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Texto

O QUE É POESIA: do conteúdo

       Dando continuidade ao primeiro trabalho desta série, publicado em 14/03/08, resolvemos abordar um tema que, a nosso ver, ainda é muito controverso dentro dos estudos poéticos; o que deve conter a poesia. É comum dizer-se que a poesia é a expressão de temas belos elevados, expressa em versos e de curta extensão. Ora, o que diriam essas pessoas ao se deparar com o poema "As Litanias de Satã" do grande poeta francês Charles Baudelaire? Vejamos:

“Ó tu, o Anjo mais belo e o mais sábio senhor,
Deus que a sorte traiu e privou do louvor,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria!

  Tu, que és condenado, ó príncipe do exílio,
E que, vencido, sempre emerges com mais brilho,

Tem piedade, Satã, desta longa miséria! (...)”    ( As Flores do Mal)

Dependendo da concepção de belo do leitor, este texto será horrível. No entanto, um bom estudioso da literatura (como o Grande Prof. José Mário, da UFCG - que também é pastor evangélico), verá este texto de modo imparcial, analizando-o pelo seu lado artístico. Poesia não precisa ser bela, precisa ser expressão de uma subjetividade. Deixemos de lado então o termo belo.
Quanto a ser expressa em versos, cabe a leitura de nosso texto "O Que é Poesia: Considerações sobre o fazer poético", a fim de que se perceba que nem tudo que está em verso é poesia e, é necessário dizer; e a poesia nem sempre se expressa em versos.
Poesia sempre tem pequena extensão? Perguntem a Camões e aos seus Lusíadas. Ora, afirmar que poesia é a expressão, em pequeno espaço, de uma subjetividade, é o mesmo que assumir nunca ter lido um poema épico. Seria comum também que essa mesma pessoa dissesse: “Mas poema é uma coisa, poesia é outra!”. Ora, o que dizer diante disso? É necessário explicar que a poesia é a entidade abstrata, dotada de um sistema, que diz que ele deve ser expressa de determinado modo, obedecendo a determinadas regras. Essa abstração, quando é assimilada de forma correta por um artista, é concretizada em um poema, que pode ser um poema lírico, épico, ou dramático, sendo mais recorrente nos nossos dias o primeiro. Toda poesia é poema, todo poema é poesia. Assim, podemos dizer, “Drummond é poeta, pois faz 'poesia', um de seus 'poemas' é 'Anoitecer'”, ou ainda; “a 'poesia' de Bandeira é marcada pela presença de elementos do cotidiano, vejamos isso no 'poema' 'Momento num Café'”. A esse respeito, indicamos o importante estudo de Massaud Moisés, "A Criação Literária - Poesia", da editora Cultrix, onde este grande professor da USP discorre brilhantemente sobre esta problemática.
Logo, interpretar a poesia sobre esta ótica, nos possibilita observá-la como um modelo entendido por todos que a conhecem e, assim, “podendo ser posta no papel” sob a forma de um poema.  Todavia, cada autor tem sua própria visão de mundo, seus próprios sentimentos. É justamente isso que vai orientar o modo como esse poema será organizado, bem como o seu conteúdo. Analisando o poema “Porquinho-da-Índia”, de Manuel Bandeira, veremos algo diferente;

“Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
                Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.”


O que nos faz perceber este texto como poema não são os versos, nem a linguagem, que se assemelha muito com a prosa. Este texto torna-se poema, à medida que expressa um jeito único que o poeta possui para ver uma cena tão cotidiana, no seu ritmo subjacente, na visão do porquinho (que não lhe dava atenção, apesar de ser amado) como uma primeira namorada (quem nunca amou alguém, reservando-lhe parte da vida, sem ser correspondido à altura? - é como se o poeta deixasse implícito que ainda passaria por aquilo muitas vezes na vida, mas com mulheres), o uso dos diminutivos, enfatizando a idéia de carinho...
O susto de um leitor menos experiente é maior ainda quandose depara com o poema “Madrigal Tão Engraçadinho”;

“Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha
[vida, inclusive o porquinho-da-índia que
[me deram quando eu tinha seis anos.”

O poema possui, nitidamente, um diálogo com o primeiro texto, um sentimentalismo, um ritmo... Porém, onde estão os versos? Como se vê, o poema possui um único verso, organizado espacialmente para ocupar três linhas, mostrando cada uma, um momento distinto do texto - 1ª: a declaração inicial; 2ª:a comparação, que à princípio causa um sentimento de riso e 3ª: a lembrança da infância, elemento tão comum na poesia de Bandeira.
Portanto, tão equivocado como apresentar a poesia como algo curto, em versos, e expressando conteúdos “belos”, é dizer que o “romance é um texto com uma história de amor”. Do mesmo modo, querer encaixá-la em moldes, ignorando todas as contribuições modernistas, é também um erro. Desse modo, esperamos que os textos publicados sobre a problemática da poesia sirvam para desfazerem equívocos e, acima de tudo, orientar a visão que se tem do objeto poético, ou até mesmo, auxiliar na criação textual dos colegas.

   Leia também: "O QUE É POESIA: um pouco de crítica"
                      "O QUE É POESIA: desfazendo mitos"
                      "O QUE É CRÍTICA LITERÁRIA"
                      "POESIA E POEMA: conceituação, diferenciação, relação"

Weslley Barbosa
Enviado por Weslley Barbosa em 19/03/2008
Reeditado em 04/06/2010
Código do texto: T907804

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Sobre o autor
Weslley Barbosa
Campina Grande - Paraíba - Brasil, 26 anos
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