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"ODISSÉIA", DE HOMERO (continuação da tentativa de resumo: Cantos XIII a XVII)

                  “ODISSÉIA”, DE HOMERO



        (RESUMO: Cantos XIII, XIV, XV, XVI e XVII)
                                                                       

                                                 
                         Autoria: PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS



                      CANTO XIII


     Toda corte dos Feácios ficou maravilhada com a narrativa de Odisseu. O rei Alcínoo ofereceu vários presentes ao herói grego, prometendo, logo em seguida, que o levaria de volta a Ítaca. Odisseu agradece e se despede de toda corte. Antes da partida, Odisseu endereça um agradecimento especial à rainha Arete, mulher do rei Alcínoo.
     Odisseu - junto a um arauto e de alguns Feácios - chega à nau e finalmente embarca, deixando ao longe a ilha dos Feácios.
     Aos poucos, um sono delicioso se apossa de Odisseu... Então, quando o sol já era nascente, a nau se aproxima da ilha de Ítaca! Os Feácios retiram Odisseu da nau, deixando-o próximo a um bosque de ninfas existente no porto de Ítaca.
     O deus Posido - que a terra sacode -, furioso, procurou vingar-se dos Feácios, que haviam auxiliado Odisseu em seu retorno a Ítaca. Quando a poderosa nau - que transportara o herói grego de regresso a Ítaca - já se encontrava próxima das praias da ilha dos Feácios, Posido transformou-a numa imensa rocha.
     Enquanto isso, em Ítaca, Odisseu despertou de um reconfortante sono, contudo, não reconheceu a terra natal. A princípio, o herói amaldiçoou os Feácios, pois supôs tratar-se de mais uma armadilha. Depois, amparado pela deusa Palas Atena, veio a reconhecer Ítaca. A deusa, fazendo uso de um disfarce, apresenta-se a Odisseu. O ardiloso herói roga, desse modo, ao desconhecido:

“_ Ami, puisqu’en ces lieux, c’est toi que , le premier, je rencontre, salut! Accueille-moi sans haine! et sauve-moi ces biens... et me sauve  moi-même! Comme un dieu, je t’implore et suis à tes genoux. Dis-moi tout net encor; j’ai besoin de savoir: quel est donc ce pays? et quel en est le peuple? et quelle en est la race ? ...” (p.154)

“_Caro, por seres da terra a primeira pessoa que encontro,
eu te saúdo. Oxalá não me venhas com ânimo adverso,
mas salva-me estas riquezas e a mim juntamente. Aproximo-me
súplice e abraço-te os joelhos, tal como a um dos deuses faria.
Para que o saiba, responde-me certo ao que vou perguntar-te:
Qual é esta terra? este povo? que espécie de gente aqui mora?...” (p.230)

     Irreconhecível, em virtude de seus disfarces, a deusa Atena pergunta, então, a Odisseu qual era seu país de origem. O astucioso Odisseu inventa uma longa e ardilosa história para a deusa, apresentando-se como um cretense. Diante de todas aquelas mentiras, a deusa, em resposta, replica:

“_ Quel fourbe, quel larron, quand ce serait un dieu, pourrait te surpasser en ruses de toute genre!... Pauvre éternel brodeur! n’avoir faim que de ruses!... Tu rentres au pays et ne penses encore qu’aux contes de brigands, aux mensonges chers à ton coeur depuis l’enfance... Trêve de ces histoires!”  (p.156)

“_ Simulador sem defeitos seria quem te superasse
em qualquer sorte de astúcia, ainda mesmo que fosse um dos deuses.
Ó astucioso e matreiro incansável, nem mesmo na pátria
resolverás pôr à margem, de vez, esta sorte de embustes
e de artimanhas falazes, que tanto condizem com tua alma?
Bem; mas deixemos de lado essas coisas, porque ambos na astúcia
somos peritos...” (p.232)

