Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

'ULISSES", DE JAMES JOYCE (continuação da tentativa de resumo: episódios 8, 9 e 10 - Parte II)

                “ULISSES”, DE JAMES JOYCE


                (RESUMO/Episódios: 8, 9 e 10)


                      Autoria de: Prof. Dr. Sílvio Medeiros



                EPISÓDIO 8  (LESTRYGONIANS)
 
         
     Leopold Bloom deixa a redação do jornal e parte rumo ao centro da cidade de Dublin. É hora do almoço. O intróito do presente episódio é um prenúncio das imagens canibalescas que povoarão todo este capítulo do romance:

“ROCHEDO com abacaxi, limão cristalizado, amanteigado escocês. Uma garota açucarbesuntada padejando conchadas de creme para um irmão leigo.” (“Pineapple rock, lemon platt, butter scotch. A sugarsticky girl shovelling scoopfuls of creams for a christian brother.”)

     Em seguida:
         
“Batatas e margarina, margarina e batatas ... Mas aí Shakespeare não tem rimas: verso branco. O escorrer da língua é que conta.”  (“Potatoes and marge, marge and potatoes ... But then Shakespeare has no rhymes: blank verse. The flow of the language it is.”)
         
     Shakespeare + batatas + Robson Crusoe + margarina + ... Bloom então exclama:

“_ Não há limites para o gosto... Um apetite de albatroz... Me dá uma tristeza comer torresmo...” (“No accounting for tastes... Appetite like an albatross... My heart’s broke eating dripping...”)
       
     Hora do almoço, portanto. Aos olhos de Bloom, a famélica Dublin promove um festival gastronômico sacrifical. Toda cidade parece banquetear-se num feroz festival gastronômico de caráter canibalesco:

“Esta é realmente a péssima hora do dia. Vitalidade. baça, lúgubre: odeio esta hora. Sinto como se tivesse engolido e vomitado. (...)  Ver os animais comer.
Homens, homens, homens ... Cheiros de homens. O nojo lhe subia. (...)
Aquele sujeito empurrando dentro uma garfada de repolho como se sua vida dependesse disso. Bom golpe. Arrepia-me só de ver.”(...) Fora. Odeio gente porca comendo.” (pp.126-130)

(“This is the very worst hour of the day. Vitality. Dull, gloomy: hate this hour. Feel as if I had been eaten and spewed. (...) See the animals feed.
Men, men, men... Smells of men. Spaton sawdust, suweetish warmish cigarettesmoke, reek of plug, spilt beer, men’s beery piss, the stale of ferment.
That fellow ramming a kifeful of cabbage down as if his life dependend on it. Good stroke. Give me the fidgets to look. (...) Out.I hate dirty eaters.”) (pp.135-139)

     Alucinações antropofágicas inundam a mente de Bloom, misturando-se a uma sucessão de pavorosas imagens de recém-nascidos banhados em sangue. Além disso, o corpo recém sepultado do amigo Dignam adquire novas formas mediante as visões de Bloom. “A carne em conserva de Dignam. Os canibais o fariam com limão e arroz. Missionário branco muito salgado. Como porco em salmora...” (“Dignam’s potted meat. Cannibals would with lemon and rice. White missionary too salty. Like pickled pork...”).
     As imagens de uma pessoa conhecida - preste a dar à luz - invadem a mente de Bloom. Trata-se de Mina Purefoy. Mina Purefoy com a barriga inchada, num leito, ganindo, para ter um filho arrancado de dentro dela.
     Leopoldo Bloom - sentindo-se cada vez mais enojado com a variedade de comida oferecida por toda a área central da cidade de Dublin - decide comer, apenas, um sanduíche (pão com mostarda). Além disso, bebe, somente, vinho. Em seguida, Bloom auxilia um cego a atravessar a rua e, depois, parte rumo à Maternidade, a fim de render uma visita à parturiente, isto é, a sra. Mina Purefoy.
     Contudo, antes da Maternidade, Bloom segue em direção à Biblioteca Pública, local onde Stephen Dedalus, naquele exato momento, expõe as próprias considerações sobre a obra de Shakespeare, com base em Platão e Aristóteles.
     Passa das 2h da tarde. O episódio encerra-se com temas recorrentes.

“... Agendath Netaim... Calças. Carteira. Batata... Sua mão procurando pelo onde foi que eu pus achou no bolso de trás um sabonete a loção tinha de ir buscar com tépido papel aderido. Ah , aí o sabonete! Sim. Portão.
Salvação.”(p.140)

(“ ... Agendath Netaim ... Trousers. Potato. Purse... His hand looking for the where did I put found i his pocker soap lotion have to call tepid paper stuck. Ah soap there I yes. Gate.
Safe!”) (p.150)


           
           EPISÓDIO 9   (SCYLLA AND CHARYBDIS)

