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Nelito



Nelito nasceu em 1926. Filho de família muito pobre, pai peão e mãe lavadeira, deu duro desde cedo. Entrou para o grupo escolar aos sete anos mas antes dos dez e ainda tentando chegar à segunda série foi obrigado a deixar a tentativa de aprender as letras para ajudar o pai na lida da roça. Começou no cultivo da horta e, pouco tempo depois, roçava pasto, conduzia gado e amansava cavalos.
Seu dia começava por volta das três e meia da manhã quando levantava para ir ao curral ordenhar vacas e, cumprida a tarefa, passava o resto do dia se dedicando à lida da fazenda para garantir os lucros do patrão.
Considerado bonito pelas moças do local, era visto como um grande namorador. Dizem até que foi noivo cinco vezes. Certo dia conheceu Maria das Dores que, de tão formosa, apelidaram de “sinhazinha” e não deu outra. Em menos de seis meses estava casado.
O tempo passou e, quando se deram conta, Nelito e “sinhazinha” tinham 14 filhos. A pobreza era muita mas na roça há facilidade de se arranjar o de comer e deu para criar os filhos. Com muita economia e anos de trabalho compraram o primeiro pedacinho de terra. Depois outro e mais outro até que Nelito se descobriu dono de um sítio. Mais alguns anos de economia e trabalho exaustivo e já possuía uma pequena fazenda. Os filhos foram mandados para a cidade para estudar e cada um seguiu seu rumo. Nelito tinha dificuldade em acreditar que ele, tão ignorante e pobre, tivesse ido tão longe.
Um dia resolveu montar casa na cidade. Possuindo tanto dinheiro não deveria continuar ficar enfurnado no mato quando poderia ter os confortos da vida moderna.
Na cidade Nelito acabou por se tornar uma pessoa muito antipática por fazer questão de repetir a todo momento que ele, mais pobre e ignorante de todos, se tornara o mais rico. Desfazia de tudo e de todos mas cada um, de acordo com suas conveniências, o suportava e, sendo necessário, faziam questão de não demonstrar a irritação causada.
Como pessoa do mato, como gostava de se definir, Nelito tinha desprezo pelos médicos e costumava dizer que qualquer chá era mais eficiente que anos de faculdade. Até que um dia ele começou a sentir dificuldades para urinar e quando o incômodo se tornou muito grande resolveu procurar um médico local. Este, muito didático, lhe disse que precisaria fazer um exame de próstata mas, por precaução e discreção, o levaria à uma cidade vizinha, onde havia uma faculdade e pediria a um antigo colega seu, hoje professor, que procedesse ao exame.
No dia aprazado o tal médico conduziu Nelito ao hospital, ajudou a fazer a ficha e aguardou com ele o atendimento. Enquanto aguardavam, contou-lhe o que era e como seria feito o exame. Nelito entrou em pânico e somente após muita conversa e dicas sutis do tipo “se não fizer você irá morrer”, aceitou sua sina.
Quando ouviu seu nome ser chamado pediu ao médico que o acompanhasse mas este lhe disse que pela natureza do exame seria melhor entrar sozinho. Na sala de consultas o médico encarregado do exame lhe disse que não era para se preocupar porque tudo era muito simples e não havia motivo para preocupação.
Ao sair da sala de consultas Nelito estava lívido. Seu acompanhante, preocupado, quis saber se o exame de toque indicara crescimento da próstata e ele respondeu que não. Que estava tudo bem e, ao que viu o médico, era um mero estreitamente de uretra. E porque essa cara ? – perguntou o acompanhante e Nelito esclareceu : - O médico examinou e disse que estava tudo bom. Tão bom que mandou 26 estudantes me examinarem também.
Dario Castellões
Enviado por Dario Castellões em 27/02/2006
Código do texto: T116705
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Sobre o autor
Dario Castellões
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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