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ADORNO LEITOR DA "ODISSÉIA" DE HOMERO: Poética, Esclarecimento e Terror.


                 “Heidegger extiende sus brazos en busca del
                  mito.Pero tampoco el suyo puede abandonar
                 su siglo; la historia lo ha desenmascarado
                como ilusión, que se delata manifiestamente
               en la incompatibilidad total del mito con la
                configuración racionalizada de la realidad;
                              no hay conciencia que
                         pueda
                                   independizarse de éste.”
                     (Theodor Adorno. Dialéctica negativa)
                                                       
     
     Não podemos ficar indiferentes ao apelo indignado do filósofo Theodor W. Adorno diante da tragédia da banalização do mal disseminada pelo nazismo alemão:

“Después de Auschwitz, la sensibilidad no puede menos de ver en toda  afirmación de la positividad de la existencia una charlatanería, una injusticia para con las víctimas(...) El terremoto de Lisboa bastó para curar a Voltaire de la teodicea leibniziana; pero la abarcable catástrofe de la primera naturaleza fue insignificante comparada con la segunda, social, cuyo infierno real a base de maldad humana sobrepasa nuestra imaginación.(...) Auschwitz confirma la teoría  filosófica que equipara la pura identidad con la muerte.(...) QUE AUSCHWITZ NO SE REPITA, QUE NO VUELVA A OCURRIR NADA SEMEJANTE.”  (Adorno 1975, pp.361-5)

     Tais palavras, sem qualquer sombra de dúvida, não são oportunistas. São palavras proferidas em tom colérico por um notável filósofo que, com espanto, horror e tristeza, presenciou a progressão diabólica do mal durante a primeira metade do século XX, definindo-se, obviamente, contra o mal, porém, sem perder de vista a significação da extraordinária aventura mítica - mediante a experiência do herói protagonista na “Odisséia” de Homero - do desenvolvimento do precoce Esclarecimento (1) já inscrito em Ulisses (2).
     De posse de tais argumentos inaugurais, já nos encontramos diante de uma questão importante, porque definidora dos rumos do presente artigo, isto é: como situar e avaliar as possíveis contribuições da poética em face dos dilemas acima apresentados?
     Com freqüência, na busca pelas respostas às nossas preocupações e perplexidades contemporâneas, podemos notar, conforme grande parte de lições filosóficas, a força argumentativa de que sempre se tem de regressar ao passado (especialmente aos gregos!) a fim de encontrarmos uma (re)orientação para o nosso presente. Assim, com a linha oculta que liga o filósofo e o historiador, a filosofia pergunta pelo conceito, cumprindo tal indagação, não raramente, um sentido metafórico. Por outro lado, a história procura a uniformização das ruínas do passado, emprestando-lhe um sentido, em virtude de terem sido fatos.
     Por conseguinte, ao pensarmos em retrospectiva, na extraordinária concepção que os gregos têm sobre o valor e o lugar do indivíduo na sociedade (o paradigma grego, sobretudo em perspectiva filosófica), com freqüência, a tendência que se verifica nesse modo de resgate da memória, consiste, tal projeto, converter-se em história política, visto que a era moderna quebrou o antigo elo que unia poesia e mito, para falarmos com Octávio Paz (1972).
     Não seria exato, portanto, afirmar que os antigos só se preocuparam com a liberdade política, na medida em que eles conheceram, também, a liberdade de ser. Assim, os gregos reconheciam no mito uma força de sabedoria que curava e restaurava os feridos, pois os deuses participavam dos destinos da cidade junto aos cidadãos, tudo em autêntica comunhão com o divino, em ritos nos quais a religião não eliminava a razão. A Antiguidade conheceu tentativas desse tipo. E nós, modernos?  Encontramo-nos num beco sem saídas? Ouçamos o que tem a dizer o filósofo da Grécia clássica, Aristóteles, em sua consagrada “Poética”:

“Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois bem poderiam ser postos em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, e que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular...” (Aristóteles 1993, pp.53-4)

     Do fundo dos tempos até os nossos tempos sombrios, depõe o literato italiano Ítalo Calvino, aquele que manteve a “fé” na palavra escrita:
 
