Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

"ODISSÉIA", DE HOMERO (continuação da tentativa de resumo: Cantos V a VIII, seguida de exercícios de reflexão)

              “ODISSÉIA”, DE HOMERO

         
  (RESUMO/continuação)
                                                                                 Autoria: Prof. Dr. Sílvio Medeiros




CANTO V


     O resultado de uma nova Assembléia no Olimpo entre os deuses decide pelo retorno do herói Odisseu a Ítaca. O herói encontrava-se encerrado há sete anos na Ilha de Ogígia, da deusa-ninfa Calipso. Entretanto, a deusa Palas Atena, duvidando das palavras de Zeus no que se refere à possibilidade de libertar Odisseu, manifestou a sua inquietação. Foi, então, repreendida pelo deus do Olimpo da seguinte forma:

“_ Quel mot s’est échappé de l’enclos de tes dents, ma fille? Eh!comment donc oublierais-je jamais cet Ulysse divin qui, sur tous le mortels, l’emporte et par l’esprit et par les sacrifices qu’il fit toujours aux dieux , maîtres des champs du ciel?”  (p.140)

“_ Filha, por que tais palavras de encerro da boca soltaste? Não foste tu que, por própria deliberação, resolveste que se vingasse Odisseu deles todos, ao vir de tomada?” (p. 98)

     Hermes, o deus mensageiro, foi convocado por Zeus e, em seguida, encarregado - pelo senhor do Olimpo - de levar até Calipso a mensagem de libertação do herói Odisseu.
     Quando a ninfa Calipso soube dos planos do Olimpo, ficou furiosa. Vociferando, disse a ninfa:

“_ Que vous faites pitié, dieux jaloux entre tous! ô vous qui refuzez aux déesses le droit de prende dans leur lit, au grand jour, le mortel que leur couera choisi pour compagnon de vie!...”

         
“_ Duros sois todos os deuses e mais invejosos que os homens, que vos zangais, quando, acaso, uma deusa se acolhe no leito de homem mortal e resolve esposar quem na terra lhe agrade...” (p.101)

     Entretanto, à deusa Calypso não havia outra alternativa. A decisão do Olimpo fora firmada. Além disso, era impossível Calipso deter o herói Odisseu em sua ilha, pois, nos últimos anos, ele passara o dia todo lamentando a ausência de Ítaca. Nada consolava o herói Odisseu; ele chorava durante todo o dia, na praia, somente a pensar em seu imediato retorno ao lar.
     Diante de tais circunstâncias, a apaixonada Calipso permitiu a partida do herói, instruindo-o – consoante orientação dos deuses - na construção de uma jangada, isto é, a embarcação com a qual Odisseu deveria deixar a ilha de Ogígia. Odisseu hesitou em deixar a ilha, dizendo o seguinte:

“ Ce n’est pas mon retour, ah! c’est tout autre chose que tu rêves, déesse! lorsque, sur un radeau, tu me dis de franchir le grand gouffre des mers, ses terreurs, ses dangers, que les plus fins vaisseaux à la marche rapide ne peuvent traverser, même en ayant de Zeus la bris favorable.” (p.151)

“Ouros desígnios, ó deusa, meditas, que não meu retorno,
quando me ordenas cruzar em jangada o infinito das águas
cheio de grandes perigos, que os próprios  navios velozes
jamais conseguem vencer, sem que Zeus lhes envie bons ventos.” (p.102)

     A deusa então prometeu que ele seria protegido pelos deuses contra quaisquer males. Dito isso, encaminhou Odisseu até as florestas para que o herói pudesse, com os recursos vegetais ali disponíveis, construir a jangada. Odisseu abateu algumas árvores e pôs-se a trabalhar, concluindo a tarefa alguns dias depois.
     Na jangada, o herói despediu-se da deusa e, em seguida, lançou-se ao mar. No entanto, Posido –deus do mar -, sabendo da fuga de Odisseu, em comum acordo com os deuses dos ventos, agitou o mar, levando o herói à certeza de que iria morrer frente aos enormes vagalhões que se formavam. Contudo, a deusa Leucoteía tomou conhecimento da viagem mal sucedida do herói e vem rapidamente em seu auxílio. Ofereceu-lhe, então, um véu, pedindo que o estendesse sobre o peito, pois, dessa forma o herói estaria salvo da morte fatal. Odisseu, em meio ao tormento dos mares, a princípio duvidou das palavras da deusa. Por fim, atendeu-a quanto ao pedido. Abandonou a jangada, despiu-se de todas as roupas que trajava e colocou o véu contra o peito. Durante dias o herói permaneceu subjugado aos desejos perversos dos deuses marítimos que tentavam lhe retirar a todo custo a vida. Após muitos sofrimentos, e acreditando que a morte estava próxima, Odisseu avistou terras... ao longe. Era a Feácia, a ilha dos Feácios! Todavia, rochas pontiagudas impediam o herói de chegar, com segurança e a salvo, até a terra firme. Com a ajuda da deusa Atena – guia nas venturas e desventuras do herói grego -, Odisseu fez uso de um artifício para conseguir chegar a salvo até a ilha Feácia. Apoiando-se pesadamente, com as mãos, numa das rochas, obteve, desse modo, a estabilidade necessária para nadar até a praia. O herói obteve êxito! Extenuado, Odisseu chega à praia da ilha dos Feácios. Ainda nu, Odisseu constrói um leito confortável, com os arbustos colhidos da rica vegetação local. A deusa Atena lança nos olhos do herói um sono reparador, cerrando-lhe as pálpebras e proporcionando-lhe, desse modo, um sono reparador.





CANTO VI


     No palácio do rei Alcínoo, a princesa Nausícaa - filha de Alcínoo - é induzida pela deusa Palas Atena a sonhar com o casamento próximo: “_Tu dors, Nausicaa!... la fille sans souci que ta mère enfanta! Tu laisses là, sans soin, tant de linge moiré! Ton marriage approche...”. (“_ Como, Nausícaa, tua mãe te gerou descuidada a tal ponto? Sem nenhum trato abandonas, assim, teus vestidos brilhantes? Próximo é o dia do teu casamento...” (p.114)).
     Uma vez desperta, e influenciada pelos desígnios da deusa Palas Atena, Nausícaa solicita permissão ao pai para ir até a praia - como era de costume: lavar roupas. A jovem adolescente segue em direção à praia, acompanhada de algumas meninas.
     No mesmo momento, Odisseu desperta de um longo e reparador sono e, logo em seguida, avista o grupo formado por belas e jovens moças: “_ Hélas! en quel pays, auprès de quels mortels suis-je donc revenu? (...) qu’entends-je  autour de moi? des voix fraîches de filles?...” (“_ Pobre de mim! A que terra cheguei? Quais os homens que a habitam (...) Como de moças, soou-me aos ouvidos um grito estridente de ninfas...” (p.117) ).
     Envergonhado pela nudez, o herói arranca um arbusto próximo e cobre o sexo. Aproxima-se do grupo de jovens adolescentes; as demais jovens fogem apavoradas ao avistar a figura do herói maltratada pelos tormentos que sofrera no mar. Somente Nausícaa - tomada de encantamento pelo jovem estrangeiro: obra da deusa Atena! - permite que dela se aproxime. Odisseu então diz à bela Nausícaa: “_ Je suis à tes genoux , ô reine! que tu sois ou déesse ou mortelle! (“_Os joelhos ora te abraço, senhora; és mortal ou divina?”). Nausícaa, já  apaixonada pelo estrangeiro, dirige-lhe, então, palavras compreensivas, chamando de volta as outras meninas.
     Nausícaa concebeu, então, um plano, para levar o estrangeiro, às escondidas, até o palácio do pai. O plano procurava não despertar a atenção dos feaceanos - conhecedores da profecia de que a bela Nausícaa encontraria, em breve, seu futuro marido. Fazendo uso da sensatez, Nausícaa aconselhou Odisseu a se esconder nos bosques da ilha, consagrados à deusa Palas Atena, bem próximos do palácio. O grupo partiu, então, rumo à cidade dos feácios. Nausícaa solicitara a Odisseu que se conservasse escondido no bosque, até que ela retornasse ao lar. Só então ele poderia apresentar-se ao rei Alcínoo e à  rainha Arete - ambos pais da bela menina Nausícaa.





CANTO VII


     Chega, então, o momento de Odisseu dirigir-se até o palácio do rei Alcínoo – conforme planejara junto à Nausícaa. A essa altura dos acontecimentos, a deusa Atena cobre o corpo de Odisseu com uma bruma, com uma nuvem espessa, para que ele não fosse visto por ninguém:

“Ulysse se levait et prenait à son tour le chemin de la ville: en son tendre souci, théna le couvrait d’une épaisse nuée, craignant qu’il ne crosaît quelque fier Phéacien qui, l’insulte à la bouche, voudrait savoir son nom.”

     O herói atravessa a cidade dos feácios, admirando as riquezas em bronze, prata e ouro que adornavam as ricas construções da cidade. A deusa Atena, disfarçada de mocinha, auxilia Odisseu a chegar até o palácio do rei Alcínoo.     Lá dentro, Nausícaa se prepara para a sua chegada. Envolto, ainda, na bruma enviada por sua mãe divinal, Odisseu admira as riquezas das terras dos feácios e, por fim, encanta-se com o resplandecente palácio real.

“Ulysse allait entrer dans la noble demeure du roi Alkinoos; il fit halte un instant. Que de trouble en son couer, devant le seuil de bronze! car, sous les hauts plafonds du fier Alkinoos, c’était comme un éclat de soleil et de lune! Du seuil jusques au fond , deux murailles de bronze s’en allaient , déroulant leur frise d’émail bleu. Des portes d’or s’ouvraient dans l’épaisse muraille: les montants, sur le seuil de bronze, étaient d’argent; sous le linteau d’argent, le corbeau était d’or, et les deux chiens du bas , que l’art le plus adroit d’Hephaestos avait faits porgarder la maison du fier Alkinoos, étaient d’or et d’argent.” (p.185)

“Odisseu, entrementes,
chega à morada esplendente de Alcínoo; detém-se volvendo
mil conjeturas, primeiro que a brônzea soleira passasse,
pois se espalhava um fulgor semelhante ao do Sol ou da lua
pela morada de teto elevado de Alcínoo magnânimo.
De ambos os lados, cobertos de bronze, estendiam-se muros
desde a fachada até o fundo, encimados por friso azulado.
Portas com lâminas de ouro o palácio fechavam por dentro,
com seus batentes de prata apoiados em brônzea soleira.
Era de prata, de cada um dos lados, dois cães se encontravam,
obra de Hefesto, que os tinha com arte extremada acabado,
para que a casa guardassem de Alcínoo, de peito magnânimo,
pois não se achavam sujeitos ao tempo, nem velhos ficavam...” (p.126)
       
     Ao entrar no palácio, Odisseu logo se pôs de joelhos, frente à rainha Arete, e passou a orar aos deuses, rogando por melhor sorte. De repente, a bruma dissipou-se e Odisseu aparece ajoelhado junto aos pés da rainha Arete, e diante dos chefes e dos conselheiros da corte dos feácios. Frente a tal cena, todos se calaram de espanto. Porém, movidos de benevolência, sobretudo a rainha Arete, diante das súplicas de Odisseu, que explicava lá se encontrar por desventuras do próprio destino, os feácios convidaram, por fim, o estrangeiro a participar das libações daquele momento.Em seguida, a rainha Arete dirige-se a Odisseu nos seguintes termos:

“_ Ce que je veux d’abord te demander, mon hôte, c’est ton nom et ton peuple? .... et qui donc t’a donné les habits que voilà ? ... ne nous  disais-tu pas que tu nous arrivais après naufrage en mer? ...”

“_ Quero, estrangeiro, primeiro que todos, fazer-te perguntas:
Qual o teu nome? De onde és? (...)
Não nos disseste que vieste até aqui, pelo mar sempre a nado?” (p.130)

     Em resposta, o ardiloso Odisseu narrou sua história, procurando dar prioridade somente aos fatos ou às experiências vividas enquanto permanecera na ilha da ninfa Calipso, escondendo, assim, episódios da sua história que pudesse revelar sua verdadeira identidade.
     Após ouvir a história de Odisseu, a corte dos feácios resolveu acolhê-lo como hóspede. Antes, contudo, o rei Alcínoo, percebendo tratar-se o hóspede de um magnânimo (um possuidor de nobres sentimentos), propôs ao estrangeiro recém-chegado esposar sua filha Nausícaa. Odisseu era merecedor de tal dote devido, sobretudo, ao respeito demonstrado por Nausícaa no primeiro encontro.
Odisseu agradeceu, então, todas as gentilezas demonstradas pelos nobres feácios e, em seguida, foi descansar num confortável leito preparado exclusivamente para ele.


CANTO VIII


“Dans son berceau de brume, aussitôt qu’apparut l’Aurore aux doigts de roses, Sa force et Sain-teté le roi Alkinoos s’élança de son lit, et le pilleur de Troie, le rejeton des dieux, Ulysse se leva...”, (“Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, prestes do leito se ergueu o poder consagrado de Alcínoo e, juntamente, o divo Odisseu eversor de cidades, a quem servia de guia o poder consagrado de Alcínoo para o conselho, na praça, que perto das naus construíra...” (p.135))
e,
a deusa Atena, percorrendo a cidade, convocava todos os cidadãos para que viessem até a Assembléia e ouvissem as palavras do rei Alcínoo a dar instruções de como reconduzir o novo hóspede rumo a sua pátria:

“_Par ici, conseillers et doges phéaciens! alllez à l’agora! vous verrez l ‘étranger que vient de recevoir le sage Alkinoos: il a roulé les mers! il est beau comme un dieu!”

“_Ide, Feácios, que sois conselheiros e guia do povo,
ide ao conselho, na praça, porque conheçais o estrangeiro,
hóspede novo de Alcínoo prudente, depois de jogado
no vasto mar, sem destino. Parece um dos deuses eternos.” (p.136)

     O convite era feito pela deusa Atena, a divina protetora de Odisseu. Era, também, anunciado um festim, isto é, moços de comprovada valentia eram estimulados a participar dos jogos que teriam lugar nos arredores do palácio do rei Alcínoo. O divino cantor, ou o aedo Demódoco, foi convidado a participar das cerimônias festivas:

“Le héraut reparut, menant le brave aède à qui la Muse aimante avait donné sa part et de biens et de maux, car, privé de la vue, il avait reçu d’elle le chant mélodieux. Pour lui faire une place au centre du festin....”

“Já pelo arauto trazido o cantor divinal se aproxima,
que tanto a Musa distingue, e a quem males e bens concedera:
tira-lhe a vista dos olhos, mas cantos sublimes lhe inspira.
Junto de uma alta coluna, em cadeira de enfeites de prata...” (p.137)

     ... têm início os jogos. Laodamante, o viril descendente de Alcínoo, fazendo uso de palavras desafiadoras, molestou Odisseu. Porém, Odisseu demonstrou toda a sua força numa das provas esportivas: o lançamento dos discos. Com tal habilidade, convenceu a todos de que se tratava, realmente, de um magnânimo...

 “quand on eut satisfait la soif et l ‘appétit, l’aède, que la Muse inspirat, se leva. Il choisit, dans la geste humaine, um épisode  dont le renom alors jusque aux cieux.”
 
“tendo assim, pois, [após o banquete no palácio] a vontade da fome e da sede  saciado, vira-se para Demódoco [o aedo dos feácios] o astuto Odisseu e lhe fala: _ Mais do que a todos os outros mortais, te venero, ó Demódoco! Foste dicíp’lo das Musas, as filhas de Zeus, ou de Apolo? (...) ora começa de novo, e o cavalo de pau [de Tróia] nos invoca...” (p.149)

     O aedo Demódoco, canta, então, os amores entre Ares e Afrodite: “_Ah! la belle ouevre d ‘art de l ‘habile Héphaestos’!
     Uma série de propícias circunstâncias, pouco a pouco, trazia a lume a forte presença de Odisseu entre os convivas. O herói diz, então, a Demódoco:

“_ C’est toi, Démodocos, que, parmi les mortels, je révère entre tous , car la fille de Zeus , la Muse, fut ton maître, ou peut-être Apollon! Quand tu  chantes si bien le sort des Achéens (...) et comment le divin Ulysse  introduisit ce piège dans la ville, avec son chargement des pilleurs d’Ilion! Si tu peux tout au long nous conter cette histoire, j’irai dire partout qu’un dieu, qui te protège, dicte ton chant divin.”  (p.21) [Nota do autor do texto: no que se refere a este trecho, cf. a tradução das passagens  acima]

     Demódoco canta a história da Guerra de Tróia. Odisseu não consegue deter as lágrimas, e cai em prantos. Somente o rei Alcínoo notara a tristeza que se abateu sobre o estrangeiro (Odisseu); tornando-a pública, solicita a Odisseu (até então um desconhecido) que narre aquilo que lhe causa tanta amargura. Odisseu atende o pedido do rei Alcínoo, e passa a narrar a sua própria história...

.............................

NOTAS do autor do presente texto, a quem interessar possa:
ESCLARECIMENTOS E/OU SUGESTÕES para futuras REFLEXÕES sobre aquilo que foi lido, até aqui, nas páginas da “Odisséia”:

1. Contrariamente ao discurso filosófico, o aedo (cantor de poesias) é um seguidor de Apolo; é, na verdade, um músico.

2. No decorrer da leitura dos Cantos acima, fica evidenciado o quanto os deuses são astutos, ardilosos; “brincam” com os humanos qual marionetes, consoante a seus caprichos.

3. Diferentemente da tradição judaica – quem cria o
tempo é Deus; na “Odisséia” até os deuses devem obedecer à “physis” (para os gregos = mais ou menos: “natureza-certa”, dada... = COSMO, que não deve ser alterado. Nesse caso, Odisseu deve retornar (NOSTOS) ao lar, em obediência à “physis” (para a mentalidade grega, daquela ocasião, tudo ra caos. Em contrapartida, nós, atualmente, interpretamos tudo em termos históricos, isto é, é preciso organizar o caos – herança que herdamos tanto da cultura judaíca quanto da cristã.

4. Quanto a lançar um olhar antropológico nas páginas da “Odisséia”: os estrangeiros – no nosso caso o herói Odisseu, na qualidade de estrangeiro/desconhecido/ o Outro, na corte dos Feácios - são sempre, primeiramente, acolhidos com farto banquete, para só depois dialogarem... sobre a paz
ou sobre a guerra.

5. Durante a leitura dos Cantos I (ao IV –vide texto, aqui, no “Recanto da Letras”, já editado) ao VIII da “Odisséia, podemos constatar que os gregos são obrigados a fazer uma escolha entre uma vida longa (nesse caso, morrer na decadência física) ou morrer na plena força que constitui o guerreiro, isto é, ter uma vida breve, para obter, em virtude dos feitos heróicos, a imortalidade por meio de uma morte gloriosa. Nesse caso, os guerreiros gregos preferiam morrer jovens, objetivando a condição mais plena de mortal. Consoante a tal mentalidade, os guerreiros gregos amam a vida, querem viver bem, comer bem e lutar – os Cantos homéricos celebram a vida!; nisso consiste, para eles, a força da vida em busca da glória: KLEOS (vida gloriosa), donde deriva a FAMA, isto é, na Grécia arcaica, os guerreiros tinham consciência da mortalidade; nesse caso, tanto a glória quanto a fama passam pela glória do aedo (do poeta-cantor), que é aquele que luta contra a morte, visto que o seu cântico poético luta contra o esquecimento, contra a morte; os aedos, nesse caso, exercem o papel de salvadores da memória, da tradição cultural.

6. Quanto à ilha dos Feácios: nela, Homero apresenta-nos a celebração da vida; vive-se nesta ilha encantadora e mitológica as férias perpétuas: nela, há jogos olímpicos, todos cantam, comem, enfim, trata-se de uma glorificação dos prazeres da vida. Nada se fala sobre o trabalho, não se fala a respeito dos escravos (característica, aliás, do canto épico); na ilha de Ogígia só encontramos meninos e meninas belos a gozar os prazeres da vida (Odisseu apaixona-se pela adolescente Nausícaa! Aliás, Odisseu esteve junto à bela ninfa Calipso, por 7 anos, e junto a feiticeira Circe, por 1 ano, além da adolescente Nausícaa, também por 1 ano !! ... Contra tudo isso, existe, para os gregos, a morte, que significa o fim de todos os prazeres (com respeito ao Hades, falaremos na continuação desta tentativa de resumo da “Odisséia” – como se fosse possível resumir um clássico como a “Odisséia”!!!!). Daí, apenas: uma tentativa!


OBS. As anotações (reformuladas) acima registradas procedem de um belíssimo curso "Grande autor em língua estrangeira" - do qual tive o privilégio de participar como aluno efetivo! –ministrado, de forma magnífica, pela Profa. Dra. Jeanne Marie Gagnebin, durante o segundo semestre de 1995, no Instituto de Estudos da Linguagem -, da Universidade Estadual de Campinas –UNICAMP.
Desde então, acompanho, na qualidade de aluno-ouvinte, todas as inesquecíveis lições que me foram, e ainda são! transmitidas pela professora-sereia Jeanne Marie Gagnebin - nos últimos dez anos!!



BIBLIOGRAFIA

HOMÈRE. L’Odyssée. Texte établi et traduit par Victor Bérard.  Tomes I (huiteme tirage) , II ( neuvieme tirage) et III (huiteme tirage). Paris : Les Belles Lettres: Paris, 1972 - 1974 - 1987.

HOMERO. Odisséia. 2 ed. Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.


           PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
                verão de 2005





SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 26/12/2005
Reeditado em 17/03/2007
Código do texto: T90765

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
267 textos (351810 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 12:32)
SÍLVIO MEDEIROS