       
     Goethe, Milton, Blake, Mallarmé, Homero, Aristóteles... um autêntico panteão de renomados poetas, literatos, filósofos ou uma desatinada profusão de nomes e temas consagrados da literatura da cultura ocidental eclode, de forma simultânea, no pensamento de cada indivíduo que se encontra, naquele momento, na Biblioteca Pública de Dublin.
     O “Hamlet” de Shakespeare e a tese de Stephen Bloom de que o neto de Hamlet é o avó de Shakespeare: este é o tema central debatido no local. No entanto, dois representantes da filosofia ocidental marcam presença nos diálogos do grupo, com bastante freqüência. Trata-se de dois importantes filósofos da Antigüidade clássico-grega, isto é, Platão e Aristóteles. Num determinado momento, Stephen Dedalus põe a si mesmo a seguinte questão:  “_ Qual dos dois _ perguntava Stephen _ me baniria de sua república?” ( “Which of the two, Stephen asked, would have banished me from his commonwealth?”).
     Com veemência, outras vozes manifestavam-se: “Nossa épica nacional ainda está por ser escrita, diz o Dr. Sigerson (...) James Stephens está fazendo alguns esboços inteligentes.”(“Our national epic has yet to be writen, Dr Sigerson says. (...) James Stephen is doing some clever sketches.”).
     Entretanto, num dado momento, os temas literários tendem a misturar-se com temas religiosos, até que o grupo de estudantes avista um novo personagem-visitante a circular pela Biblioteca:

“_ Um judeu! _ exclamou Buck Mulligan. (...)
 _ Qual é o nome? Ikey Moses? Bloom. (...)
 _ Jeová, colector de prepúcios, não é.”

(“_ The sheeny! buck Mulligan cried. (...)
_ What’s his name? Ikey Moses? Bloom. (...)
_ Jehovah, collector of prepuces, is no more.” )

     A presença de Leopold Bloom, na Biblioteca, foi bastante observada pelo grupo, exceto por Stephen Dedalus que, naquele momento, dissertava sobre Górgias e fatos sobre a guerra de Tróia.
     As discussões sobre Shakespeare e obra desdobram-se, culminando com a exclamação indômita de John Eglinton: “Depois de Deus, Shakespeare foi quem mais criou.” (“After God Shakespeare has created most”).
     Por fim, o presente episódio encerra-se com os seguintes versos:

“Louvemos nós os deuses
 E subam às suas narinas os fumos espiralados
 De altares nossos abençoados.”

(“Laud we the gods
And let our crooked smokes clim to their nostrils
From our bless’d altars”)



              EPISÓDIO 10  (WANDERING ROCKS)


     O presente episódio tem início procurando acentuar as perambulações do reverendo Conmee - conjuntamente ao fluxo de consciência do reverendo - pelas ruas de Dublin. Progressivamente outros personagens começam a surgir em cena, inclusive um bando de turistas italianos que também deambulavam pelos recantos da cidade. As múltiplas vozes de Dublin começam, então, a se confundir.
     Na Biblioteca, um livro sobre a mesa. A bibliotecária Miss Dunne, tamborilando no teclado, imprime: “Dezasseis de Junho de mil novecentos e quatro.” (“16 June 1904”).
     Leopold Bloom está em busca de um livro solicitado por sua infiel mulher Molly Bloom. Alguns transeuntes, avistando Bloom, assim comentam:

“_ Leopoldo ou o Bloom está no palheiro _ disse Lenehan.
 _ É louco varrido por liquidações _ disse M’Coy. _ Eu estava com ele certo dia e ele comprou um livro de um velho da rua Liffey por dois xelins.”

(“ _Leopoldo or the Bloom is on the Rye, Lenehan said.
 _ He’s dead nuts on sales, M’Coy said. I was with him one day and the bought book from an old one in Liffey street for two bob.”)

     Outros transeuntes ainda comentam:

“_ Ele é um sujeito de cultura geral muito boa, o Bloom _ disse ele com seriedade. _ Não é um sujeito qualquer, você sabe... Há um quê de artista  nesse velho Bloom.”

(“_ He’s a cultured allroundman, Bloom is, he said seriously. He’s not one of your common or garden... you know... There’s a touch of the artist about old Bloom.”)

     Por fim, Bloom adquire um livro:

“O senhor Bloom atentava.
 Dominando sua respiração perturbada, ele disse:
 _ Levo este.
 O lojista levantou os olhos nublados de velhas remelas.
 _ Doçuras do Pecado _ disse ele, tamborilando-lhe em cima. _ Isto é bom.”(p.179)

(“Mr Bloom beheld it.
Mastering his troubled breath, he said:
_ I’ll take this one.
The shopman lifted eyes bleared with old rheum.
_ ‘Sweets of Sin’, he said, tapping on it. That’s a good one.”)   (p.194)
     
     O livro, como o título sugere, continha teor pornográfico. Enquanto Bloom permanecia na Livraria “tosses catarrentas abalavam a atmosfera da loja de livros, bombeando para fora a cortina encardida” (“Phlegmy coughs shook the air of the bookshop, bulging out the dingy curtains”).
     Stephen Dedalus, neste momento, também perambulava pelas ruas de Dublin, manipulando e adquirindo antigos livros.
      De outra parte, reverendos e outros tipos sociais da cidade colidiam-se pelas ruas centrais de Dublin, numa alucinada sucessão de encontros puramente mecânicos.


                     BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. “Ulysses”. New York : Vintage Books, 1986.




                PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
                     verão de 2006




SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 05/01/2006
Código do texto: T94648

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
267 textos (351799 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 20:22)
SÍLVIO MEDEIROS