     Assim, uma vez reveladas ambas as identidades, Odisseu pergunta à deusa se realmente aquele local era o seu torrão natal, isto é, Ítaca. Diante de tanta insistência, Atenas, a deusa de olhos glaucos, passa, então, a apontar para alguns pontos da paisagem do lugar: o porto de Fórcis; o Monte Nérito; a sombria e amável gruta das ninfas – também conhecidas por Náiades -, além d’outros detalhes. Finalmente a deusa dissipa o forte nevoeiro que recobria quase toda a paisagem, e Ítaca ressurgiu inteira aos olhos do herói grego.
     A deusa se dirige a Odisseu e, com palavras aladas, procura expor, de forma sucinta, tudo aquilo que o herói vivenciaria a partir daquele momento, para que um dia, finalmente, ali, em Ítaca, ele pudesse viver em paz. A deusa Palas Atena pede ânimo ao herói; diz, também, a ele, que já antevê o massacre dos pretendentes de Penélope. Contudo, de imediato, solicita a Odisseu que busque abrigo na cabana do divino porqueiro Eumeu (1). Depois de tudo combinado, a deusa Palas Atena parte rumo a Lacedemônia, onde Telêmaco, o filho do herói Odisseu, se encontrava.


         
                       CANTO XIV

     Odisseu chega à cabana do divino porqueiro Eumeu. Os cães do porqueiro correm, aos uivos, em perseguição a Odisseu, disfarçado de ancião, além de mendigo - consoante o combinado junto à deusa Atena. Eumeu espanta os cães que se encontravam próximos – sobretudo em defesa do porqueiro -, bem recepcionando, em seguida, o estrangeiro, que, na verdade, era o próprio patrão, irreconhecível devido ao disfarce.
     Odisseu, visando logo ganhar a simpatia do porqueiro Eumeu, diz, ardilosamente, que estrangeiros e mendigos são enviados de Zeus. Eumeu convida, então, o faminto Odisseu a entrar na cabana. Em seguida, Odisseu, junto a Eumeu, alimenta-se na cabana do divino porqueiro.
     Eumeu passa a se recordar do patrão – Odisseu – junto ao recém-chegado hóspede, demonstrando incredulidade quanto a um possível retorno do herói a Ítaca. O mendigo-ancião insiste que o herói voltará. Eumeu pede, então, que o mendigo narre a sua própria história. O ardiloso Odisseu começa, então, a contar a sua história para o divino porqueiro. Na verdade, o astuto Odisseu inventa uma história, dizendo, ao seu fiel porqueiro Eumeu, ter nascido na vastíssima Creta. E prossegue, narrando uma série de infortúnios por ele enfrentada. Por isso abandonou Creta e foi para o Egito. Porém, quando se encontrava no Egito, um forasteiro fenício o logrou com astúcia, convencendo-o a levá-lo para a Líbia. Durante a viagem, a embarcação naufragou, aportando na terra dos homens Tesprotos, onde reinava Fidão valoroso. Fidão informou ao ancião que, ali, Odisseu acumulava imensa fortuna e que, justamente naquele exato momento, Odisseu havia partido para Dodona, a fim de consultar o oráculo de Zeus, deus do Olimpo, sobre a maneira melhor para Ítaca retornar.
     Entretanto, o astuto porqueiro não acredita na história narrada pelo ancião; passa, então, a lamentar a ausência do patrão Odisseu e se refere, entristecido, quanto aos infindáveis infortúnios reservados tanto a Penélope quanto ao filho do herói, Telêmaco.
     Em seguida, o prudente ancião recrimina o porqueiro Eumeu por não acreditar no retorno de Odisseu... depois, ambos fizeram uma refeição.
     Os céus reservavam uma terrível tempestade, pronta a desabar. Logo a seguir, passou a chover fortemente, e um terrível frio enviado pelo vento Bóreas invadiu a choupana.
     A essa altura dos acontecimentos, o ancião - sempre garantindo falar somente a verdade -, aproveitando-se da ocasião propícia, volta a narrar, dizendo como vivenciou, na condição de guerreiro, a sua participação na Guerra de Tróia, além do contato que lá fizera com Odisseu. O manhoso Odisseu, ou melhor, o “ancião-mendigo” conta a Eumeu que, durante a guerra, o astucioso Odisseu oferecera-lhe mantos para que se protegesse do frio.
     Finda a narrativa, o porqueiro Eumeu agradeceu ao ancião pela narrativa da bela história, oferecendo, em seguida, ao hóspede, mantos, no intuito de proteger o “ancião” do frio que invadira, há pouco, a choupana. Ambos então caíram em sono profundo. Eumeu deixou a humilde cabana, indo deitar-se, segundo o hábito, junto aos porcos, debaixo de uma côncova pedra, ao abrigo do vento Bóreas.



