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FLECHAS VENENOSAS



Pode-se dizer tudo do professor Nerivaldo, menos isso que estão dizendo. Conheço-o desde os meus tempos de ginásio. Figura exemplar. Não só como professor, mas como bom pai de família.
De maneira alguma entra na cabeça de alguém essa conversa. Imagine! Jamais o professor Nerivaldo iria cometer uma loucura dessas. Nada bate com  o que conhecemos de sua conduta. Pura invencionice. Dizer que ele fez o que dizem que ele teria feito só mesmo como ficção cientifica.
O professor Nerivaldo, você olhando para ele, você diz logo que essa história toda está mal contada. Se pudesse fazer uma espécie de radiografia de sua conduta, todos veriam logo um quadro em que aparece um senhor sério e bonzinho, com cara de tio de qualquer um de nós, sempre ali, zeloso na sua profissão de professor. Da casa para a escola. Da escola para casa. Em casa, com a família. Dia de feira, fazendo suas comprinhas no mercado, em companhia de dona Lucinha. Dia de Domingo, depois de rever algum planejamento de aula e corrigir provas, cuidando de alguns afazeres domésticos, lavando seu fusquinha, ou ainda regando as plantas do seu modesto jardim, sempre atencioso com a vizinhança:
- Como vai, seu Jorge?
- Vou bem, professor.
Vingança por questão política? Hipótese descartada, pois, ao que se sabe, se o voto é secreto, mais secreto ainda deve ser o do professor, que nunca demonstrou paixão política por A ou B.
Aliás, quando o assunto era esse e então se procurava arrancar- lhe uma opinião, respondia:
- Aristóteles dizia que o homem é um animal político. Nesse caso eu não passei do animal.
Inimigos? Que inimigo poderia ter uma pessoa como o professor Nerivaldo? Bebedeira? Se já chegou alguma vez a tomar algum trago, nunca foi do conhecimento de quem quer que seja. Por outro lado, não se pode aventar a hipótese de um sinal de caduquice, pois idade ainda não tem para isso.
É certo que a cena foi presenciada por várias pessoas conhecidas. Mas, e daí? Não estariam essas pessoas hipnotizadas ou com ilusão de ótica, a ponto de desejarem partir de uma figura como o professor um gesto estranho a sua pessoa? Do jeito que as coisas andam, nada é impossível.
Pessoa direita. Fico visualizando na memória o rosto do professor, com aqueles seus óculos de fundo de garrafa, e não posso acreditar que ele tenha feito isso.
 Em pleno sol de meio dia, gente por todos os lados, dizem que aí aconteceu. Vinha lá, apertada num shortinho jeans, blusinha  tomara-que-caia, com seus cabelos encacheados, a filha de Zequinha Pereira. Os peitos pareciam que daí a qualquer momento se lançariam feito flechas.
Eu não acredito. Muitas pessoas presenciaram. Dizem que o professor (deve ser mentira, gente!) aprumou o par de óculos e, após gritar “menina!”, nem mais pestanejou, puxou para baixo a blusa da morena. Pontudos, saltaram–lhe aquelas duas flechas venenosas. Ele jogou para o alto seus cinqüenta anos de homem correto, não quis nem saber, e atafulhou a mão.
Dizem que Alipinho, amigo da família, ia passando no momento e ainda gritou:
- Professor, pelo amor de Deus!
Mas aí já era tarde.
Nei George Pereira Prado
Enviado por Nei George Pereira Prado em 29/01/2006
Código do texto: T105576
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Sobre o autor
Nei George Pereira Prado
Candiba - Bahia - Brasil, 54 anos
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