Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Esta estória me foi contada há muitos anos atrás. Isso nem importa, porque para mim foi......ontem.  E vou contá-la a minha maneira e é mais ou menos assim:


Morava no morro uma nega bonita, de corpo perfeito e  ao caminhar soltava as suas ancas para deixar elas se mexerem, pra lá e pra cá. 

Tinha fogo nos olhos para queimar o coração de quem  a quisesse cobiçar.

Sorriso solto também, para contaminar quem quisesse  perto dela chegar.

Amava todos os homens e seu corpo nunca podia um chamego rejeitar. Gostava de abraços. Gostava de carinho.  Gostava de sexo.

Wado da venda  e Teco lanterneiro foram capturados por esse olhar e devorados pelo seu balançar.

Wado a amava mais que a própria vida e Teco queria ser seu dono. 

Wado sofria, Teco sofria, porque cada um deles sabia que a nega traia.

Teco, um dia sem controle, foi atrás dos passos da amada e a encontrou deitada  na cama do barraco de Wado.

Pobre coitado!

O ciúme tomou conta do seu coração, fazendo de seus sentimentos  uma grande confusão. 

Não havia alternativa ou ele, ou Wado, era a solução. 

E chamou Wado para o desafio.

Na hora marcada, no meio da praça, de um lado Wado se esquentava, do outro, Teco empunhava sua faca. No meio, a nega bonita com seu sorriso cortava, como uma navalha, o coração  dos dois.

Teco desatinado empunhando a sua lâmina começou a gritar:
-Te cutuco

Ao que Wado respondeu
-Não cutuca

E assim o desafio foi esquentando:

- Te cutuco.
- Não cutuca.
- Te cutuco.
- Não cutuca.

Cada vez mais rápido

- Te cutuco.
- Não Cutuca.
- Te cutuco.
- Não cutuca.   
- Te cutuco.
- Não cutuca.

A nega destraída olhava para os dois, mas não os via. Apenas ouvia o te cutuco/nãocutuca, tecutuco/nãocutuca, tecutucotecutuco/nãocutuca.

Sem controle, suas ancas respodiam e subiam e desciam pelo rítmo marcado por seus pés.

Estupefatos, Teco e Wado começaram a perceber a Nega a se mexer, sem dar bola pra ninguém.

Wado então convidou Teco a dar uma trégua

-Vamos parar de besteira. A nega tá balaçando as cadeiras, vamos apenas nos deliciar e apreciar o momento.

Se deram um abraço e ficaram parados, quase hipnotizados dando sequência somente ao rítmo das palavras. Mudaram o te para ti batendo palmas

Ticutuco/nãocutuca/ticutuco/nãocutuca/ticutuco/ nãocutuca.

A Nega então toda prosa, deu um braço a cada um e lá foram os três desfilando, subindo o morro, todos prosa, contaminando a multidão.

Ticutuco/nãocutuca/ticutuco/nãocutuca/ticutuco/nãocutuca.
 
Assim me disseram que nasceu o samba.

  

          

Rosa Berg
Enviado por Rosa Berg em 14/02/2006
Reeditado em 14/02/2006
Código do texto: T111755

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.

Áudio
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Rosa Berg
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
509 textos (71904 leituras)
30 áudios (5857 audições)
2 e-livros (2212 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 12:16)
Rosa Berg