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Estória de Batata, bichos e quase amores.

Era a primeira noite de Colatina que partilharia a minha lépida presença com o Kikasoti, depois da adoção do gato preto. Aquele bicho, parecia-me que lhe fizera muito bem. Estava bem disposto, com alegria como a dos filhotes. Ouvi num programa de cultura inútil, na tevê, que os animais domésticos assumem um pouco da personalidade do dono. Por um tempo até acreditei nisso, porque o Pretinho, o poodle do Bizonga, fazia umas esquisitices que eram típicas do dono. Mas no caso do Kikasoti foi o contrário. Ele havia se transformado num bichano vivaz e sequioso por mimos. Talvez, e bem por isso, que quando notamos que olhares dengosos nos procuravam, partimos logo para o “fight”, e tomamos nos braços aquelas ninfas que nos alegrariam as horas seguintes, que de certo não se perderão na noite do meu esquecimento. Cada par, a seu modo, e é bom que se diga, aqueceu aquela rara noite de um pouco frio do outono Colatinense...

Sei muito bem que a causa de não me incomodar aquele feixe de luz de sol que vazava a mal fechada cortina da janela do meu quarto, naquela quase final de manhã do primeiro de maio, fora ter conservado, no íntimo, os afagos daquelas horas noturnas. Nem mesmo a longínqüa lembrança do “conhaque lemon” guardado ainda nas minhas papilas gustativas e a bem próxima barulheira, que logo decifrei ser uma manifestação de trabalhadores, que reivindicavam os salários não recebidos da massa falida de uma fábrica, me aborreciam – dinheiro que esperamos há dez anos, como se pudéssemos viver duzentos ou se a fome pudesse esperar! Bradava pelo sistema de som, uma voz que conhecia de longos tempos. Era a Batatinha. Então a manifestação era liderada pela intrépida e doce sindicalista Batatinha !? Meu pai, o Tião, disse depois, que quando o carro de som passou em frente à mercearia Avenida, num lance de abusada, ela esbravejou, dizendo que era por isso que trabalhador não tem valor, onde já se viu aquele comércio aberto num dia que o trabalhador deveria estar em casa descansando com a família? – Acho que ela não sabia que naquele comércio só trabalham gente da própria família. Ainda que ela dissesse tantas outras tolices, em nada desvaneceria a curiosa admiração que sempre nutri por ela. Não, ela não é qualquer, não que seja transgênica. Ela tem história, ou melhor, fez história!

Voltando no tempo em que a molecada se esbaldava em brincadeiras pelas poeirentas ruas e de casas que não eram cercadas por muros, quando muito por cercas de ripas, no tosco bairro Maria das Graças, lá estaria a nossa futura sindicalista, numa árdua tarefa de ensinar os caminhos do “Senhor” a um bando de descarados recém adolescentes. Foi nessa ocasião que para os meninos, o catecismo não passava de um castigo, por roubar-lhes o tempo de traquinagens. E isso tornava as aulas da professora Batata num arrasto de monotonia. Aconteceu que um dia, ela sacou da bolsa um bilhete e disse que era um bilhetinho de amor. Que algum aluno tímido, tinha colocado às escondidas, em sua bolsa aquele bilhete, quase que por desespero, num esforço para um desabafo – Olha gente! - disse num tom professoral – amor não é só isso. Vou ler para vocês – E com entonação da voz para declamação de poesia de amor, entornou nos ouvidos da molecada o bilhete em forma de poema:
Um beijo nunca deve ser dado,
Com intenção de maldade,
Como fez Judas, aquele traidor degraçado,

Deve ser fraterno para ser belo, demonstrando amizade,
Como o ósculo de Cristo nos apóstolos,
Cheio de santidade.

Mas tenho que confessar,
Porque já não cabe em mim:
Um beijo em você Batata,
Nunca seria assim,
Seria de inchar os lábios.
Com impulso selvagem,
Como a cavalada no cio faz,
No pasto do “ Seu Mário”.

Eu a quero só pra mim, mesmo que seja amarada
Afinal você me suscita,
Vontade para o pecado!

Depois de um suspiro, ao terminar a declamação, Batata disse que precisava conhecer o autor daquele anônimo bilhete, pois assim, poderia orientá-lo melhor, porque aquilo não era amor, era desejo libidinoso.

Cogitou-se que porcaria nenhuma que algum aluno teria escrito aquilo e que era uma jogada de marketing da Batata para animar as aulas. Que aquilo era para que a moçada se atinasse a descobrir quem era o autor cheio de paixão e desejo e assim aumentar a minguada freqüência do catecismo. Mas era corrente minoritária que apostava no ardil da Batata. A maioria mesmo creditava ao Kito Barbieri a autoria, porque levados pelo senso comum, sabedores da irreverência do menino e das suas curtas e fulminantes paixões e sendo ele bom no vocabulário, sabia de muitas palavras diferentes das que eles usavam nos chingamentos, pois ele lia tudo dos super-heróis Marvel. E também, a professora era “muito legalzinha com ele” e na páscoa o único que a presenteou com um ovo de chocolate fora ele.

Mas eu sei muitas coisas do Kito. Até umas que não gostaria de saber. Alguém que quase concluiu um “ Strepetease” na boate Apocalipse, e não concluiu o intento porque os “ hômi” o botaram para fora em tempo. Alguém que já foi o Rei dos bundalelês – até dizem que metade da população de Marilândia já conhece aquela bunda branca. Alguém assim não hesitaria de bradar pública e pirotecnamente que queria a Batatinha só para si. Vale lembrar da vez que ele se enterneceu pela Nades. Muito bêbado, falou na cara dela que “a amava mais do que a ele mesmo”. Confesso que aquela cena me fez achar que viver podia ser uma coisa muito divertida. Em casa ele ainda disse pra mãe que havia encontrado a mulher da sua vida e que por cima ela era virgem – Cruz credo, Kito – disse Dona Alice – só se for por cima mesmo, pois a Nades já tem uma filha mocinha. Vê se cria juízo, meu filho – admoestou a mãe do nosso querido Latino. De fato a filha da Nades já estava mocinha e até foi colega do Delmo num curso de modelo.

Mediante observações, comecei a desconfiar da massada. E acho que só eu matei a charada. Há matos que parecem não ter coelho. Mas pode sair uma lebre de dentro de vez em quando. Havia entre aquelas pestes imberbes, um que se destoava dos outros. Calangão Possa, assim era chamado aquele que sempre deixava uma fruta na mesa da professora. Dizem até que desfalcou a comida do trinca –ferro, passarinho muito querido do seu pai, Durval Possa, quando subtraiu um belo mamão papaia para agradar a Batatinha, que tinha uma especial predileção por essa fruta, um tanto também porque era muito ressecada. E só ele usaria a palavra ósculo naquele bilhete. E ele era brilhante.

Numa festa junina do bairro, notei-o transtornado. Pouco depois já estava com Junim Galileu, que nunca freqüentou o catecismo porque dizia que já sabia rezar. Esbanjavam no quentão, era um atrás do outro ( falo do quentão). Ébrios, era até difícil entender o que balbuciavam. O Junim gritava algo como “ morte aos playboys, morte aos playboys” , agora o calanção dizia que iria se vingar. – “ aquela piranha vai ver que sou dos Junca lá de Santa Rosa de Marilândia” – Foi isso que pude entender. Agora tudo se esclarecia. A Batata, nesta festa, ficou no maior beiço-a-beiço com o Nego Mumu. E isso tinha convertido em ira todo sentido afetuoso do garoto.

E ele, cara de palavra, maquinou. Sabia que por pouco mais de nada poderia comprar um daqueles meninos. Chegou a falar com Nego Bom que precisava de um “ servicinho” dele. Qual foi a surpresa o refugo à tarefa. Ele argumentou que não ficava bem ele sacanear alguém que doava toda semana leite de cabra pra família dele, mas que botava fé na “parada” e dava força na idéia do Calango Irado deletar a batata. E para provar isso, indicaria um primo seu, que o Calango conhecia, alguém que faria e faria muito bem se “ rolasse” um agrado. Pois o Satanás, como atendia o pior elemento daquele meio, topou por uns míseros trinta rojões, colocar uma perereca viva, capturada dos esgotos a céu aberto da antiga Maria das Graças, na bolsa da professora. Seria batata. Aliás, Batata desmaiada. Nenhuma mulher agüentaria isso.

Ao término do pai nosso, a Batata resolveu pegar alguma coisa da bolsa. E com pouca surpresa viu o bicho. Pegou – a nas mãos, coisa que, com exceção do Satanás, nenhum garoto ali faria. E começou a dizer que aquela era uma criatura de Deus. E como criação do Divino merecia o respeito. E que todos mereciam respeito, porque todas as coisas passam, mas só o amor que permanece. E, continuando, disse que perdoaria quem tentou assustá-la, porque Jesus faria o mesmo e muito mais. Ela só parou com o lenga-lenga, quando metade da sala já chorava. O Calangão não chorou, mas se sentiu novamente envolvido pela ternura e resolveu amar a Batata, mesmo que ela continuasse no “bem-bom” com o Mumu. Mas que fosse só ele. Se aparecesse um terceiro, o que iria para bolsa se chamava cascavel, com um veneno cruel, que nem daria tempo pra ela “balangar” beiço.

Parece até ficção isso tudo que contei. Porque eu mesmo já vi com estes olhos que a terra não irá comer tão cedo, um marmanjo que mora na rua Santa Cecília, São Silvano e que vai à missa todo domingo, quase apagar por causa de uma desembestada perereca que não se sabe bem de onde apareceu e pulou sobre o colo dele. Eu que acudi, se não, alguém poderia se ferir nos móveis da casa ou subir sobre a mesa por causa do pequeno batráquio. Mas aí já é outra estória...

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Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 19/01/2006
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Sobre o autor
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Colatina - Espírito Santo - Brasil
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