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"ULISSES", DE JAMES JOYCE (tentativa da continuação de resumo: episódios 14 e 15)

               “ULISSES”, DE JAMES JOYCE


   (RESUMO/ Episódios 14 e 15)


                       Autoria: Prof. Dr. Sílvio Medeiros



             EPISÓDIO 14 – OXEN OF THE SUN


“DESHIL Holles Eamus, Deshil Holles Eamus, Deshil Holles Eamus.
Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn, vivificamento e uterifruto.  Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn, vivificamento e uterifruto. Envia-nos, ó brilhante, ó iluminado, Hornhorn, vivificamento e uterifruto...”   (p.284)

(“Deshil Holles Eamus. Deshil Holles Eamus. Deshil Holles Eamus.
Send us bright one, light one, Horhorn, quickening and wombfruit. Send us bright one, light one, Horhorn, quickening amd wombfruit. Send us bright one, light one, Horhorn, quickening and wombfruit...”)     (p.314)

    Este episódio é inaugurado com a estranha invocação acima, a qual aparentemente deita raízes em elementos quiçá mitológicos. Em seguida, explode uma longa sucessão de temas, mais precisamente sobre a procriação, banhada por múltiplos elementos teológicos.
     O episódio também é portador de um extenso conjunto de paródias e de sátiras: “O Papa Pedro não é mais que um mijão. Um homem é um homem é um homem senão não.” (“_ Pope Peter’s but a pissabed. A man’s a man for a’that.”).
     Os fatos, do referido capítulo, têm lugar no hospital onde a sra. Mina Purefoy sofre as dores do parto. Elementos das mitologias celta, romana, hebraica, grega, da filosofia ocidental etc., todos se mesclam junto a passagens que trazem a lume dados sobre o controle de natalidade na Irlanda. “Mais ainda, não tivera o vasculhão da ajeitadeira sido seu anjo tutelar tudo teria sido para ela tão duro quando o fora para Agar, a egípcia!...” (“Nay, had  the  hussy’s scouringbrush not been her tutelary angel, it had gone with her as hard as with Hagar, the Egyptian!”); “O outro problema suscitado pelo mesmo inquiridor é apenasmente menos vital: a mortalidade infantil.” (“The other problem raised by the same inquirer is scarcely less vital: infant mortality.”)
     Em meio a ladainhas latinas, de cunho profano-religioso, o parto da sra. Purefoy torna-se cada vez mais sofrível e difícil. Por fim, o nascimento do vigoroso varãozinho da sra. Purefoy é anunciado pelo deus Thor. Assim, após um estrondoso trovão, nasce o nono pimpolho da sra. Purefoy.
     O episódio encerra-se mediante uma convocação: “_ Todos rumo à farra, ombro à frente, escoando rua abaixo.” (“All off for a buster, armstrong, hollering down street.”); seguido de temas recorrentes: “diacho, que droga disso daquilo é o gajo do impermeável?” (“Golly, whatten tunket’s yon guy in the mackintosh?”), além de uma notória constatação: “Tudo tá  fora dos eixos” (“Live axle drives are souped”).


                   EPISÓDIO 15 - CIRCE


“Outras formas pairavam ali. Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se.” (Dublinenses, pp.194,195)

