Yoknapatawpha (Mississipi). Para além dos temas (a morte, a violação, o roubo, etc.), o que em Faulkner importa é o olhar, o seu peculiar modo de se aproximar à realidade, que pode ser cheio de pavor, vertiginoso ou cómico.

COM A PALAVRA O PROFESSOR

Eu vivia em Nova Orleáns, trabalhando no que fora necessário para ganhar um pouco de dinheiro de vez em quando. Eu podia fazer um pouco de quase qualquer coisa: manejar lanchas, pintar casas, pilotar aviões. Nunca precisávamos de muito dinheiro porque a vida era barata em Nova Orleans, e tudo o que queria era um lugar onde dormir, um pouco de comida, fumo e whisky. Tinha muitas coisas que eu podia fazer durante dois ou três dias a fim de ganhar suficiente dinheiro para viver o resto do mês. Eu sou, por temperamento, um vagabundo e um golfo. O dinheiro não me interessa tanto ao ponto de me forçar a trabalhar para ganhá-lo. Em minha opinião, é uma vergonha que tenha tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes é que um homem pode fazer durante oito horas, dia depois de dia, é trabalhar. Não se pode comer oito horas, nem beber oito horas diárias, nem fazer amor oito horas... o único que se pode fazer durante oito horas é trabalhar. E essa é a razão pela qual o homem se faça tão triste e infeliz a si mesmo e a todos os demais.

Conheci a Sherwood Anderson. Pelas tardes costumávamos caminhar pela cidade e falar com pessoas. Pelas noites voltávamos a nos reunir e tomávamos uma ou duas garrafas enquanto ele falava e eu escutava. Antes do meio dia nunca o via. Ele estava encerrado, escrevendo. Ao dia seguinte voltávamos a fazer o mesmo. Eu decidi que se essa era a vida de um escritor, então era a minha, e me pus a escrever meu primeiro livro. Em seguida descobri que escrever era uma ocupação divertida. Inclusive me esqueci de que não tinha visto ao senhor *Anderson durante três semanas, até que ele tocou a minha porta era a primeira vez que vinha ver-me— e me perguntou: "Que sucede? Está você enojado comigo?". Disse-lhe que estava escrevendo um livro. Ele disse: "Deus meu", e se foi. Quando terminei o livro, A PAGA DOS SOLDADOS, encontrei-me com a senhora *Anderson na rua. Perguntou-me como ia o livro e lhe disse que já o tinha terminado. Ela me disse: "*Sherwood diz que está disposto a fazer um trato com você. Se você não lhe pede que leia os originais. ele lhe dirá a seu editor que aceite o livro". Eu lhe disse "trato feito", e assim foi como me fiz escritor.

O romancista nunca deve sentir-se satisfeito com o que faz. O que se faz nunca é tão bom como poderia ser. Sempre há que sonhar e apontar mais alto do que se pode apontar. Não se preocupar por ser melhor do que seus contemporâneos ou seus predecessores. Tratar de ser melhor do que a si mesmo. Um artista é uma criatura impulsionada por demônios. Não sabe por que eles o escolhem e geralmente está demasiado ocupado para perguntar-se. É completamente amoral no sentido de que será capaz de roubar, tomar prestado, mendigar ou despojar a qualquer e a todo mundo com o propósito de realizar a obra.
o artista é responsável só ante sua obra. Será completamente cruel se é um bom artista. Tem um sonho, e esse sonho o angustia tanto que deve livrar-se dele. Até então não tem paz. Joga-o tudo pela borda: a honra, o orgulho, a decência, a segurança, a felicidade, tudo, com tal de escrever o livro. Se um artista tem que lhe roubar a sua mãe, não vacilará em fazê-lo...
a arte não tem nada que ver com a paz e o contentamento. A arte também não tem nada que ver com o ambiente; não lhe importa onde está. O melhor emprego que jamais me ofereceram foi o de administrador de um bordel. Em minha opinião, esse é o melhor ambiente em que um artista pode trabalhar. Goza de uma perfeita liberdade econômica, está livre do temor e da fome, dispõe de um teto sobre sua cabeça e não tem nada que fazer exceto levar umas poucas contas singelas e ir pagar uma vez ao mês à polícia local. O lugar está calmo durante a manhã, que é a melhor parte do dia para trabalhar. Nas noites há a suficiente atividade social como para que o artista não se aborreça, se não lhe importa participar nela; o trabalho dá certa posição social; não tem nada que fazer porque a encarregada leva os livros; todas as empregadas da casa são mulheres, que o tratarão com respeito e lhe dirão "senhor". Todos os contrabandistas de licores da localidade também lhe dirão "senhor". E ele poderá tutelar-se com os polícias. De modo, pois que o único ambiente que o artista precisa é toda a paz, toda a solidão e todo o prazer que possa obter a um preço que não seja demasiado elevado. Um mau ambiente só lhe fará subir a pressão sanguínea, ao fazer-lhe passar mais tempo sentindo-se frustrado ou indignado. Minha própria experiência me ensinou que os instrumentos que preciso para meu ofício são papel, fumo, comida e um pouco de whisky.

O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo o que precisa é um lápis e um pouco de papel. Que eu saiba nunca se escreveu nada bom como conseqüência de aceitar dinheiro presenteado. O bom escritor nunca recorre a uma fundação. Está demasiado ocupado escrevendo algo. Se não é bom deveras, engana-se dizendo-se que carece de tempo ou de liberdade econômica. A boa arte pode ser produzido por ladrões, ou contrabandistas de licores. A gente realmente teme descobrir exatamente quantas penúrias e pobreza é capaz de suportar. E a todos lhes assusta descobrir o quão duros podem ser. Nada pode destruir ao bom escritor. O único que pode alterar ao bom escritor é a morte. Os que são bons não se preocupam por ter sucesso ou por fazer-se ricos. O sucesso é feminino e igual uma mulher: se um lhe humilha, passa-lhe por cima. Nada pode prejudicar a obra de um homem se este é um escritor de primeira, nada poderá ajudá-lo muito. O problema não existe se o escritor não é de primeira, porque já terá vendido sua alma por uma piscina.

Sua obrigação é fazer sua obra o melhor do que possa fazê-la; qualquer obrigação que lhe fique depois disso, pode gastá-la como lhe der vontade. Eu, por minha parte, estou demasiado ocupado para preocupar-me com o público. Não tenho tempo para pensar quem me lê. Não me interessa a opinião de João Leitor sobre minha obra nem sobre a de qualquer outro escritor. A norma que tenho que cumprir é a minha, e essa é a que me faz sentir como me sento quando leio A tentação de Santo Antônio ou o Antigo Testamento. Faz-me sentir bem, do mesmo modo que observar um pássaro me faz sentir bem. Se reencarnasse, sabe você, me agradaria voltar a viver como um urubu. Ninguém o odeia,nem o inveja, nem o quer, nem o precisa. Ninguém se mete com ele, nunca está em perigo e pode comer qualquer coisa.

Se o escritor está interessado na técnica, mais lhe vale dedicar-se à cirurgia ou a colocar tijolos. Para escrever uma obra não há nenhum recurso mecânico, nenhum atalho. O escritor jovem que segue uma teoria é um tonto. Tem que se ensinar por meio de seus próprios erros; a gente só aprende através do erro. O bom artista crê que ninguém sabe o bastante para dar-lhe conselhos. Tem uma vaidade suprema. Não importa quanto admire ao escritor velho, quer superá-lo.

No en tanto, algumas vezes a técnica arremete e se apodera do sonho antes que o próprio escritor possa prendê-lo. Isso é tour de force e a obra finda é simplesmente questão de juntar bem os tijolos, já que o escritor provavelmente conhece cada uma das palavras que vai usar até ofim da obra antes de escrever a primeira. Isso sucedeu com ENQUANTO AGONIZO. Não foi fácil. Nenhum trabalho honrado o é. Foi singelo quanto que todo o material estava já à mão. A composição da obra me levou só umas seis semanas no tempo livre que me deixava um emprego de doze horas ao dia fazendo trabalho manual. Singelamente me imaginei um grupo de pessoas e as submeti às catástrofes naturais universais, que são a inundação e o fogo, com uma motivação natural simples que lhe desse direção a seu desenvolvimento. Mas quando a técnica não intervém, escrever é também mais fácil em outro sentido. Porque em meu caso sempre há um ponto no livro no que os próprios personagens se levantam e tomam o comando e completam o trabalho. A qualidade que um artista deve possuir é a objetividade ao julgar sua obra, mais a honradez e o valor de não se enganar a respeito. Já que nenhuma de minhas obras satisfez minhas próprias normas, devo julgá-las sobre a base daquela que me causou a maior aflição e angústia do mesmo modo do que a mãe ama ao filho que se converteu em ladrão ou assassino mais do que ao que se converteu em sacerdote.

