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A REUNIÃO DO CONDOMÍNIO

DE
CHE QUEVARA
e a
Transformação da sociedade
FLÁVIO MARTINS PINTO
Fundação BIBLIOTECA NACIONAL/MEC
Escritório de Direitos Autorais
Nº de registro: 332.524-Livro:590-Folha:184
Protocolo de registro-2004RS_332
A todos que se indignam contra aqueles que manipulam a mente humana para fins escusos e os que tentam justificá-la alardeando que é para a salvação do homem.
O autor
“ A Rússia espalhará seus erros por todo o mundo.... mas no final meu coração imaculado triunfará.”
Nossa Senhora de Fátima, Fátima/Portugal-1917
Esta é uma obra de ficção e os aspectos apresentados são mera coincidência.
A REUNIÃO DO CONDOMINIO


Stefãnio Bilel havia solicitado uma reunião extra do Condomínio  FAISÃO para tratar de assunto da mais alta relevância.
No corredor de acesso ao salão de festas do edifício, não se falava outra coisa.
- Se esse cara vier falar de política de novo, eu meto a mão nele, dizia um condômino.
Na entrada, Carlassi é cumprimentada por uma esfuziante Espoletildes, irreconhecível dentro de uma minissaia colante, sapato alto brilhante de bico fino, uma maquiagem moderníssima, tudo combinando, tinindo de moda e muito sexy.
- Isso é obra do Quevara, podes crer, pensou.
- Alô, bela, como vais?
- Eu, hein?
- Eu hein o quê, linda?
- Não estava te reconhecendo, Tildes. Mudaste , hein?
- Mudei para melhor ou pior? Que achas, Carlassi?
- É, e para melhor, falou Carlassi com o olhar de lado, de revesgueio, sempre com segunda intenção.

Faltava meia hora para a primeira chamada e  o salão estava quase lotado, pois sempre houve real interesse por parte de todos os moradores. É só para atualizar a fofoca  que chego antes, dizia um velhinho a outro. Aliás, o prédio possuía morando, com exceção do andar dos apartamentos JK do japonês MUTUKA, só proprietários. Alguns a mais de 30 anos, muitos aposentados, advogados e militares, que infernizavam as gurias na rua da Praia, e então a reunião era mais um motivo para encontros e conversas.
Na pauta dois assuntos: o primeiro a cobrança do encaminhamento do tombamento do prédio e o segundo, por solicitação de Stefânio, a existência de atividades não permitidas pelo Estatuto do condomínio. Essa , com absoluta certeza , a real motivação de Stefãnio. O prédio inteiro já sabia das estripulias e das consultas da Espoletildes com o Quevara.
Seu Chico, sempre em guarda contra as manobras de Stefãnio, começava a contar os presentes e pedir  o jamegão na ata.
A estas alturas, Stefãnio encontrava-se no seu apartamento, mas discutindo com Marxinho. Este questionava o pai que não queria lhe dar um relógio novo. O menino desejava, e o pai havia prometido, um relógio bom. Mas Marxinho queria um TIMEX INDIGLO NIGHTLIGHT 200M ou o TIMEX IRONMAN TRIATHLON SLEEK, então mesmo um BILLABONG muito manero.
- Meu filho, tens de ver que estes relógios são puros produtos de consumo, típicos de uma sociedade imediatista, consumista e agonizante. No ano que vem lançam outros só para os neobobalhões comprarem por moda.
- Não, pai. Não são, por moda, não. E eu não sou neobobalhão. Sabes bem que estou me dedicando ao Triatlon e preciso de um relógio de muito boa qualidade. Independente disso, me prometeste um tão logo apresentasse resultados acima da média no colégio.
- Sem dúvida, o desempenho foi destaque, mas me deves ainda a saída do PLTzinho, não é? Qual a razão da saída?
- Não mude de assunto.
- Mas porquê não?
- Me sonegas um relógio que dizes caro, mas não abres mão dos teus ROLEX , não é, pai? e o teu ROLEX OYSTER PERPETUAL DATE JUST, como sempre dizes,  todo de ouro, não é de capitalista? Um relógio caríssimo, só ao alcance de poucos, e poucos que tem muito,...
- Marxinho...
- Fica tranqüilo, pai. A ficha já caiu para o Lenininho e para mim também. Já entendi que sempre pregaste uma coisa e fizeste outra. A propósito, doutrinaste a tia desde pequena e muito bem, mas és incapaz de defendê-la quando querem expulsá-la do partido. Não te sentes culpado por essa situação? Achas que não sei que o Vô te entregou ela porquê  não a agüentava mais ? Chegou a gastar o rebenque de rabo de tatu  e a vara de marmelo.
- Marxinho, não seja......
- Não, não, não, não, pai, não tem outra. Sei que a tia é uma destrambelhada, é daquelas pessoas que não respeita nem defunto, mas não tem justificativa. Queres me dar aquele relógio horrível que trouxeste da Rússia, aquele feioso, mas dizes que  há 30 anos funciona sem pilha.Um produto que parece ter sido feito a martelo. E foice , com certeza.
- Marxinho, foi um presente de um grande amigo.....
- Mui amigo, pois é um relógio de tão baixa qualidade.....
- Marxinho, a qualidade é o último refúgio do domínio do homem pelo homem, lembras?
- Não, pai, nem quero lembrar onde e quem falou isso. Só digo que sem ela nem perto da faculdade passo. Mas já vou dizendo: não quero essa porcaria. Além de feio, pesado, representa um poder falido.
- Marxinho, não seja ...........
- Não seja o quê, pai?
- Sabes muito bem que  um socialista de verdade acredita no crescimento econômico, na modernidade, na inclusão e coesão social, num diálogo de concertação com a sociedade civil, num novo socialismo diferente daquele soviético, no valor do Estado no comando da nação, mas, mais do que tudo, na importância do partido como inspirador , mola condutora e guia dos seus militantes. Sempre te ensinei isso. Não me decepciones.
- Não, pai, já chega. O melhor exemplo é o que fizeste com a tia. Não adianta falar essas coisas. Já conheço teu ídolo, teu inspirador. A mãe vai me dar o relógio que preciso.
- Mas, Marxinho...sabes bem que um comunista, representante democrático das forças progressistas, está liberado do dever com a moral burguesa..
- Não , pai. Fui....
- Marxinho, aguarde.