         Recorremos aos momentos finais do conto “Os Mortos”, de James Joyce, pois, nesta passagem, à maneira de um historiador, a escritura do romancista parece trabalhar com a memória de todos, ou seja, com a memória dos vivos e dos mortos. É, portanto, com essa trajetória de interpenetração de camadas entre os vivos e os mortos (a exemplo daquilo que ocorre no conto que integra “Os Dublinenses”), além de sucessivas metamorfoses, que este episódio ganha força, progressivamente. Os acontecimentos têm como cenário a zona de meretrício da cidade de Dublin, mais especificamente, o bordel da Rua Mabbot, cuja proprietária é Bella Cohen. Leopold Bloom sente-se no dever de acompanhar o seu filho espiritual - Stephen Dedalus - até o prostíbulo. O episódio é constituído por um amplo conjunto de múltiplos diálogos e serve de ponto de partida para inúmeras metamorfoses. No prostíbulo, Stephen sofre ameaças físicas por parte dos freqüentadores, porém, Bloom, a exemplo de um pai, procura defendê-lo. Um volumoso conjunto de imagens alucinantes – por esta razão, constitui o capítulo mais longo do romance – ora transforma Leopold Bloom em prefeito da cidade de Dublin. Contudo, a impressão que se tem é que Bloom, aqui, é tornado o herói fundador de uma nova civilização. Num dado momento, Bloom cala o Impermeato: “_ Fuzilem-no! Cachorro de cristão! Chega de Impermeato! (Um canhonaço. O homem de impermeável desaparece (...)”; ( _ “Shoot him! Dog of a christian! So much for M’Intosh!”).
     Temas recorrentes preenchem todo o episódio, com grande intensidade: o sabonete; a batata; a jovem Gerty MacDowel; jornalismo; o cornudo de Dublin (Bloom); meias transparentes, ligas e lindas anáguas; o parto; Agendath Netaim; ninfas; as nove musas; dias alciónicos; Stephen e a mãe moribunda; o Impermeato; o rapazinho cego: “(Apertando a mão com um rapazinho cego) Meu mais que Irmão!” ( “(Shaking hands with a blind stripling). My more than Brother!”).
     Um longo catálogo de gerações apresenta a ascendência de Leopold Bloom: “Moisés gerou Noé e Noé gerou Eunuco (...) Virag gerou Bloom ...”; (“Moses begat Noah and Noah begat Eunuch (...) Viragt begat Bloom...”).
     Traçando e trançando vínculos progressivos entre elementos do mundo moderno e elementos inscritos nas tradições culturais em geral, este episódio apresenta novos e inúmeros sentidos tanto para o antigo quanto para o novo:

“Bloom explana aos mais perto seu projecto de regeneração social. Todos concordam com ele. O zelador do Museu da Rua Kildare aparece puxando um camião em que tremelicam estátuas de várias deusas nuas, Vénus Calipígia, Vénus Pandemos, Vénus Metempsicose, e figuras de gesso, também nuas, representando as nove musas, Comércio, Música Operática, Amor, Publicidade, Manufactura, Liberdade de Palavra, Voto Plural, Gastronomia, Higiene Privada, Recreações de Concerto à Beira-Mar, Obstétrica Indolor e Astronomia para o Público.” (p.351)

(“Bloom explains to those near him his shemes for social regeneration. All agree with him. The keeper of the Kildare street museum appears, dragging a lorry on wich are the shaking statues of several naked goddesses, Venus Callipyge, Venus Pandemos, Venus Metempsychosis, and plaster figures, also naked, representing the new nine muses, Commerce, Operatic Music, Amor, Publicity, Manufacture, Liberty of Speech, Plural Voting, Gastronomy, Private Hygiene, Seaside Concert Entertainments, Painless Obstetrics and astronomy for the People.”)  (p.400)

    Mulheres procuram humilhar homens, referindo-se aos últimos como se fossem porcos. Além disso, Leopold Bloom é, por fim, considerado o cornudo notório de Dublin:
 
“A HONORÁVEL SENHORA MERVYN TALBOYS: (Desabotoando as luvas violentamente) Não o farei. Porco de cão que sempre o foi desde cachorrinho! Ousar dirigir-se a mim! Vou flagelá-lo pelas ruas públicas até que fique negro de roxo. Vou enterrar minhas esporas nele rosetas adentro. É um cornudo notório. (Zurze sua chibata de caça selvagemente no ar). Tirem-lhe as calças sem perda de tempo. Venha para cá, cavalheiro!Rápido!Pronto?” (P.339)

(“THE HONOURABLE MRS MERVYN  TALBOYS: (unbuttoning her  gauntlet violently) I’ll do no such thing. Pigdog and always was ever since he was pupped! To dare address me! I’ll flog him  black and blue in the public streets. I’ll dig my spurs in him up to the rowel. He is a wellknown cuckold. (she swishes her humtingcrop savagely in the air) Take down his trousers without loss of time. Come here, sir! Quick! Ready!”)  (p.382)

     A honra de Leopold Bloom declina, progressivamente, dentre os personagens ali presentes. A isso, somam-se sucessivas metamorfoses, em escala gigantesca! E tudo acontece num só espaço. Bloom sente o desejo de ser mãe: o corpo de Bloom é o de uma mulher. Bloom-Messias: Bloom veste a túnica Inconsútil.

“CORNUSSOPRA: (De éfode e casquete-de-caça, anuncia) E ele deverá levar os pecados do povo para Azazel, o espírito que está no ermo, e para Lilith, a noctifúria. E eles o lapidarão e o conspurcarão, de feito, todos os de Agendath Netaim e de Mizriam, a terra de Ham.” (p355)

(“HORNBLOWER:  (in ephod and huntingcap, announces) And he shall carry the sins of  the people to Azazel, the spirit which is in the wilderness, and to Lilith, the nighthag. And they shall stone him and desfile him, yea, all from Agendath Netaim and from Mizraim, the land of Ham.”) (p.405)

    Surgem menções à Lilith, a primeira mulher de Adão, que o abandonou no Paraíso – figura de mulher inscrita nos evangelhos e na mitologia como a destruidora de bebês recém-nascidos.

“O GRAMOFONE:
Jerusalém!
Abre tuas portas e canta
Hosana...”

( “THE GRAMOPHONE :
Jerusalem!
Open your gates and sing
Hosanna...”)

     Os motivos bíblicos se multiplicam:

“ELIAS: Nada de parlapatices, se me fazem o favor, nesta tenda (...) Juntem-se logo e aqui! Reservas para a junção com a eternidade, viagem directa. Só  uma palavra mais. És um deus ou sois uns malditos ateus? Se o segundo advento chegar a Coney Island estaremos juntos? Florry Cristo, Stephen Cristo, Zoe Cristo, Bloom Cristo, Kitty Cristo, Lynch risto, depende de vocês sentir essa força cósmica. Temos tremedeira de medo dos cosmos? Não, fiquem do lado dos anjos.”  (p.361)

(“ELIJAH: No yapping, if you please, in this booth. (...) Join on right here. Book throught to eternity junction, the nonstop run. Just one word more. Are you a god or a doggone clod? If the second  advent  came to Coney Island are we ready? Florry Christ, Stephen Christ, Zoe Christ, Bloom Christ, Kitty Christ, Lynch Christ, it’s up to you to sense that cosmic force. Hve you cold feet about the cosmos? No. Be on the side of the angels.” )  (p.414)

     Neste episódio, o passado, o mítico, o religioso aparentam não ser  inacessíveis. Parece tratar-se de um tipo de apreensão do tempo passado; de um sentimento da sua distância em relação ao presente - não no seu aspecto inaugural, porque este está irremediavelmente perdido.
      E prosseguem novas metamorfoses: Bella Cohen é metamorfoseada em Bello. As metamorfoses alternam-se e sucedem-se... A mistura do bíblico, do cabalístico, do mitológico e de outros elementos transcendentes apresenta, neste episódio, uma escritura poética incomparavelmente bela! Potências poéticas seculares misturam-se de um modo metafórico para ressignificar uma vida arruinada e martirizada; para Leopold Bloom, a ausência e a imagem do filho morto - no encerramento do episódio:

“... Contra o muro escuro uma figura aparece lentamente, um menino louro de onze anos, um trocado, raptado, vestido à Eton com sapatos de cristal e pequeno elmo de bronze, sustendo um livro na mão. Lê da direita para a esquerda inaudivelmente, sorridentemente, beijando a página.)

BLOOM: (Maravilhado, chama inaudivelmente) Rudy!

RUDY: (Mira sem ver nos olhos de Bloom e segue a ler, beijar, sorrir. Tem uma delicada cara malva. No traje traz os botões de diamantes e rubis. Na mão esquerda livre sustém uma fina bengala de marfim com um laço violeta. Um anhozinho branco espia do bolso do seu colete.” (p.419)

(“ (...Against the dark wall a figure appears slowly, a fairy boy of eleven, a changeling, kidnapped, dressed in an Eton suit with glass shoes and a little bronze helmet , holding a book in his hand. He reads from right to left inaudibly, smiling, kissing the page.)

BLOOM : (wondertruck, calls inaudibly) Rudy!

RUDY : ( gazes, unseeing, into Bloom’s eyes and goes on reading, kissing, smiling. He has a delicate mauve face. On his suit he has diamond and ruby buttons. In his free left hand he holds a slim ivory cane with a violet bowknot. A white lambkin peeps out of his waistcoat pocket.”)   (p.497)



                   BIBLIOGRAFIA

JOYCE, James. “Dublinenses”. 4 ed. Tradução Hamilton Trevisan. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.

_____. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

_____. “Ulysses”. New York : Vintage Books, 1986.


              PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
                   verão de 2006





SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 10/01/2006
Código do texto: T96637

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Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
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SÍLVIO MEDEIROS