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TIROCÍNIO... POLICIAL!

TIROCÍNIO... POLICIAL!
Certa noite, Baracho, em companhia do soldado Onofre, seu colega e amigo, policiavam a esplanada, terminais de duas ferrovias: Central do Brasil e Leste, local de muito movimento de pessoas saindo de um trem e embarcando no outro, cumprindo os seus itinerários, com maior movimento dos que saía da Leste para embarcarem na Central, em razão do êxodo da época, quando os "nortistas" iam, em profusão, para São Paulo.
Muitas famílias, naquela época, viajavam comendo farofas e, às vezes, deixando parte dos seus pelas cidades onde passavam. Em determinado momento, Onofre pediu ao Baracho para prosseguir sozinho no policiamento enquanto ele "ia descansar um pouco na zona boêmia", distante dali. Foi atendido porque não parecia que naquela noite haveria problemas.
Tão logo o seu colega saiu, um comerciante chamou Baracho informando-o de que um estranho corpulento e mal encarado estava criando caso na sua venda com uma faca que apanhara no balcão do seu estabelecimento.
Chegando a venda, Baracho deparou com um homem forte, de meia idade, com uma "peixeira" na mão, sem, no entanto, tentar ferir ninguém.
Eram comuns naquela esplanada, os comerciantes acenderem fogueiras na porta onde se via a famosa "carne de dois pêlos" dependurada em varais, tendo os fregueses a liberdade de escolher seus pedaços, ir ao balcão, pegar uma medida de farinha de mandioca e assar a carne escolhida, previamente paga no balcão onde se viam várias facas para tal função.
O estranho não queria carne, apenas, furava o balcão com a faca sem dirigir-se a ninguém. Falando baixo com os presentes, Baracho pediu ajuda para desarmar aquela pessoa, mas, como é e, sempre foi comum, ninguém quis arriscar-se. Observando que o homem era muito forte e que sem usar o seu revólver não conseguiria tomar-lhe a faca, Baracho optou pelo estratagema de distrair-lhe com conversa, assim, aproximou-se e lhe disse:
"Que linda e amolada faca! Você não quer deixá-la no balcão e tomar umas cachaças comigo? - Pagarei as despesas!"
Para surpresa geral, o estranho deixou a faca no balcão trocando-a por um copo que foi logo cheio pelo próprio Baracho, que também se serviu de uma dose menor para distraí-lo.
Tomada à bebida, o estranho praticamente enlaçou Baracho pelos ombros com seus braços parecendo tenazes e o convidou para irem para outra venda beberem mais.
Naquele momento, não restou a menor dúvida de que ele era um débil mental.
Procurando despistar e o levar, aos poucos, pra os lados onde ficava a cadeia, portanto, mais policiais, Baracho efetuou uma verdadeira "via sacra" pelos bares das redondezas, sempre diminuindo as doses e jogando a sua fora às escondidas, até que conseguiu conquistar a confiança do estranho, após mais de duas horas, passaram pelo centro da cidade e chegaram a "Praça da Samal" onde se divisava, ao fundo, a cadeia com suas janelas gradeadas e visíveis.
Tinha a certeza de que quando o estranho visse a cadeia, desconfiaria e reagiria, porém, seria seguro e gritos seriam dados alertando a guarda que viria em seu socorro.
Para sua maior surpresa, tão logo ele viu a cadeia gritou:
"Graças a Deus! É lá que eu vou dormir!” e partiu correndo para a cadeia batendo na porta principal, sendo acompanhado pelo Baracho.
Ficou recolhido sem ser maltratado e, no dia seguinte, foi recambiado para a cidade dele com a ajuda da prefeitura local.
*
Em companhia do mesmo Onofre, Baracho foi em diligência, na boléia de um caminhão, até a vila de Mamonas com ordem de trazer preso um homem que tinha matado outro, a machadadas, numa nascente de água.
Quando se aproximaram do vilarejo, vendo uma venda com quatro portas, só uma delas entreaberta, o caminhoneiro disse: "Aqui fico esperando vocês uma vez que, se entrar com a policia na vila, não conseguirei mais fretes".
Baracho e o colega desceram com os fuzis a tiracolo e entraram naquela venda, deparando com uma senhora grávida de uns oito meses ao lado do marido, do outro lado de um alto balcão. Tão logo entraram, a porta foi fechada e uns nove homens, todos com facas nas mãos passaram a ameaçar o nosso amigo e a Onofre, dizendo, dentre outras coisas: "meganhas, cachorros do governo, vocês não levarão preso o cumpadre!"
Onofre quis reagir, porém, Baracho o conteve porque o local não tinha como manobrar o fuzil e nem daria tempo, tendo como resposta ambos serem crivados de facadas.
Naquele momento, uma idéia lhe surgiu, e Baracho dirigiu-se a dona do estabelecimento, sabedor de que naquele tempo uma mulher "em estado interessante" sempre fora respeitada, informando a ela, para que os demais ouvissem o seguinte:
"Viemos até aqui em um caminhão, nada sabemos sobre o crime ocorrido, não conhecemos quem viemos prender, mas, se formos mortos, pouco tempo depois o distrito será invadido pelos nossos colegas, muito sangue será derramado, inclusive de inocentes, já que nem nós sabemos quem agora nos ameaça e ofende".
A mulher contou que seu vizinho tinha matado um estranho com um machado por que o encontrara em cima de sua filha menor estuprando-a ao lado do balde com o qual fora apanhar água na mina.
Sabedor melhor dos fatos, continuou dialogando com a mulher dizendo que teriam de cumprir a ordem, porém, levaria o criminoso diretamente a um advogado que o tiraria da cadeia naquele dia mesmo, por não ter ocorrido o flagrante do delito, inclusive, pedindo a mulher que mandasse o marido buscar a pessoa que seria conduzida.
De soslaio, viu que a porta atrás dos iminentes agressores fora semi aberta e, um a um, foram saindo rapidamente acabando por só ficar lá os dois policiais e a mulher.
Momentos depois, um homem já velho chegou com o comerciante e Baracho pediu ao vendedor que os acompanhasse até Monte Azul, sendo atendido.
Em Monte Azul, o trato foi cumprido e o preso foi entregue ao delegado acompanhando de um advogado.
No quartel, Onofre queria relatar o fato ao sargento para uma equipe ir a Mamonas prender todos os que os ameaçaram, porém, mais uma vez, Baracho mostrou sapiência e não permitiu que Onofre contasse o ocorrido e, como este continuasse insistindo, acabou por dizer-lhe que o desmentiria frente a frente para evitar o choque policial com uns pobres caipiras, esclarecendo a ele que, se a vingança fosse executada, de outra vez que algo parecido ocorresse, o policial ou policiais seriam assassinados sem nenhuma delonga.

(aa.) Sebastião Antônio BARACHO.
conanbaracho@uol.com.br

Sebastião Antônio Baracho Baracho
Enviado por Sebastião Antônio Baracho Baracho em 13/09/2007
Código do texto: T650863
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Sobre o autor
Sebastião Antônio Baracho Baracho
Coronel Fabriciano - Minas Gerais - Brasil, 80 anos
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