“O sinal talvez de que o milênio esteja para findar-se é a freqüência com que nos interrogamos sobre o destino da literatura e do livro na era tecnológica dita pós-industrial (...). Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar...” (Calvino 1993, p.11)
 
     Com essa declaração de confiança na poética, inicia-se o derradeiro livro de Calvino, isto é, “Seis propostas para o próximo milênio”. E é bem tal declaração que este artigo pretende ser, ou, noutras palavras, se o alvo aqui perseguido é a poética, então, o nosso aparelho crítico deve orientar-se para a poética, e com ela caminhar. Falando ao homem que virá e também ao homem que é, prossegue Calvino:

“No momento em que a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam setoriais e especialísticas, o grande desafio para a literatura é o saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralística e multifacetada do mundo.” (Calvino 1990, p.127)

   Mais adiante, assim prossegue Calvino:

“Joyce, que tem toda a intenção de construir uma obra sistemática, enciclopédica e interpretável a vários níveis segundo a hermenêutica medieval (...) realiza principalmente a enciclopédia dos estilos, capítulo por capítulo no ‘Ulisses’, ou canalizando a multiplicidade polifônica através do tecido verbal do ‘Finnegans Wake’.”(Calvino 1990, p.131)

     E, procurando finalizar a belíssima série de conferências sobre as qualidades da escritura (“Leveza”, “Rapidez”, “Exatidão” e “Visibilidade”), na derradeira conferência – cujo título é “Multiplicidade” -, Calvino confessa que:

“Entre os valores que gostaria fossem transferidos para o próximo milênio está principalmente este: o de uma literatura que tome para si o gosto da ordem intelectual e da exatidão, a inteligência da poesia juntamente com a da ciência e da filosofia (...)” (Calvino 1990, p.133)

     À luz do que precede, em se tratando da filosofia clássica moderna, é importante frisarmos que é comum a todas as filosofias desdobradas do Iluminismo - suas sucessoras - apresentarem a razão como uma força histórica capaz de libertar a humanidade de seus grilhões, fazendo do mundo um lugar de progresso e de felicidade.
     A reflexão conjunta dos filósofos alemães frankfurtianos Theodor Adorno e de Max Horkheimer no texto “Dialética do Esclarecimento” anuncia a razão iluminista (desenvolvida pela burguesia no início da era moderna) como portadora das dimensões emancipatória e instrumental, conforme previra a conceituação kantiana sobre o Esclarecimento, isto é, sobre o conceito de “Aufklarung” (ou Iluminismo). Nesse sentido, enfatiza o filósofo iluminista alemão Immanuel Kant:

“Sapere Aude. Tenha a coragem de usar seu próprio entendimento!” (...)

     Todavia, prossegue, num de seus escritos fundamentais, o filósofo de Königsberg (cidade alemã onde Kant nasceu e na qual passou toda a sua existência):

“Discuta quanto quiser e sobre o que quiser, mas obedeça!” (3)

     Neste ponto, podemos constatar que o entusiasmo kantiano pela razão humana e o estabelecimento de seus limites revelam-nos, com efeito, uma fraqueza teórica (“Discuta quanto quiser e sobre o que quiser, mas obedeça!”); visto que a burguesia da ocasião (século XVIII), na medida em que passou, com a queda da aristocracia, a impor o seu projeto de dominação em relação às outras classes sociais, foi, também, ofuscando, de forma acentuada, a dimensão emancipatória da razão, privilegiando, sobretudo, a sua dimensão autoritária, reguladora, que resulta na racionalidade instrumental.
     No já consagrado livro “Dialética do Esclarecimento” (1947), o pensamento de Adorno e Horkheimer é um duro ataque ao modelo científico formulado sob a inspiração iluminista, que resulta na racionalidade totalizante do mundo moderno. Assim, o conceito de Iluminismo, na “Dialética do Esclarecimento”, é definido da seguinte forma:

“No sentido mais amplo do progresso do pensamento, o esclarecimento tem  perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo” (Adorno/Horkheimer 1986, p.19)

