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"ULISSES", de JAMES JOYCE (tentativa de resumo da Parte I ou dos episódios 1,2 e 3, isto é, da "Telemaquia" joyceana)

               “ULISSES”, DE JAMES JOYCE


                 

           (RESUMO)


                            Prof. Dr. Sílvio Medeiros


                 EPISÓDIO 1 (TELEMACHUS)


     “_ Introibo ad altare Dei.” (“_ Entrarei no altar de Deus”): trata-se de uma expressão contida no prólogo do romance “Ulisses”, de James Joyce. Consiste na expressão pronunciada pelo personagem Buck Mulligan. Tal expressão dá origem a uma longa discussão entre os três protoganistas desse primeiro episódio. São eles: Buck Mulligan - médico pagão, adorador do mar - “Thalatta! Thalatta!” é uma palavra grega utilizada para saldar o mar... ela é, também, pronunciada por Mulligan; Kinch Haines, um amigo inglês de Mulligan e de Stephen Dedalus, jovem-artista-poeta irlandês. Os diálogos desenvolvem-se num local chamado “Torre do Martelo”, na cidade de Dublin - Irlanda. São 8 h. da manhã do dia 16 de junho de 1904. Stephen Dedalus é humilhado pelos companheiros. Dedalus - um bardo execrável, segundo Mulligan - é julgado dupla e severamente pelos companheiros, sobretudo devido à sua formação jesuítica  e  pelos  sentimentos de culpa que carrega consigo, por ter se ausentado do leito da mãe moribunda,   negando-lhe, desse modo, a última oração : “_Você não conseguiu ajoelhar-se  para rezar por sua mãe no seu leito de morte, quando ela lhe pediu. Porquê ? Porque você tem esse amaldiçoado sangue jesuíta em suas veias...” (“_ You wouldn’t kneel down to pray for your mother on her deathbed when she asked you. Why? Because  you have the cursed jesuit strain in you...”), vocifera Mulligan.
     Mulligan e Haines deploram a crença de Stephen Dedalus na consubstanciação de Deus-Pai-Filho, mediante a teoria do jovem poeta de que “o neto de Hamlet é o avô de Shakespeare e que ele mesmo é o espírito do próprio pai...” (“... that Hamlet’s grandson is Shakespeare’s grandfather and that he himself is the ghost of his own father”). Assim, Mulligan e Haines insistem em chamá-lo de bardo execrável, além dos freqüentes ataques que ambos dirigem à Irlanda católica.
     É importante notar como a presença da figura do pai - entrelaçada com a literatura shakesperiana -, além de alucinações messiânicas, são elementos em permanente conflito na mente de Stephen Dedalus. Nesse sentido, tais elementos já começam a moldar a personalidade do jovem artista neste primeiro episódio. Destacamos este ponto porque a figura do pai espiritual de Stephen Dedalus receberá tratamento especial ao longo do romance, noutras palavras, é este um dos motes centrais durante o desenvolvimento do enredo do romance.



                    EPISÓDIO 2 (NESTOR)

       
     Este episódio tem lugar na escola onde Stephen Dedalus leciona – Dedalus está preste a solicitar demissão. Stephen ministra aulas de história: “Efabulada pelas filhas da memória” (“Fabled by the daugthers of memory”) ... o tema da aula é enfadonho e pesado, versando sobre fatos e heróis da  história geral e, em específico, da história romana. A aula é entremeada por freqüentes interrupções feitas pelos alunos. Todos insistem para que o professor Stephen conte uma história imaginária. Stephen se rende às solicitações dos alunos. Porém, contrariando a expectativa lançada ao grupo de alunos, Stephen propõe-lhe a seguinte adivinha:

“O galo cucuricou
No céu o azul se espraiou:
Celestes sinos de bronze
Bimbalalaram as onze.
Tempo para esta pobre alma
Ter do paraíso a calma.”   (p.25)

(“The cock crew,
The sky was blue:
The bells in heaven
Were striking eleven.
‘Tis time for this poor soul
To go to heaven.”)            (p.22)