                       CANTO XV

     Telêmaco ainda se encontra em Esparta (2), junto ao claro filho do herói Nestor, Pisístrato, no átrio da bela e luxuosa casa do rei Menelau glorioso – o louro Átrida.
     Durante a visita que fizera a Esparta, além dos conselhos que recebera tanto de Menelau quanto de Helena, Telêmaco recebera, também, do divino casal, valiosos presentes. Porém, antes da partida do ajuizado jovem Telêmaco (antecipada e tramada pela deusa Palas Atena) da cidade espartana, Helena teve um presságio: avistou uma águia, levando consigo um ganso capturado e indefeso. Helena decifrou o presságio a Telêmaco, isto é, confirmou o retorno de Odisseu a Ítaca, seguido da matança, pelo herói grego, de todos os pretendentes do reino de Ítaca.
     Telêmaco embarcou em sua nau... No entanto, surge um contratempo: um estrangeiro de nome Teoclímeno se aproxima da nau, narrando a Telêmaco a sua infeliz história como fugitivo da própria pátria, por ter assassinado um outro homem. Após ter ouvido a história do divo Teoclímeno, Telêmaco o convida a sentar-se junto de si no bojo da nau.
     Enquanto isso, na cabana do porqueiro, o solerte Odisseu desejava comprovar, ou melhor, desafiar a confiança depositada pelo divino porqueiro no divo Odisseu e familiares. Apresentando como pretexto o desejo de ir até a cidade, o “mendigo-ancião” conseguira, ardilosamente, atingir o seu objetivo: ouvir a história do divino porqueiro Eumeu.
     Assim, Eumeu passa a narrar ao falso ancião todo o carinho que havia recebido de Anticléia - mãe de Odisseu -, da infância até a adolescência. Porém, numa determinada ocasião, vivendo no palácio de Laertes - na qualidade de escravo privilegiado -, abruptamente, seu destino sofreu uma profunda mudança, pois fôra determinado, pelos patrões, a deixar o palácio de Ítaca, para trabalhar no campo. Nesse momento, Odisseu solicitou ao porqueiro maiores detalhes sobre aquela história. Eumeu passou, então, a narrar uma longa história: nascido na Síria, na cidade de Sidão – rica em bronze-, era filho de Aribante, mulher possuidora de incalculáveis fortunas, porém infiel ao marido junto aos astutos homens fenícios. Devido às sucessivas desventuras da mãe, Eumeu foi encontrado abandonado nas praias de Ítaca, e recolhido no palácio de Laertes, na condição de escravo.
     Enquanto ambos dialogavam, com o auxílio da deusa Atena, Telêmaco regressa a Ítaca, dirigindo-se - no intuito de se esquivar dos ataques dos pretendentes e da emboscada mortal que lhe prepararam - diretamente para a cabana do divino porqueiro Eumeu, conforme aconselhara a deusa Palas Atena. Telêmaco não tardou em chegar ao estábulo onde se encontravam o pai - disfarçado de ancião - e o divino porqueiro.