     Tal crítica da forma contemporânea do Iluminismo, definida por Adorno e Horkheimer, pretende, “grosso modo”, mostrar que a ciência e a técnica, que vieram para libertar o homem da visão mágica, do mito, criaram outros mitos, ainda mais potentes e sofisticados, pois, agora, o homem é vítima do próprio progresso e da racionalidade técnica, visto que a ciência, a tecnologia ou o pensamento crítico em geral - sonhado pelos primeiros pensadores modernos como possibilidade de minorar o sofrimento da humanidade – perde, progressivamente, com o avanço da racionalidade instrumental, todo o potencial libertário que lhe é inerente.
     Contudo, tal recusa da figura iluminista da razão, que dá na razão instrumental, em Adorno e Horkheimer não tem, todavia, como contrapartida, a apologia de um irracionalismo, pois, se o preço do triunfo da razão iluminista, conforme enfatizam Adorno e Horkheimer, foi, precisamente, a incorporação do mito e da razão soberana, da história como progresso e da lógica dualista, na verdade, com a incorporação de tais elementos, a razão incapacitou-se para identificar a irracionalidade que ela própria produz. Resumidamente, a razão iluminista tão decantada pelos filósofos frankfurtianos não é mais que a razão instrumental presente na desigualdade social, na opressão... nos pilares de sustentação da sociedade capitalista; enfim, nos domínios totalitários e ideológicos - especialmente no que se refere ao desaparecimento da perspectiva de felicidade do homem no mundo.
     Desse ponto de vista, na trilha da reflexão frankfurtiana, é preciso empreender uma crítica negativa, a fim de destruir tal mito opressor. Cabe a esta teoria crítica, sobretudo, resgatar o indivíduo em sua totalidade, num esforço para demitizar a racionalidade e (re)sensualizar o indivíduo. Cabe, enfim, a esta teoria crítica, denunciar os vários tipos de fetichismo da sociedade hodierna, sobretudo do pensamento que vai da ciência à política.
     Ainda é preciso ressaltar que o homem (re)sensualizado não significa, apenas, a proposta de reabilitação da sensibilidade humana contra a hegemonia clássica das faculdades intelectuais, isto é, não se trata tão-somente de redimensionar as faculdades divididas pela razão instrumental, mas de reencontrar e de reconciliar as consciências em relação às coisas, noutras palavras, reconciliar o homem e a natureza. Trata-se, enfim, de reincorporar a dimensão da afetividade no pensamento, para que este apreenda a concretude de uma totalidade mais complexa. Entretanto, a vitória da razão sobre o mito representa a tarefa histórica de deixar os instintos sob o controle do tribunal da razão instrumental, ou melhor, da razão dominadora. A partir deste aspecto:

“A essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação. Os homens sempre tiveram de escolher entre submeter-se a natureza ou submeter a natureza ao eu (...) Forçado pela dominação, o trabalho humano tendeu sempre a se afastar do mito, voltando a cair sob o seu influxo, levado pela dominação” (idem acima  p.43)

     Esse entrelaçamento de mito, de dominação e de trabalho está conservado, consoante interpretação de Adorno e Horkheimer, em um dos episódios das narrativas de Homero na “Odisséia”, acentua a “Dialética do Esclarecimento”. É no canto XII da “Odisséia” que a alegoria do Canto das Sereias ilustra os extravios da razão ocidental. Após a descida e posterior descrição do Hades – mundo dos mortos para os gregos (Canto XI), Ulisses, assustado pela multidão de almas que o persegue no Hades, volta ao navio, e retorna à ilha de Circe (Canto XII):

“Ulisses foi alertado por Circe, a divindade da reconversão ao estado animal, à qual resistira e que, em troca disso, fortaleceu-o para resistir a outras potências da dissolução. Mas a sedução das Sereias permanece mais poderosa. Ninguém que ouve sua canção pode escapar a ela” (idem acima,  p.44)

     Assim, no decorrer de toda odisséia homérica, os deuses põem à prova a memória de Ulisses e a dos navegantes que o acompanham em seu infortúnio (por duas décadas, perdido nos mares, após o retorno da Guerra de Tróia), recorrendo ao uso de vários artifícios, para que o herói Ulisses e seus tripulantes se esquecessem de retornar a Ítaca. Isto também se evidencia no episódio que narra o país dos lotófagos (Canto IX), onde Ulisses luta para aniquilar o poder inebriante que o lótus causara em sua tripulação. Ulisses narra, então, o seguinte:

“Os lotófagos não pensaram em matar nossos companheiros; deram-lhes a comer do loto e quem, dentre eles, comia o fruto do loto, doce como mel, já não queria trazer notícias nem regressar, mas sim ficar ali com os lotófagos, sustentando-se de loto, sem pensar no regresso. Eu os trouxe à força para bordo, desfeitos em pranto (...)” (Homero 1994, p.103)

(“ ... ils leur donnèrent  seulement à goûter de leur fruit de lotos. Tous ceux qui mangèrent  de ce fruit ne voulaient ni s’en retourner, ni donner de leurs nouvelles; ils n’avaient d’autre envie que de demeurer là avec ces peuples , et vivre de lotos dans un entier oubli de leur patrie. Mais je les envoyai prendre, et , malgré leurs larmes, je les fis monter sur leurs vaiseaux  ...” )

     Um outro artifício foi utilizado por Circe: a deusa feiticeira transforma os companheiros de Ulisses em porcos, que só retomam a forma humana mediante a intervenção do herói Ulisses, por quem Circe se apaixonara:

“Ela não tardou a sair: abriu as luzidias portas e convidou-os. Todo o grupo, em sua ignorância, seguiu-a: (...)Ela os fez entrar e sentar em divãs e cadeiras; preparou-lhes uma papa de queijo, cevada e pálido mel, com vinho de Pramnos; nessa comida misturou drogas daninhas, para tirar-lhes toda lembrança da terra pátria. Assim que lha serviu e eles a sorveram, bateu-lhes com a vara de condão e fechou-os em pocilgas. Tinham agora cabeça, voz, cerdas e corpos de suínos, embora conservassem a inteligência como antes (...)”  (idem acima, p.118)

(“Elle se lève de son siége, ouvre ses portes éclatantes et les convie d’entrer. (...) La déesse fait d’abord asseoir ces malheureux posé de fromage, de farine et de miel détrempé dans du vin de Pramne, et où elle avait mêlé des drogues enchantées pour leur faire oublier leur patrie. Dès qu’ils eurent avalé ce breuvage empoisonné , elle leur donna sur la tête un coup de sa verge, et les enferma dans l’étable. Ils avaient la tête, la voix , les soies, enfin tout le corps de véritables pourceaux; mais leur esprit était encore entier comme auparavant...”)

     Este trecho do Canto X da “Odisséia” é por demais ilustrativo, pois, diante de inúmeros significados que a narrativa poética permite-nos inferir, ao menos um aspecto destaca-se: a memória é um perigo e um poder - ambos precisam ser constantemente reforçados e vigiados, visto que, aqueles que cederam aos artifícios das divindades, animalizaram-se ou morreram. Apenas Ulisses, o herói astucioso, que incorpora o sonho de fazer a sua própria história, parece ter entendido que a memória era a garantia de sua sobrevivência, de sua humanidade, bem como, de seu retorno a Ítaca. Noutros termos, consoante Rodrigo Duarte (1993):

“Ulisses só consegue retornar a Ítaca, sendo capaz de passar não apenas pelas sereias, mas também por Calipso, Polifemo, Cila, Caríbdis - seres que, de uma forma ou de outra, simbolizam a natureza exterior -, à medida que ele próprio aprende a se dominar a si mesmo. Dito de outro modo: ele só pode dominar a natureza que a ele se contrapõe à medida que domina a sua natureza interna(...)” (Duarte 1993, p.93)

     Tecidas tais considerações, é bom lembrarmos que, em última instância, a “Dialética do Esclarecimento” procura enfatizar a incapacidade da razão em propor teses ao processo de emancipação social, dado que o processo de racionalização cada vez mais acelerado - tal como se a compreende e a pratica na civilização moderna - tende a destruir a própria substância da razão. Se Marx recebeu de Kant e do idealismo alemão a tese do primado da razão prática, levando-a até o fim (a exigência de transformar o mundo, ao invés de interpretá-lo!), o núcleo da distância que Adorno e Horkheimer tomam em relação a Marx encontra-se na constatação histórica de que a transformação do mundo fracassou, pois, eliminando toda a pluralidade do ato de pensar e instituindo um padrão de pensamento unidimensional, com efeito, a razão instrumental triunfa:

“O caminho da civilização era o da obediência e do trabalho, sobre o qual a satisfação não brilha senão como mera aparência, como beleza destituída de poder. O pensamento de Ulisses, igualmente hostil à sua própria morte e à sua própria felicidade, sabe disso. Ele conhece apenas duas possibilidades de escapar. Uma é a que ele prescreve aos companheiros. Ele tapa seus ouvidos com cera e obriga-os a remar com todas as forças de seus músculos. Quem quiser vencer a provação não deve prestar ouvidos ao chamado sedutor do irrecuperável e só o conseguirá se conseguir não ouvi-lo. Disso a civilização sempre cuidou. Alertas e concentrados, os trabalhadores têm que olhar para frente e esquecer que foi posto de lado (...) A outra possibilidade é a escolhida pelo próprio Ulisses, o senhor da terra que faz os outros trabalharem para ele. Ele escuta, mas amarrado impotente ao mastro (...)”(Adorno e Horkheimer 1986, p.45)

     Dessa forma, uma vez acordados com a hermenêutica do referido Canto homérico, proposta pelos frankfurtianos, a passagem acima indica a gênese e a constituição da razão instrumental: ela se reifica, se coisifica e, como já vimos anteriormente, por meio de sua unidimensionalidade, ela se torna a negação de sua dimensão emancipatória. Por conseguinte, seu objetivo, aliás, visa, exclusivamente, a reprodução do capital. Ela se coloca, sobretudo, a serviço da produção e da exploração dos trabalhadores. Assim:

“As medidas tomadas por Ulisses quando seu navio se aproxima das Sereias pressagiam alegoricamente a dialética do esclarecimento” (idem acima, p.45)

     Esta é, segundo a “Dialética do Esclarecimento”, a situação do patrão amarrado ao mastro, impossibilitado de fruir e condenado a apenas contemplar, enquanto seus subordinados, de ouvidos tapados pela cera, realizam o trabalho braçal. Eis a repressão da natureza interior (freudianamente: a renúncia ao princípio do prazer) amparada pela divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho manual na produção de mercadorias, e de indivíduos tornados objetos de manipulação para outros homens.
     Dito de maneira mais ampla, esta é a codificação do momento em que o prazer é neutralizado pela arte. Nesse sentido, a arte não está de forma alguma livre do princípio de dominação, visto que a arte está sujeita, como todo o resto, à lei de objetivação (existe em Adorno uma relação direta entre o estético e o social). Nesse sentido, a arte não pode evitar tal espécie de fetichismo:

“Amarrado, Ulisses assiste a um concerto, a escutar imóvel como os futuros freqüentadores de concertos, e seu brado de libertação cheio de entusiasmo já ecoa como um aplauso. Assim, a fruição artística e o trabalho manual já se separam na despedida do mundo pré-histórico” (idem acima, p.45)

     Contudo, surge, neste ponto, uma inquietação que, para nós, se traduz do seguinte modo: uma filosofia que deseja romper os limites da racionalidade instrumental, com o fito de denunciar o “desencantamento do mundo moderno”, reinterpretando o mito por intermédio de sua crítica ao Iluminismo (Ulisses “...o herói das aventuras revela-se precisamente como um protótipo do indivíduo burguês...” (Adorno e Horkheimer: 1986)) não estaria a duplicar, inadvertidamente, a irracionalidade, visto que projeta o mal do mundo moderno no mundo antigo? Ademais, a “Dialética do Esclarecimento” não teria encampado a obra de Homero, a “Odisséia”, numa só categoria, isto é, a da racionalidade instrumental?
     Diversas são as possibilidades de leitura, de interpretação e de apropriação da verdade poética. Felizmente o campo não é uniforme, nem homogêneo. Mas o fato é que a dialética negativa de Adorno e Horkheimer (Ulisses forjando o “Eu” e se reprimindo, indefinidamente...) a permanecer na negatividade parece não nos indicar nenhum caminho que nos auxilie a sobreviver às intempéries do nosso tempo.
     De outra parte, o “inferno” do mundo atual não estaria justamente num mundo esvaziado de poética, conforme as precedentes de Ítalo Calvino?
     Por outro lado, é neste ponto que Walter Benjamin, abordando a questão sobre um outro prisma, isto é, insistindo na leitura político-alegórica dos textos clássicos pertencentes ao nosso patrimônio cultural, nos afasta da razão aporética-perplexa de Adorno e Horkheimer.
     Por fim, como outra alternativa, visando a problematização concomitante a um futuro aprofundamento da nossa presente reflexão, transcrevemos, abaixo, a versão alegorizada da “Odissséia” homérica – inacabada! - nas páginas de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, a qual segue na direção apontada pelo projeto teórico benjaminiano:

  “Ó irmãos (eu falei), que desta feita
    aos confins avançastes do Ocidente,
    entre perigos, onde o sol se deita,

   à pouca vida em vós remanescente
   não recuseis a esplêndida experiência
   do mundo ermo e ignorado à nossa frente.

   Relembrai vossa origem, vossa essência:
   criados não fostes como os animais,
   mas donos de vontade e consciência.

   Aos companheiros, com palavras tais,
   instilei tanto o gosto da jornada,
   que nem eu mesmo os reteria mais.

   A popa à parte matinal voltada,
   demos com força aos remos, e cingindo
   à esquerda a rota, fomos de longada.

   A noite os astros, todos descobrindo
   ia do polo austral, e, pois, se via
   na linha dágua o nosso decaindo.

   Cinco vezes brilhante ao céu subia
   a lua, e tantas outras se apagava,
   enquanto o firme rumo a nau seguia.
 
   Súbito, um monte vimos, que se alteava,
   escuro, na distância, e erguido tanto,
   que de outro igual nenhum de nós lembrava.

   Logo mudou nossa alegria em pranto:
   eis que veio da terra um furacão,
   e ao frágil lenho arremessou seu manto

   Por três vezes levou-o de roldão;
   na quarta, a popa ergueu, e mergulhou
   no fundo a proa, à suma decisão,

   até que o mar enfim nos sepultou”


   (Dante Alighieri. A Divina Comédia, Canto XXVI)




                        NOTAS

1. Referimo-nos ao texto: “Ulisses ou Mito e Esclarecimento” in Dialética do Esclarecimento. 2 ed.Rio de Janeiro: Zahar, 1986, pp.53-80. Nele, Adorno e Horkheimer advogam a tese de que, ao propor eliminar o mito no mundo em que a razão humana se torna absoluta, o movimento de pensamento (do século XVIII) do Iluminismo recaiu num novo mito.

2. Ulisses é tradução latina de Odisseu, nome do herói greco-homérico protagonista da “Odisséia”.

3. KANT, Immanuel. “O que é Iluminismo” in Humanidades: R. da UnB. Brasília, v.1, pp.49-53, out/dezembro 1982.


                    BIBLIOGRAFIA

ADORNO, Theodor W. Dialéctica negativa. Tradução José María Ripalda. Madrid: Taurus, 1975.

ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução Guido Antonio de Almeida. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução Cristiano Martins. 2v. 5 ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda., 1989.

ARISTÓTELES. Poética. Tradução Eudoro de Souza. 2 ed. São Paulo: Ars Poetica, 1993.

BENJAMIN, Walter. La metafísica de la juventud. ( Traducción Luis Martínez de Velasco) Barcelona: Paidós, 1993.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sergio Paulo Rouanet. In Obras Escolhidas I, v.1, São Paulo: Brasiliense, 1985.

____. Origem do drama barroco alemão. (Tradução Sérgio Paulo Rouanet) São Paulo: Brasiliense, 1984.

CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

DUARTE, Rodrigo A. de Paiva. Mímesis e racionalidade: a concepção de domínio de natureza em Theodor W. Adorno. São Paulo: Loyola, 1993.

HOMÈRE. L’Odyssée. Traduction de Mme. Dacier. Paris: Librairie Garnier Frères, [s.d.]

HOMERO. Odisséia (na forma narrativa). Tradução Jaime Bruna.13 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.

PAZ, Octavio. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1972.



              PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
             Campinas, primavera de 2005









SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 21/12/2005
Código do texto: T88851

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SÍLVIO MEDEIROS
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