Stefãnio foi correndo ao quarto e apanhou uma caixa aveludada vermelha com símbolo da antiga URSS em dourado. De dentro, tirou um relógio, ainda com um cartão escrito em alfabeto cirílico (a escrita russa) com cumprimentos de um figurão do Partido Comunista soviético pelo seu desempenho, nas suas atividades escolares naquele país. Seus olhos brilhavam de satisfação e jubilo ao mostrar para o filho a jóia rara.
-   Marxinho, veja que beleza! Mas onde está a tua mãe? Desde que cheguei não a vi.
A campainha toca e o porteiro avisa que estão esperando o Stefãnio na reunião do condomínio e que a D.Tildes estava lá.
- Ah, então ela já está lá. Já estou indo, então ...falou Stefãnio para o porteiro, ainda sem acusar o golpe desfechado pelo filho.

O primeiro assunto já estava na fase final da abordagem e Carlassi só esperava Stefãnio chegar para denunciar a trama, na qual Stefãnio induziu o seu antigo escritório a entrar com uma ação contra o condomínio por desvirtuar a destinação do imóvel e, assim sendo,  passível de perda da situação de tombado e ainda ser processado pela prefeitura. Na realidade, ao saberem extra-oficialmente da ação, desejavam remeter um expediente em nome de todos os condôminos ao prefeito para cobrar a real situação do tombamento, face aos boatos que estavam surgindo.
O Seu Chico, comandando a assembléia, já dava sinais de impaciência e deu por encerrado o assunto da ação do tombamento. Foi acertado, pelo condomínio, que aguardariam o pronunciamento oficial da prefeitura e ponto final.
Logo chega Stefãnio e Seu Chico o convoca para saber o motivo real da solicitação de convocação extra.
- Companheiros, aqui estou em nome de parcela significativa dos moradores deste condomínio, para apresentar, como sugestão, é claro, um apoiamento a um tema da mais alta relevância: o uso de instalações do prédio para fins comerciais.
- Oh, Stefãnio, quem te falou que estão utilizando apartamentos para comércio se mais ficas em Brasília? e outra coisa, companheiros são esses da tua turma. Aqui não tens companheiros, falou Seu Chico.
Nestas alturas, Stefãnio ainda não havia visto a Tildes.
- Eu ainda represento clientes nestas reuniões de interesse....
- Pois fique sabendo que já não me representa mais, gritou um condômino.
- A mim também não..
- Nem a mim também.... falou outro condômino.
- Ora essa, se soubesse que trataria de coisas contra o meu amigo Quevara nem estaria aqui, falou um aposentado indignado com Stefânio.
- É, e ele incitou seu ex-escritório a tratar da ação , mas na realidade é por despeito, falou Carlassi.
- Quem te disse isso, Carlassi ? Perguntou Seu Chico.
- Elementar, meu caro. Depois que esse aí (referindo-se a Stefânio) se albergou em Brasília a Tildes tem consulta com o Quevara todo dia. Não notaram que ela mudou? Mudou da água para  vinho, não é?

A estas alturas Tildes ,pressentindo que sobraria para ela, já tinha saído da confusão.
 
- Onde está a Tildes, pergunta Stefânio.
- Saiu para lá, mais faceira que ganso novo, falou Seu Chico apontando para a porta de saída.
- Tildes, Tildes, Tildes.... em desabalada carreira Stefânio saiu porta afora atrás da Tildes.
- Bom, acabou a nossa reunião de condomínio. Dou por encerrada a presente reunião de condôminos. Depois levo a Ata para assinarem. Os senhores podem ficar tranqüilos que os problemas acabaram , pelo menos por enquanto , no nosso prédio, falou Seu Chico após dar duas marteladas na mesa, como um juiz dando seu veredicto.
- Olhem, este papel prova que estava certa: é um documento que autorizava Stefânio a usar todos os votos , é claro as procurações, contra os apartamentos do Seu Mutuka. É claro que não era contra ele e sim D.Calú e Quevara. Mas não levou. Aliás, quem levou foi a Tildes, eu, hein... falou Carlassi mostrando um papel que apanhara do chão.
- Até que enfim esse mistério foi desvendado e eu não agüentava mais essa fofocada toda.
- Pois é, Seu Chico, um condômino ganha um par de guampas, vem desesperado de Brasília e quer que  os demais paguem o pato! Essa não, violão!
FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 04/03/2006
Código do texto: T118722

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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