Um escritor precisa de três coisas: experiência, observação e imaginação. Quaisquer duas delas, e as vezes uma pode suprir a falta das outras duas. Em meu caso, uma história geralmente começa com uma só idéia, uma só recordação ou uma só imagem mental. A composição da história é simplesmente questão de trabalhar até o momento de explicar por que ocorreu a história ou que outras coisas fez ocorrer a continuação. Um escritor trata de criar pessoas credíveis em situações comovedoras credíveis da maneira mais comovedora que possa. Obviamente, deve utilizar, como um de seus instrumentos, o ambiente que conhece. Eu diria que a música é o meio mais fácil de expressar-se, já que foi o primeiro que se produziu na experiência e na história do homem. Mas já que meu talento reside nas palavras, devo tratar de expressar torpemente em palavras o que a música pura teria expressado melhor. Isto é, que a música o expressaria melhor e mais simplesmente, mas eu prefiro usar palavras, do mesmo modo que prefiro ler a escutar. Prefiro o silêncio ao som, e a imagem produzida pelas palavras ocorre no silêncio. Isto é, que o trovão e a música da prosa têm lugar no silêncio.

Os livros que leio são os que conheci e amei quando era jovem e aos que volto como se volta aos velhos amigos: O Antigo Testamento, *Dickens, *Conrad, Cervantes... leio o Quixote todos os anos, como algumas pessoas lêem a Bíblia. *Flaubert, *Balzac, - este último criou um mundo próprio intacto, uma corrente sanguínea que flui ao longo de vinte livros —, *Dostoyevsky, *Tolstoy, Shakespeare. Leio a *Melville ocasionalmente e entre os poetas a *Marlowe, *Campion, *Jonson, *Herrik, *Donne, *Keats e Shelley. Ainda leio a *Housman. Li estes livros tantas vezes que nem sempre começo na primeira página para seguir lendo até o final. Só leio uma cena, ou algo sobre um personagem, do mesmo modo como se encontra com um amigo e se conversa com ele durante uns minutos.

O artista não tem tempo para escutar aos críticos. Os que querem ser escritores lêem as críticas, os que querem escrever não têm tempo para lê-las. O crítico também está tratando de dizer: "Eu passei por aqui". A finalidade de sua função não é o artista mesmo. O artista está um degrau acima do crítico, porque o artista escreve algo que moverá ao crítico. O crítico escreve algo que moverá a todo mundo menos ao artista. Estou demasiado ocupado. Minha obra tem que me comprazer a mim, e se me compraze então não tenho necessidade de falar sobre ela. Se não me compraze, falar sobre ela não a fará melhor, já que o único que poderá melhorá-la será trabalhar mais nela. Eu não sou um literato; só sou um escritor. Não me dá gosto falar dos problemas do ofício.

A finalidade de todo artista é deter o movimento que é a vida, por meios artificiais e mantê-lo fixo de sorte que cem anos depois, quando um estranho o contemple, volte a mover-se em virtude de que é a vida. Já que o homem é mortal, a única imortalidade que lhe é possível é deixar depois de si algo que seja imortal porque sempre se moverá. Essa é a maneira que tem o artista de escrever "Eu estive aqui" no muro do desaparecimento final e irrevogável que algum dia terá que sofrer.



PARA MIM UMA BOA AULA. E PARA VOCÊ?
Edmir CARVALHO BEZERRA
Enviado por Edmir CARVALHO BEZERRA em 30/11/2005
Código do texto: T79255
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Sobre o autor
Edmir CARVALHO BEZERRA
Belém - Pará - Brasil
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Edmir CARVALHO BEZERRA