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A caça e o caçador


Contaram-me que Juvenildo era mesmo um coitado. Que era um sujeitinho magro e até de aspecto doentio. E que devido a sua aparência esquelético ele até ganhou o apelido de “Feinho”, e desse jeito ficou conhecido por  todos do lugar.

            Feinho levava sua vidinha ao lado da esposa Laudicéia e de duas filhinhas magricelas numa pequenina casa de sapé distante algumas léguas da Vila do Raso, que era o povoado mais próximo. Ele era um sujeito muito labutador, mas as coisas nunca lhes davam certo. Dinheiro ele nunca tinha pra gastar e por isso vivia acabrunhado com a falta de comida para alimentar a família e, não tendo como adquiri-la, passava todo seu tempo a construir armadilhas para capturar caças. Dedicava-se diuturnamente na construção de engenhocas para pegar veados e pássaros.
            Constantemente Feinho dizia para Laudicéia que confiasse nele, e que dia sim dia não todos comeriam carne até se abastar. Assim ficava ele sonhando com a hora de aprisionar um animal carnudo.
            Percebendo que a fome rodeava sua família, Feinho embrenhou-se na mata e nela ergueu algumas arapucas e várias armadilhas, e em determinado ponto ele fixou o seu mais primoroso laço de pegar veado. Era uma armadilha genial; uma engenhoca que só ele saberia fazer, e que para dar-lhe bastante sorte a batizara com o nome de “nossa senhora”.
            Feinho olhava para sua armadilha e satisfeito dizia: essa pega qualquer bicho que se atrever passar por aqui!
            A única alimentação que em casa dispunha era apenas um punhado de fubá que numa panela de barro se dissolvia em forma de sopa, a qual estaria quase pronta para o desjejum. E foi nesse crucial instante que Feinho sentiu-se ameaçado pela fome e resolveu dar uma olhada nas armadilhas. Trilhou mata a dentro e, para o seu espantoso deleite, lá estava a “nossa senhora” com um belo veado entrelaçado em cipós, debatendo-se furioso. Ao ver aquela tão sonhada cena, Feinho se arrepiou dos pés à cabeça, e, entre lágrimas, simplesmente riu. Porém, envolvido pela  grande emoção de ter aquela fartura em suas mãos, ele precisava urgentemente avisar a Laudicéia para desocupar a panela da sopa de fubá, e o fez, assim gritando:
            – Laudicééééia, ooou Laudicéééia!
            – O que é Juvenildo!  respondeu a mulher, lá longe.
            – Joga fora esta porcaria de sopa e lava a panela. Tem um veadão preso no laço da “nossa senhora”! Tá me ouviiiiido Laudicéia? Joga fora esta porcaria toda. Vou encher a panela de carne!
            Ao que, aos gritos, Laudicéia lhe respondeu:
            – Tá beeem Juvenildo, tô te ouviiindo! Vou derramar tudo no lixo. – e o fez.
           Feinho pegou uma pedra e amolou muito bem a sua foice, depois fui se aproximando sorrateiramente do animal, mas, tomado por uma forte emoção que tremulou suas mãos, arremessou furiosamente a foice contra o pescoço do bicho, mas este, sendo muito ágil, virou bruscamente a cabeça fazendo com que a foice acertasse os cipós, e em seguida, livre, disparou na floresta.
            Feinho se desespera perante sua imperdoável imbecilidade e lembra-se da sopa de fubá, e num imenso desespero volta a gritar:
            – Laudicééééia, oooooou Laudicééééia! Põe no fogo a sopa de fubá, pois o desgraçado do viado da “nossa senhora” fugiu prus quinto dos inferno.
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 04/02/2006
Reeditado em 29/09/2014
Código do texto: T108046
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz