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ACUSAÇÃO VS. DEFESA!

ACUSAÇÃO VS. DEFESA!
Havia um soldado de nome Hilton Moreira que estava preso no alojamento aguardando julgamento por ter assassinado um indivíduo na estação ferroviária, vítima essa que, pouco tempo atrás, tinha matado um irmão de Hilton quando ele estava lendo um mandato de prisão para o mesmo, na cidade de Carnaúba.
Fora o próprio soldado Hilton que prendera o assassino de seu irmão, o entregando ileso às autoridades.
Estando preso, era comum vê-lo insultando as irmãs de Hilton pela janela de sua grade da cadeia.
Uma noite, o soldado Damas informou, reservadamente, ao soldado Hilton de que, na manhã seguinte, ele ia fazer parte de uma escolta de dois soldados com ordem de levar o assassino até a cidade de Corinto onde ele, simplesmente, deveria ser libertado.
Hilton, fardado, chegou à estação da estrada de ferro, dependurou sua túnica num gradil, entrou na plataforma ganhando o vagão de passageiros e descarregou seu revólver no "peito" do assassino do seu irmão, estando ele entre Damas e o outro soldado numa poltrona do vagão.
Embora tenha se apresentado e os antecedentes do morto ser péssimo Hilton foi condenado a 15 anos de prisão por que o júri considerou que não fora dada condições de defesa ao falecido por estar preso entre dois soldados, colegas de Hilton.
Ele ficava preso no alojamento do seu quartel da PM, mas, tinha várias regalias podendo até dar uns passeios fortuitos pela rua e ir a sua casa.
Se não houvesse outro julgamento Hilton teria que ser expulso, porém, foi conseguido um novo julgamento e um coronel mais conhecido como coronel Jorginho, foi contratado para ser o advogado de Hilton.
No novo julgamento, até as falas do promotor, transcorreu exatamente igual ao primeiro, quando o promotor iniciou a sua acusação no Tribunal de Júri, a certa altura, o defensor de Hilton perguntou a que hora o crime fora cometido e se estava escuro. Com o promotor respondendo que eram 05 horas e 20 minutos da manhã e as luzes dos vagões ainda não tinham sido acesas, continuando com sua acusação fazendo-a em franco desrespeito ao réu a quem ofendia considerando-se já vitorioso, em novo aparte do defensor, o promotor respondeu que a escolta era composta por dois soldados de cor preta e que o bege, cor da farda deles, não realçava no escuro por não ser uma cor "forte".
Dera essas informações sem nem desconfiar das tramas da defesa com as suas perguntas seqüentes, parecendo, para o representante do ministério público, que o defensor estava completamente alheio ao processo.
Continuando na acusação, o promotor insistia em reprisar que o réu não respeitou aos seus colegas guardiões nem a farda que vestiam, quando, novamente, recebeu e concedeu um aparte à defesa, essa, informando que o réu respeitara sua farda deixando a túnica no gradil de entrada e, sem dar tempo ao promotor, o defensor perguntou a cor da camisa do réu no momento do assassinato.
O promotor lhe respondeu, acintosamente, com voz professoral ou de quem quer demonstrar saber mais, que a camisa do réu era de cor escura.
Ao terminar a acusação, o promotor sentou-se ao lado do juiz com um sorriso flutuando nos lábios e um balançar de cabeça como que demonstrando ter vencido.
Dada à palavra a defesa, esta disse que quase nada tinha a dizer por que o promotor já absolvera o réu com as suas falas acusatórias.
Ouvia-se até um bater de asas de mosquitos na sala do Júri ao ouvir a afirmação imposta pelo defensor que, prosseguindo, fez a seguinte defesa:
-O meu cliente foi além de suas obrigações ao prender e entregar para a justiça o covarde assassino de seu irmão.
-Sofreu por demais ao saber que, a considerada vítima nestes autos, ficava da janela da cadeia pública a insultar às suas irmãs.
-Sofreu muito mais ainda quando ficou sabendo pelo soldado Damas de que o assassino do seu irmão seria libertado na cidade de Corinto sem nem ter sido julgado.
-A informação recebida encheu-lhe as medidas e resolveu ir até à estação ferroviária, no final da madrugada, para confirmação (ou não) da viagem e soltura do assassino de seu irmão.
-Chegando à estação, deixou a sua túnica no gradil para não ser identificado como policial, caso o assassino estivesse no vagão.
Chegando ao vagão de passageiros, deparou com o assassino de seu irmão completamente sozinho refestelado numa poltrona larga e, sem pensar duas vezes, descarregou o seu revólver até acabar às balas saindo em seguida e se apresentando as autoridades.
Naquele exato momento o promotor, em aparte, disse:
"Sozinho uma ova! Ele estava devidamente escoltado!"
O defensor redargüiu:
A vítima estava com uma camisa escura, a escolta uniformizada de bege, os soldados da escolta eram da cor negra que chega ao azeviche. Nessas circunstâncias, como pode o senhor afirmar que o meu cliente tenha visto a escolta num vagão completamente às escuras?
Ao final do julgamento, Hilton foi absolvido e chegou a mais alta patente da Policia Militar.

(aa.) S.A.BARACHO.
conanbaracho@uol.com.br

Sebastião Antônio Baracho Baracho
Enviado por Sebastião Antônio Baracho Baracho em 27/09/2007
Código do texto: T671083
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Sobre o autor
Sebastião Antônio Baracho Baracho
Coronel Fabriciano - Minas Gerais - Brasil, 80 anos
421 textos (19819 leituras)
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Sebastião Antônio Baracho Baracho