                       CANTO XVI


     Telêmaco é recepcionado com grande alegria pelos cães do porqueiro Eumeu, que logo o reconheceram, pois não ladraram um só instante.  O porqueiro Eumeu, avistando Telêmaco, corre a abraçá-lo, com carinho, cheio de afeto para com o amo, saudando-o, tal como um amoroso pai, com doces palavras: “_Te voilà, Télémaque, ô ma douce lumière!” (“_ Luz de meus olhos, voltaste, Telêmaco?”).
     O ajuizado Telêmaco, uma vez acomodado na cabana, pergunta, então, a Eumeu, quem era, afinal, aquele ancião estrangeiro que se encontrava em sua companhia. Eumeu em resposta diz, referindo-se ao “ancião”, tratar-se de um infeliz cretense. Telêmaco, indignado, não se conforma com a presença do “mendigo-ancião” na cabana, e passa a repreender o porqueiro por ter permitido a permanência daquele desconhecido no local.
     Imediatamente, o solerte “ancião” tece, então, um louvor ao herói Odisseu. Após ouvir o elogio dirigido ao pai desaparecido, o prudente Telêmaco replica, narrando ao “ancião” os tristes acontecimentos que têm como palco o seu reino, atingindo diretamente a ele e à própria mãe - a fiel Penélope.
     Telêmaco pede (temendo as represálias preparadas pelos pretendentes), então, para que o fiel Eumeu se dirigisse até o palácio de Penélope, a fim de comunicar à mãe (que aflita aguardava o retorno do filho!, pois tudo sabia das piores intenções dos usurpadores do reino de Ítaca em relação ao filho) quanto a sua chegada - a salvo das emboscadas dos pretendentes - à ilha de Ítaca.
     Repentinamente, surge a deusa Atena e diz a Odisseu que chegara a hora de revelar toda a verdade ao filho Telêmaco. A deusa promove uma metamorfose no herói, destituindo-o, dessa maneira, da aparência de ancião e de mendigo e, ao mesmo tempo, restituindo-lhe a antiga aparência de autêntico guerreiro.
     Telêmaco, ainda surpreso com a repentina mudança, pergunta a Odisseu se ele era um deus. Odisseu responde que era seu pai. Telêmaco nega-se a acreditar. Então Odisseu diz ao amado filho:

“Je ne suis pas un dieu! pourquoi me comparer à l’un des Immortels? ... crois-moi: je suis ton père, celui qui t’a coûte tant de pleurs et d’angoisses et pour qui tu subis les assauts de ces gens!” (...) il est facile aux dieux, maîtres des champs du ciel, de couvrir un mortel ou d’éclat ou d’opprobre! ” (pp.8-9-10)

“_ Nenhum dos deuses eu sou; por que a um deus imortal me comparas?
Sou, sim, teu pai, por quem hás suspirado, saudoso, já tanto
e tantas dores sofrido, agüentando a violência de estranhos (...)
[ante as dúvidas que Telêmaco lança contra a verdadeira identidade do ‘ancião’, Odisseu retruca:](...)
Sou, sim, eu mesmo, que após sofrimentos e viagens inúmeras,
vinte anos já decorridos, ao solo da pátria retorno.
Essas mudanças, que vês, são trabalhos de Atena guerreira (...)
É muito fácil aos deuses, que moram no Olimpo muito amplo,
os homens todos mortais exaltar, ou disformes deixá-los.” (p.277)

     Uma vez proferidas tais palavras, em prantos, pai e filho se abraçam.
     Telêmaco diz, então, ao pai, que os pretendentes ao trono de Ítaca são numerosos, citando alguns nomes. Odisseu pede a Telêmaco que acredite nos deuses.
     Assim, a matança dos pretendentes começa a ser tramada.
     A primeira providência de ordem tática de Odisseu endereçada ao filho é que Telêmaco zele pelas armas do deus Ares (deus das guerras, das armas) - escondidas no palácio de Ítaca. Adverte, também, Telêmaco, que ninguém pode saber de sua presença em Ítaca, nem mesmo aqueles que mais desejam o seu retorno, isto é, o estimado pai, Laertes, a fiel esposa, Penélope, e o divino porqueiro Eumeu.

“_ Si c’est bien de mon sang, de moi, que tu naquis, personne s’entendra parler de ma présence: que Laerte l ‘ignore [et le porcher aussi, et tous nos serviteurs,] et même Pénélope. A nous seuls, toi et moi, nous devrons éprouver la droiture des femmes et nous devrons aussi, parmi nos domestiques, chercher qui nous respecte et nous craint en son âme ou qui, sans plus d’égards, mèprisa ta détresse.”  (pp.13-14)

“_ Se és do meu sangue e meu filho te orgulhas de ser, em verdade,
não venha nunca ninguém a saber que Odisseu está em casa.
Que o não perceba Laertes, nem mesmo o divino porqueiro,
nem um qualquer dos criados da casa, nem mesmo Penélope.
Os sentimentos das servas somente nós dois sondaremos.
Sim, poderemos, também por à prova o sentir de alguns servos,
a fim de vermos qual nutre por nós amizade e respeito,
e os que de nós não se importam, mostrando por ti só desprezo.” (p.280)

     Enquanto isso, os insolentes pretendentes encontravam-se reunidos na Ágora, para deliberar sobre o destino do jovem Telêmaco. A astuciosa Penélope, sabendo de tal acontecimento, interpela o pretendente Antínoo - o mais audacioso dos pretendentes -, pedindo que cessasse de tramar tamanhas covardias contra seu filho; bastavam os infortúnios que desabavam sobre o palácio durante a longa ausência do marido.
     Por seu lado, Eurímaco - outro pretendente - dirigi um falso discurso à Penélope, prometendo colocar a salvo Telêmaco contra a insolência de todos os pretendentes.
     Por seu turno, o porqueiro Eumeu retorna à cabana, dizendo a Telêmaco que comunicara a mãe sobre o seu retorno.


       
                       CANTO XVII


     Telêmaco exprime a Eumeu o seu desejo de ir até a cidade, pois queria retornar ao palácio e permanecer junto à mãe; diz, também, ao divino porqueiro, para se desvencilhar do “mendigo”, pois a permanência desse tipo de indivíduo tem lugar na cidade, e não no campo. O “ancião” concorda prontamente com Telêmaco.
     Chegando ao palácio, Penélope, chorosa e carinhosamente, recepciona Telêmaco, dizendo: “_ Te voilà, Télémaque! ô ma douce lumière!...” (“_ Luz, doce luz, já voltaste, Telêmaco?”).
     Telêmaco pede à mãe que se recolha aos seus aposentos, pois não queria ser incomodado pelos seus gemidos, pois eles o colocavam em sobressalto, após tantos perigos vividos. Penélope concorda com o filho, confessando que, naquele momento, sentia-se bastante angustiada com tão longa ausência de Odisseu. Antes, contudo, Telêmaco relata à mãe, em detalhes, a viagem que fizera a Pilo e a Esparta. Não desejando nada ocultar da própria mãe, Telêmaco disse o que soubera, por intermédio da boca de Menelau, quanto ao relato do ancião do mar (Proteu), o qual afirmara que Odisseu se encontrava retido na ilha de Ogígia, junto à ninfa Calipso. De repente, aos dois, o divino deiforme Teoclímeno lança um vaticínio exato para Penélope, no que se refere ao paradeiro do marido há muito desaparecido. O deiforme Teoclímeno diz, então, à esposa inconsolável, que Odisseu já havia retornado a Ítaca.

“_ Digne épouse du fils de Laerte, d’Ulysse, tu vois que Ménélas ne savait pas grand chose; mais retiens mon avis; je prédis à coup sûr et ne te cache rien. Sache qu’en sa patrie, Ulysse est revenu, qu’il y siège, y circule et, connaissant déjà leurs vilaines besognes, prépare un vilain  sort à tous les prétendants... Voilà ce qu’est venu me révéler l’augure , ce que je révélai moi-même à Télémaque sur les bancs du vaisseau.” (pp.27-8)

“_ Ó digna esposa do herói Odisseu, de Laertes nascido!
Ele não sabe de tudo: ora presta atenção ao meu dito,
que profecia farei verdadeira, sem nada ocultar-te (...)
Digo que o herói já se encontra no solo da terra nativa,
nele sentado ou vagueando, o observar estes atos iníquos
e a cogitar no mais íntimo como vingar-se de todos (...)
esse augúrio
interpretei pelo vôo das aves, contando-o a Telêmaco.” (p.292)

     Nesse entremeio, o fiel porqueiro Eumeu torna-se - até a cidade - o guia do herói Odisseu. Ao chegarem em Ítaca, antes de entrarem no palácio, Odisseu (ainda disfarçado de mendigo) foi injuriado por Melântio, que se encontrava próximo do bosque das ninfas. Eumeu rogou vingança às ninfas contra Melântio.
     Após este episódio, Eumeu e Odisseu rumaram ao palácio. Lá chegando, ambos ouviram o aedo Fêmio a cantar. Um cão aproxima-se de Eumeu e de Odisseu: era Argos, o fiel cão do herói grego. Após longos vinte anos de ausência, deparando-se repentinamente com o dono, o fiel cão morre.
     Depois desse lamentável infortúnio, Odisseu e Eumeu entraram, finalmente, no palácio. Eumeu instrui Odisseu a mendigar junto a todos pretendentes; Palas Atena incita, também, o herói (ainda disfarçado) a mendigar. Na verdade, tratava-se de um valioso estratagema utilizado pela deusa, de olhos glaucos, permitindo, desse modo, que Odisseu viesse a conhecer o comportamento de cada um dos pretendentes.
     Antínoo foi o mais soberbo e o mais arrogante dentre os pretendentes, pois investiu com dura hostilidade contra a presença do “ancião” no palácio. Antínoo torna-se colérico diante de uma resposta insolente que ouve da parte do “mendigo-ancião”. Em contrapartida, o “mendigo” profetiza, então, a morte de Antínoo, fazendo uso das seguintes palavras: _ Antes do casamento, encontrarás a morte, Antínoo!
     Pressentindo algo, Penélope solicita a presença imediata do “mendigo” em seus aposentos. Mas é desaconselhada pelo porqueiro Eumeu a nutrir tal decisão, tendo em vista as maldosas opiniões alheias com relação a tal procedimento.
     Num determinado momento, Telêmaco dá um forte espirro. Penélope ri, profetizando o seguinte: o espirro é sinal dos deuses, e queira, talvez, significar que a morte atingirá a todos os meus pretendentes.


NOTAS

Apontamentos ou sugestões a visar reflexões em torno do que foi lido:
1. É interessante notarmos a sutileza empregada nos versos homéricos quanto às relações hierárquicas entre as classes sociais na Grécia arcaica, no que se refere, sobretudo, às aproximações entre indivíduos que ocupam posições totalmente díspares dentro do referido universo social. Trata-se, obviamente, de uma sociedade escravocrata, contudo, há em Homero uma preocupação em ressaltar as atitudes, muitas vezes plenas de amorosidade, que permeiam, paradoxalmente, as relações entre patrões e escravos. Dentre elas se destacam, por exemplo, a fidelidade – e a recíproca é verdadeira! – entre o escravo Eumeu e todo o clã de Odisseu. De outra parte, nos próximos Cantos da “Odisséia”, tal fato se evidenciará igualmente, ou até mesmo por meio de tintas mais fortes, no papel conferido à escrava-ama Euricléia, cuja participação na narrativa homérica é de fundamental importância rumo ao desfecho da narrativa homérica – a última personagem supera ou se iguala, em se tratando de importância no desenvolvimento da trama, a alguns dos protagonistas da “Odisséia”!
Em linhas gerais, parece palpitar, nas páginas da “Odisséia”, um certo “esforço” em promover os indivíduos pertencentes às classes sociais inferiores, arrancando-os, com isso, do anonimato da história.

2. Os versos homéricos, em vários trechos da “Telemaquia” (Cantos I a IV) e nos que aqui estudamos, parecem sugerir que o jovem Telêmaco, provindo do pobre reino de Ítaca, ao conhecer as riquezas existentes na cidade de Pilo e, sobretudo, encantado com o luxo da cidade de Esparta, vacila, isto é, tem-se a impressão que Telêmaco passa a adiar (teria o jovenzinho se apaixonado por Helena?! a mais bela mulher de toda Grécia!) o seu retorno a Ítaca; aliás, a exemplo do pai, o herói Odisseu, que por mais que lamentasse a ausência do lar em sua longa errância após a guerra de Tróia, não deixou de se enlevar pelos encantos de ninfas e de deusas: Calipso, Nausícaa, Circe... e desse modo, sempre adiava sua partida em busca da amada Ítaca.


BIBLIOGRAFIA

HOMÈRE. “L’Odyssée”. Texte établi et traduit par Victor Bérard.  Tomes I ( huiteme tirage ) , II ( neuvieme tirage) et III (huiteme tirage). Paris: Les Belles Lettres, 1972 - 1974 - 1987.

HOMERO. “Odisséia”. 2 ed. Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.


               PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
                    verão de 2006

SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 06/01/2006
Código do texto: T95097

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Sobre o autor
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