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O mundo fantástico do Kaska.


Era o final do mês de maio. Naqueles dias, confesso, estava extenuado. A semana toda tendo que ver a cara deslavada do Paulão Morcegão, ou Borboleta, como alguns o chamam. Sem falar na insalubridade que é tolerar o Levi e o seu derrame verbal, fazendo tentativas para dar valor e forma a idéias que só ficam bem na imaginação de quem acredita em gnomos, saci-pererês, mulas-sem-cabeça e que um time carioca vá ganhar o brasileirão do ano dois mil e três.

Para quem se submete a dias de cão, uma sexta-feira à tarde é prenúncio de absolvição. E o sábado é dia de, inevitavelmente, ir para o "Fight".

Saindo da casa lotérica, ao cumprir a única obrigação das manhãs de sábado: Uma fezinha na mega acumulada, o celular tocou. Minha nossa, é o Tim Capota, conhecido de antigos carnavais – Godão, vamos pro Kaska – Kaska ? - respondo eu – É godão, aquele lugarzinho onde as pessoas se alegram, mesmo que não seja verão. Godão, já mandei fazer uma ave galinácea no grau, ‘tá alinhadinha!, fala aqui com Simonassi – Alô Godão! – Fala cabelo-de- Lobo! – Vamos pro Kaska, o Dudu Leão e o Mestre também vão, vê se não bate fofo – Pô cabelo-de-lobo, quando foi que bati fofo?

Resolvi levar o Diligero comigo, o bacana estava gracioso e cheio de energia e já parecia com o dono: jeitão brabo de ser, nos seus três meses de vida. Ia babando o vidro do carro e latia quando via uma fêmea interessante. O Diligero é o meu Pit-bull. Ganhei o bicho do meu amigo Maurício Manieri, quando passou por Colatina para fazer um show em Barra de São Francisco. O Manieri dizia que o Pit-bull era a minha cara. E resolveu trazer o filhote de São Paulo para me agradar. Aceitei o presente de bom grado, afinal o Bizonga têm um Poodle, O Kito Barbieri tem um Chiuaua, o Kiko Casoti um cachorro que morde ele, o Delmo Guidoni tem um porquinho-da-índia e o Gilberto Gil tem um ursinho de pelúcia. Então posso ter um Pit-bull.

Ria feito só a ele mesmo, o Dudu Leão, só porque descobriu que o Mestre tem medo de minhocas e que nunca vai a pesque-pague para pescar, só para ver garotas. O Dudu Leão é sempre assim, muito alto-astral e cara de pau e sonhou em ter a Marciele, a Marcilene, a Marilene em seus braços na noite da Jufest do CEFETES.

O mestre há muito não o via. Ele não tinha mudado nada. Apesar dos oitenta anos, mantinha um corpinho de cinqüentão. Dizem que o seu segredo de longevidade estava no uso da geléia real. Um alimento natural que as abelhas jovens secretam para alimentar a rainha, e que é um notável regenerador das funções vitais.

O valor que eu dava ao mestre estava no seu destemor (com exceção às minhocas). Lembro-me bem do dia em que um desgarrado enxame de abelhas africanas fez os moradores de Maria das Graças ficarem apavorados, inclusive a cadela da minha vizinha não resistiu às picadas letais. O mestre foi convocado para dar cabo àquele pandemônio. Precisam ver aquele ser longevo, embrenhado na copa de um Fíncus, completamente tomado pelo abelhal. Eu dizia – Mestrinho, cuidado com o ferrão. – Ele respondia: – Ferrão que é bom Gordão! Ferrão que é bom Gordão! – E eu retrucava solenemente – ‘Tô fora mestre!!

Ele capturou a rainha, salvou a população do mal e foi aplaudidíssimo, inclusive pelo corpo de bombeiros que assistira a tudo bestializado.

Pois ele estava lá no Kaska, e entre nós, de cabelinho espetado, e aquele riso que lhe conferia um ar de indecente. Estendeu-me a mão com leveza, cabendo a mim apertá-la, num gesto que nada lembra um herói. A última imagem que tinha dele foi a de uma fotografia digitalizada que o "Rei Val Bonna" mandou-me pela internet. Sem camisa, com “pneuzinhos” salientes na cintura e um olhar perdido num copo que levava a crer que fosse cerveja, lá no apartamente de Itapuã. Pois é Gordão – falou o mestre – cadê o Gripa e o Dag ? - Ah, Mestre – respondi – Estão estudando na capital. – E o Suela? – continuou ele – O Suela está em Viçosa para ser Doutor, e continua com aquela vida de promiscuidade que lhe é peculiar, respondi. – Pois é Gordão, temos que por em prática aquele meu plano de trancarmos o Dag e o Gripa numa casa, com umas garotas da pesada, que gostam de explorar todas as possibilidades do prazer físico – Stop, mestre! – interrompi-o – Não quero por a vida de ninguém em risco de morte!!!

O nosso diálogo foi interrompido pelo Kaska. – Olha, tenho uma bebida aqui no meu Não-pesque-pague que é sucesso de crítica e de público, já recebi turista até de Brasília para experimentar. Ë feita da raiz de uma planta chamada salutra, planta que só há naquela mata, além daquele cafezal conilon. – lá onde a gente vê umas embaúbas – atalhou o cabelo-de-lobo Simonassi. – É sim, conferiu o Kaska. Continuando a conversa o Kaska disse que a planta tinha o poder de abrasar o homem. Não entendi o que ele queria dizer, mas notei que despertou o interesse do Mestre. E continuou a enumerar as propriedades terapêuticas da planta, mas nem escutei mais, pois minha atenção fora subtraída por algo, que brilhava longínqüo , num céu completamente azul, que me pareceu uma pipa de alguma criança.

– Olha aqui Godão – falou o Dudu Leão – tirando-me das abstratações – Você quer
tomar a salutra? – Uma dose só Dudu – Disse eu – Se Você vai beber, acho que também estou afim! – Nisso o mestre interrompe dizendo para o Kaska lhe reservar uma garrafa. Afinal aquilo era um abrasador!

A salutra nos foi servida em uma cuia feita do côco e tinha um aspecto de musgo batido em liquidificador. O Kaska disse que era servido numa cuia para dar um ar assim tosco e natural, harmonizando assim com o ambiente local. Imaginei: Esse Kaska só pode gostar de um machinho! Isso é coisa de gente fresca. Numa coisa o kaska tinha razão de dizer: o ambiente era realmente tosco. Uma tosqueira só.

No segundo gole senti um amargor que as minhas papilas jamais tinham sentido. Nem boldo, nem carqueja, tampouco losna armagam igual. Notei que algo estava errado quando cabelo-de-lobo esbugalhava os olhos e soltava uma espécie de uivo que até assustou o Diligero que se divertia querendo pegar as galinhas que ciscavam ao largo do gramado. A estranheza continuou quando ele me inquiriu:
– Godão, se eu pegar uma "basôra" você barre o guspe do Kapota?
– Craro, só se for pra ônti! ‘Ce sábi que meu nômi é trabaio!
– Falô, seo trabaio, te conheço desde quando na FASCEX* tinha um zoológico.
– Pois é né !? As coisas não mudam tanto assim!

Sempre gostei de um rico vocabulário. Mas notei que aquela bebida tinha nos reportado à cultura de nossos ancestrais que vieram dos confins para este sul de mundo, devorar, poluir e barbarizar. Conversa semelhante só tinha ouvido do Lemãozinho Daniel, que inclusive ficou chateadíssimo um dia, porque joguei um dicionário no peito dele. Mas tinha que fazer isso, já não tinha mais paciência de ouvir frases tipo uma em que ele falava que o Tio dele era "histérico"– não podia ter filhos. Aí, eu é que fiquei histérico e atirei um aurélio de cinco quilos p’ra cima dele. Mas o papo do cabelo-de-lobo era apenas curtição "nonsense".

O astral foi ficando "grease". Dei uma “esticada” no banheiro. Pelo espelho enxerguei meus olhos em brasas. Estavam abrasados. Aí entendi o que o Kaska queria dizer com abrasar. Não adiantava tapar o sol com a peneira, era hora de dar tchau!
– Bem gente – fui avisando – tenho que ir, já me abrasei o bastante!
– Nós vamos também Godão – falou o Capota.

Estranhíssimo que num piscar de olhos todos sumiram. Pensei que estava sob um surto psicótico. Entrei no possante "Corcel das vastas emoções", tendo o zelo de bem acomodar o Diligero. Se tudo corresse bem, em dez minutos estaria no Córrego do Ouro. Mas num aclive da estrada de chão batido, o veículo foi abruptamente suspenso por uma força avassaladora. Num esforço de visão vi o que parecia ser uma grande nave, como aquela do filme Arquivo X. O que me deixou passado foi ver um anúncio bem luminoso na concavidade inferior do OVNI que dizia: " CEFET - ES, a sua escolha para o futuro."fiquei bestializado, pela razão de conhecer esta escola de cursos e realmente achar muito boa...

À medida que ia sendo drenado para dentro da nave, ia perdendo a consciência...

Recuperei a consciência, sentindo uma mão fria na região pubiana e com o carro fazendo um giro de trezentos e sessenta graus na pista arenosa. Com muita dificuldade consegui controlar a giratória, direcionando o carro para uma moita de capim colonhão. Olhei para o lado e notei que meu cachorro Diligero havia desaparecido e no seu lugar estava o Lemão Luxinger, sem voz, sem cor e também sem vergonha na cara!

Soube, mais tarde, que Capota, Cabelo-de-lobo Simonassi, Mestre e Dudu Leão foram raptados por uma força igualmente sobrenatural e como num teletransporte, foram deixados no Bar Eucaliptos, na BR que liga Colatina a Baixo Guandu.

Não relatamos esses fatos até agora porque as pessoas têm uma tendência natural em descrer na verdade. Certamente seríamos motivos de troças de toda comunidade.

Por alguns dias posteriores, cheguei a cogitar que a salutre tivesse promovido um desarranjo mental coletivo, causando esses fatos somente na nossa imaginação. Mas e o Diligero? E porque aquele Lemãozinho estava no meu carro? Pois os extraterrestres transformaram o meu estimado Diligero no Luxinger, causando-me prejuízo. Diligero não fumava, não bebia alcoólicos e não tinha a lingua "plesa ".
 (Mais em www.cronicasdojoel.blogspot.com )





Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 19/01/2006
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Colatina - Espírito Santo - Brasil
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