Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

DIÁLOGOS COM O "ULISSES" JOYCEANO

            DIÁLOGOS COM O “ULISSES” JOYCEANO


     No belo ensaio “Uma visão de Ulisses”, cuja autoria é do consagrado  romancista italiano Italo Svevo [1861-1928], além de descrever alguns aspectos do porte físico do amigo James Joyce (magro, esbelto, alto; quase um esportista, não fosse a negligência dos seus gestos), Svevo nota, também, que “êle tem um ouvido de poeta e de músico. Sei que quando Joyce escreve uma página êle pensa ter traçado uma paralela a uma de suas páginas de música preferidas” (Svevo: 1974).
     Contra o canto das sereias, Ulisses (ou Odisseu), o herói da epopéia homérica, deixou-se amarrar ao mastro principal de sua nau. Assim, Ulisses escuta o canto, mas resiste a ele. A canção das sereias é ameaçadora, porque representa a ameaça do esquecimento. Ulisses, atado ao mastro da nau, é o primeiro mortal que ouve o canto das sereias, e escapa vivo! Este é o preço que o sujeito racional deve pagar para permanecer vivo: trata-se do argumento central dos estudos filosóficos de Theodor Adorno e Max Horkheimer; ambos fazem usam do referido episódio da “Odisséia”, de Homero - e não a Filosofia! - para reforçar a “Dialética do Esclarecimento” (1).
     De outra parte, é essencial entendermos o fato de que James Joyce sempre esteve voltado ao culto da música, haja vista seus escritos tenderem para a técnica musical, procurando imitar, dessa maneira, por meios verbais, a forma musical na literatura. Do ponto de vista de Nestrovski,

“A música, para Adorno como para Joyce, é o modelo central da percepção estética, porque implica imediatez, na mesma medida de uma apropriação do tempo, mas resiste ao tempo também; isto é, o transforma em espaço na reflexão analítica, em toda escuta que passa além da mera espontaneidade.” (Nestrovski 1992, p.296).

      Todavia, se Adorno aponta para a falência do pensamento conceitual, recorrendo à música para mapear a crise da razão no capitalismo ocidental, com a finalidade de encontrar na música de vanguarda elementos para uma nova racionalidade; em contrapartida, Joyce reproduz em sua escrita sinfônica  a “queda” da  própria escrita.  Adorno reivindica um novo tipo de filosofia, ou melhor, a escrita atonal na filosofia. Joyce reivindica um novo tipo de escrita para a literatura: a composição poético-musical.


QUE TIPO DE POÉTICA É, AFINAL, “ULISSES”?

     Talvez uma ambição técnica em querer encerrar as várias obras clássicas (encampado, sobretudo Homero) e estilos de diferentes épocas num único romance? É possível que aí resida uma tentativa assustadora e sobre-humana de síntese; ou a desejo da escritura-épico joyceana pretende explorar os conflitos entre a condição de pai (Leopold Bloom), de mãe (Molly Bloom) e de filho (Stephen Dedalus), ambicionando revelar os segredos e os enigmas da psicologia do homem moderno? Ou ainda descrever a história do mundo, em especial a conflitante história da Irlanda e dos dublinenses? Ou até mesmo simplesmente registrar, por mero capricho, epifanias - do fluxo da consciência - condenadas à cotidianidade do mundo moderno? Ou, para ficarmos com uma das sutis ponderações de Edmundo Wilson (1991): “Em ‘Ulysses’, ouvimos as personagens muito mais claramente do que as vemos: Joyce no-las descreve em frases esparsas, meticulosas, um traço aqui, outro acolá. Mas a Dublin de ‘Ulysses’ é um cidade de vozes...”.  Assim, teria Joyce pretendido compor uma sinfonia das vozes de Dublin, fazendo uso da literatura?
     Poderíamos continuar elencando as várias opiniões que giram em torno do significado enigmático da obra de James Joyce, desde o seu surgimento, numa seqüência interminável. Responderíamos afirmativamente a todas elas, porque, devido a este mesmo caráter enigmático do romance, qualquer tentativa em se deter numa resposta, tomando-a como solução, seria uma atitude extremamente paradoxal. Nesse caso, pensamos que o mais importante é tomar o texto joyceano no seu conjunto e nos determos num primeiro aspecto: no jogo intertextual que a obra apresenta, na medida que o texto é pleno de alusões de diversas ordens, ecos, símbolos, metáforas, temas, motivos, etc. Isto dará margem a que nos detenhamos, em segundo lugar (e o mais importante!), na característica da poética joyceana, pois a singularidade dessa poética tende a formar um caleidoscópio luminoso no qual nada no texto é insignificante ou contingente. Dessa forma, o texto adquire foro de poema rumo a um longo processo de exegese, oferecendo à obra, conseqüentemente, o caráter e a condição de obra aberta (plena de significações), bem ao gosto de Umberto Eco quando diz que:

“... o leitor do texto sabe que cada frase, cada figura se abre para uma multiformidade de significados que ele deverá descobrir; inclusive, conforme seu estado de ânimo, ele escolherá a chave de leitura que julgar exemplar, e usará a obra na significação desejada.” (Eco 1991, p.43)

     Eco prossegue afirmando que a obra de Joyce é o exemplo máximo de “Obra Aberta”. Nesse sentido, gostaríamos de finalizar, nossa breve reflexão, apresentando outra citação do literato italiano, tomada de empréstimo de Edmundo Wilson; embora longa, ela é altamente elucidativa para a problemática até aqui discutida.

“O mundo de ‘Ulisses’ é animado por uma vida complexa e inexaurível: revisitamo-lo tal como faríamos com uma cidade, à qual voltamos mais vezes para reconhecer os rostos, compreender as personalidades, estabelecer relações e correntes de interesses. Joyce desenvolveu considerável mestria técnica para apresentar-nos os elementos de sua história numa ordem tal que nos torne capazes de encontrar sozinhos os nossos caminhos: duvido bastante que uma memória humana consiga satisfazer todas as exigências de ‘Ulisses’, na primeira leitura. E, quando voltamos a lê-lo, podemos começar de um ponto qualquer, como se nos defrontássemos com algo de sólido, como uma cidade que existe realmente no espaço e na qual se pode entrar por onde quer que se queira - aliás, o próprio Joyce declarou, ao compor o livro, ter trabalhado simultaneamente em várias de suas partes.” (Apud Eco 1991, p.48).



                         NOTA

1.Cf. ADORNO, T, HOKHEIMER, M.. “Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos”. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, pp.19-80.


                      BIBLIOGRAFIA

ADORNO, T., HORKHEIMER, M. “Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos”. 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

ECO, Umberto. “Obra Aberta: forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas”. 8 ed. São Paulo: Perspectiva, 1991.

JOYCE, James. “Ulisses”. 8 ed. Tradução de Antônio Houaiss. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1993.

NESTROVSKI, Arthur et al. “riverrun: ensaios sobre James Joyce”. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

POUND, Ezra et al. “Joyce e o estudo dos romances modernos”. São Paulo: Editora Mayo, 1974.



           PROF. DR. SÍLVIO MEDEIROS
                verão de 2006

SÍLVIO MEDEIROS
Enviado por SÍLVIO MEDEIROS em 13/01/2006
Código do texto: T98150

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor (Prof. Dr. Sílvio Medeiros) e o link para o site www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
SÍLVIO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 61 anos
267 textos (351774 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 02/12/16 20:45)
SÍLVIO MEDEIROS