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A Invasão dos Cabritos

Morar em uma cidadela do interior, especialmente em uma chácara, a qual batizei com o nome Brasil, pode trazer muitas e repentinas surpresas.
Como de costume, após o almoço, dirijo-me para o quintal para fumar meu cigarro à sombra de uma frondosa mangueira. Ao chegar à porta, vi uma sombra através do postigo. Pensei em um cachorro, mas sobre sua cabeça salientavam-se duas protuberâncias enormes. Eram chifres ! O Lucifer em pessoa ?
Armei-me com um crucifixo que estava pendurado na parede, vagarosamente abri a porta e deparei-me não com a besta mas sim com um enorme cabrito, que me saudou:
-Méééhéhé!
Acchei que o bicho tinha um sotaque árabe. Fechei imediatamente a porta e procurei abrigo. Poderia ser um cabrito bomba ! Passaram-se alguns minutos e nada de explosão. Cometi um equívoco. O sotaque não era árabe e sim caipira, talvez do norte do Paraná. Pode ser que seja um cabrito sem terra, pensei. Enchi-me de coragem, abri novamente a porta e lá estava ele
Afastou-se um pouco, com um olhar arrogante. Olhei para o chão e deparei com caroços de mangas, que por causa de fortes ventos, cairam um pouco antes. O cabrito comeu minhas mangas ! Olhei bem nos seus olhos demonstrando toda minha raiva, ele entendeu põs-se em fuga e eu parti atrás dele. Pisei num caroço de manga, cai sentado, levantei-me rapidamente e continuei a persiguição> O cabrito achou um vão na cerca-viva e passou para o terreno ao lado.
Meu vizinho, um senhor de barba grisalha que estava na varanda com sua inseparável bengala, o viu e silenciosamente caminhou em direção do invasor segurando a bengala como quem segura um taco de beisbol, e eu assistia a tudo da divisa. Foi ai que eu ouvi um alerta em cooro:
-Zééééé ! Zééééé !
Zé deveria ser o nome do cabrito, pois ele atendeu de pronto e começou a correr dando voltas em torno da casa e o velho homem atrás dele, com a bengala pronta para dar o golpe. Olhei para o pátio de estacionamento, que fica na parte mais alta da propriedade, no mesmo nível da laje de cobertura de minha casa, e visualizei o coral: Um cabrito, uma cabra e um cabritinho. Ofegante, cheguei ao pátio, os caprinos tentaram fugir, mas consegui acuar a cabra e seu filho num canto. O filhote era muito engraçado, tinha cabelos espetados e tingidos de vermelho. Deveria ser roqueiro. A cabra, pedante, nariz empinado, parecia até que tinha ocupado algum cargo importante na capital. O cabrito que já havia alcançdo a rua, heroicamente voltou e colocou-se entre eu e os acuados para protegê-los. Deveria ser o pai do cabritinho, marido ou ex-marido da cabra. Fino, educado, simples e totalmente inofensivo, não queria confusão. Respeitei-o e fiquei com pena do cabritinho e por isso, deixei-os ir.
Lá de cima pude ver mais um grupo de invasores no quintal, liderados por um bode velho, careca, seguramente nordestino, que aliou-se oportunamente ao bando. Empunhei um C.P.I( Cacetete com Ponta Incisiva) e parti para a batalha. Quando viram a gravidade da situação, pegaram o que puderam, um colocou mangas até na cueca e renunciaram de imediato, fugindo pela lateral, mas o velho careca pareceu-me insistente, pois ameaçou voltar. Evitaram ser caçados (ou cassados?).
Olhei para o vizinho'à tempo de assistir a certeira bengalada na cabeça do cabrito arrogante. Ouvi até o gemido da vítima. Finalmente o Zé foi cassado (ou caçado?). Pelo menos um !!!
Olhei novamente para a minha casa e no palanque ( é assim que eu chamo a lage de cobertura) estava ele, o companheiro dos companheiros, o líder dos líderes, o rei dos reis, um bode barbudo que comandava toda a bicharada. Humildemente, com lágrimas nos olhos, memeava a cabeça como dizendo:
-Eu não sabia de nada, fui traido por companheiros, e o Zé não merecia... ele é inocente !
Virou-se e desapareceu. Corri para a rua e ainda consegui vê-lo e, apesar dos acontecimentos, alguns populares o aplaudiam. Olhei para o outro lado e vi um cabrito que embora jovem ja estava quase careca, ostentando um vasto bigode. Não participara da invasão, assistiu a tudo sem interferir. Mostrando-se triste e desapontado, balançava a cabeça como dizendo:
Que vergonha, os fatos devem ser apurados e os culpados castigados. Nós vamos começar de novo !
Voltei para o quintal para avaliar os estragos. O bando comeu as mangas, as rosas e algumas margaridas. Quebraram a caixa dos correios. Acho que eles pensaram que minha chácara era uma pensão Causaram danos em alguns bancos e principalmente nos fundos da pensão. Os cabritos escaparam, voltei para dentro de casa e um enorme desejo tomou conta de mim : Comer uma pizza.
Mário Mercadante
Enviado por Mário Mercadante em 18/02/2006
Código do texto: T113626
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Sobre o autor
Mário Mercadante
Pirapora do Bom Jesus - São Paulo - Brasil, 75 anos
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Mário Mercadante