     Que é que é?
       “_ A raposa enterrando a avó debaixo de um azevinho.” (“_ The fox burying his grandmother under a hollybush.”), responde o próprio  Stephen, pois, naquele momento, tem início a hora do intervalo. A presença do professor Stephen é solicitada na sala do diretor da escola, o sr. Deasy.
     Stephen comparece (e visita) na sala do sr. Deasy. O escritório é decorado com moedas antigas, além de conchas e retratos de cavalos. A personalidade do sr. Deasy começa a se configurar por meio do diálogo que estabelece junto a Stephen: “..._ Ainda não sabe o que é o dinheiro. Dinheiro é poder, quando tiver vivido como já vivi.” (“_ Because you don’t save, Mr Deasy said pointing his finger. You don’t know yet what money is. Money is power. When you have lived as long as I have”), enfatiza o sr. Deasy. “_ Não uso de rodeios, uso?” (“_ I don’t mince words, do I? “), pergunta o sr. Deasy  a Stephen Dedalus.
     O diálogo entre ambos ruma em direção às concepções que cada um possui sobre a história. Enquanto o jovem professor Stephen afirma que, do seu ponto de vista, a história é um pesadelo do qual ele sempre tenta despertar; ao contrário, o Sr. Deasy a concebe como manifestação de Deus. O diretor ressalta, ainda, que as mulheres e o povo judeu foram dois elementos históricos que perturbaram o desenrolar teológico da história.  Do ponto de vista do sr. Deasy foi “_ ... uma mulher que trouxe o pecado para o mundo (...) Helena, a esposa fujona de Menelau.” (“ _ A woman brought sin into the world (...) Helen, the runaway wife of Menelaus...”) . O sr. Deasy insiste, também, em afirmar que a Inglaterra nas mãos dos judeus encontra-se em franca decadência: “_ A Inglaterra está nas mãos dos Judeus (...) E são o sinal da decadência de uma nação.” (“_ England is in the hands of the jews (...) And they are the signs of a nation’s decay”).
     Depois de ouvir, contrariado, o diretor da escola, Stephen Dedalus procura atender a uma solicitação feita pelo sr. Deasy: dirige-se, então, até o jornal “The Evening Telegraph”, levando consigo um artigo - de autoria do diretor, o sr.Deasy - sobre a febre aftosa. No referido artigo, o argumento central do Sr.Deasy é que não pode haver duas opiniões sobre esta questão.
     Stephen deixa a escola e parte pelas ruas de Dublin, em direção ao jornal.



                     EPISÓDIO 3 (PROTEUS)

       
     Após deixar a escola do sr. Deasy, Stephen segue rumo ao jornal. Põe-se, então, a confabular em prolongadas meditações psicológicas contrastadas com um abstrato e indefinido fluxo da consciência: “Vê agora. Aí todo o tempo sem ti: e sempre o será, mundo sem fim...” (“See now. There all the time without you: and ever shall be, world without end...”). Trata-se do fluxo do pensamento de Stephen, repleto de recordações pessoais, induzindo-o a refletir sobre o mundo em constante transformação: “Seu passo afrouxou. Aqui. Vou ou não vou à tia Sara? A voz do meu pai consubstancial (...) E e e e diga-nos Stephen, como vai tio Si? Oh, sangue de Deus, as coisas em que estou afundando” (“His pace slackened. Here. Am I going to aunt Sara’sor not? My consubstancial father’s voice (...) And and and and tell us, Stephen, how is uncle Si? O, weeping God, the things I married into”).
     A tendência do pensamento do jovem poeta Stephen é ligar-se a conceitos abstratos e a conflitos religiosos, numa meditação prolongada, com um desfecho à beira-mar:

“Primo Stephen, não serás nunca um santo. Ilha de santos. Eras terrivelmente piedoso, não eras? Rezavas à virgem Bendita para que não tivesses vermelho o naria. rezavas ao diabo na Avenida Serpentine para que a viúva fornidinha na frente levantasse da rua molhada um pouco mais as saias.”(p.34) (...) “Sob a inflante maré ele via as ervas recurvas levantar-se languescentes e oscilar indecisos braços, erguendo anáguas, em sussurrantes águas oscilando e revirando argênteas frondes recatadas.” (p.41)

(“Cousin Stephen, you will never be a saint. Isle of sants. You were awfully holy, weren’t you? You prayed to the Blessed Virgin that you might not have a red rose. You prayed to the devil in Serpentine avenue that yhe fubsy widow in front might lift her clothes still more from the wet street. (...) Under the upswelling tide he saw the wrinthing weeds lift languidly and sway reluctant arms, hising up theirs petticoats, in whispering water swaying and upturning coy silver fronds.”)  (p.34-41)



BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. Dublinenses. 4 ed. Tradução Hamilton Trevisan. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.

_____. Ulisses. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. Ulysses. New York : Vintage Books, 1986.


NOTA DO AUTOR:

Caro leitor: em breve apresentarei a continuação dos episódios do “Ulisses” de James Joyce.
Para o momento, sugiro a leitura da minha tentativa de resumo da “Odisséia” homérica (disponibilizada - ainda inconclusa - neste site, isto é, no “Recanto das Letras”), no sentido – a quem interessar possa – do leitor apreciar o jogo de efeitos intertextuais da arcaica poética de Homero na moderna poética de James Joyce. Vale, ainda, ressaltar que os três primeiros episódios de “Ulisses”, comumente nomeados de “Telemaquia joyceana”, correspondem, em se tratando de intertextualidade, aos quatro primeiros Cantos da “Odisséia” homérica, comumente conhecida como “Telemaquia”.


PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
   verão de 2005

SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 27/12/2005
Reeditado em 05/01/2006
Código do texto: T91031

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS