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PQ EU SOU A FAVOR DA DESCRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO...

Lílian Maial

 

Sou curiosa de saber o que leva uma mulher, em pleno século XXI, depois de tantas batalhas arduamente ganhas em favor dos direitos da própria mulher, depois de tantas transformações que a sociedade finalmente vem sofrendo, em virtude de ações de grandes mulheres, dentre elas Betty Friedan, recentemente falecida, uma das responsáveis por eu e a maioria das mulheres estarem aqui hoje, debatendo em pé de igualdade com os homens qualquer tipo de assunto, ainda ser capaz de atitudes retrógradas, que procuram manter a mulher à mercê do poder masculino.

Para minha surpresa, não há basicamente nenhuma argumentação sócio-político-científica, mas apenas idéias não condizentes com o mundo atual, com as lutas e conquistas dos dias de hoje.
Então, não se trata de um debate, esclarecimento, ou uma luta por direitos, mas uma convicção religiosa, que subliminarmente vem tentar pôr cabresto nas mulheres desavisadas, notadamente as menos afortunadas, ou menos abastadas.
Nada contra a religião, que cada um tem (ou não) a sua, mas me surpreende, em 2006, o despreparo de algumas pessoas para pacíficos debates, mormente as causas político-sociais.

O aborto não é, principalmente num país de terceiro mundo, uma causa religiosa, mas uma causa social.
Se o inocente tem o direito de viver, mais ainda o tem a mulher que engravida, e que seja com dignidade. Se não deseja tal gravidez, tem o direito de optar e ter assistência médico-sanitária para amparar o seu direito à vida.
Na verdade, não há inocente algum, pois a maioria ainda é embrião, nem está formado, que a formação só se dá bem depois. Hão de tentar dizer o contrário, que a vida vem com a concepção, mas acontece que, até perto dos 3 meses, tirando os enjôos, nem a mulher se dá conta da gravidez.

Antes de empunhar a bandeira pelos que sequer enxergaram o mundo ainda, deveria ser levantada uma bandeira para livrar os já nascidos da miséria, da sevícia, da falta de esperança, das drogas, do crime e do apodrecimento da infância.

Se se quer falar em nome de Deus, que se fale aos infelizes das ruas, aos cheiradores de cola, aos sem terra, às meninas estupradas ainda em tenra infância, às mulheres que têm direito ao sexo e ao prazer, muitas vezes desinformadas ou não possuidoras de conhecimento ou recursos para a aquisição de métodos contraceptivos, ou simplesmente por descuido ou falha desses métodos. Não podem “pagar” por tais falhas e arcar com a responsabilidade de uma vida, só porque algumas pessoas “tementes a Deus” insistem em se manter “tementes das ruas”.

Que se fale em preservação da vida na hora do descaso, do preconceito, do virar as costas às crianças de rua, no subir rapidamente o vidro do carro, com a menor sensação de sua aproximação, ao dar esmolas aos equilibristas da fome, que os divertem nos sinais de trânsito, ou os constrangem.

Que se fale em preservação da vida daqueles que só esperam a felicidade na morte, por mais melodramático que soe.

O mais importante de tudo: ser contra a descriminalização do aborto não diminui a quantidade de crianças abortadas, apenas aumenta o número de mulheres que morrem por não terem tido a chance de ir a um hospital fazer tal aborto, sendo submetidas a verdadeiras chacinas por curiosas ou clínicas clandestinas, que invariavelmente deixam seqüelas físicas ou, pior, morais.

Ser contra a descriminalização do aborto modifica, sim, os índices de mortalidade infantil, mas a mortalidade pós-natal, por sofrimento absurdo causado pela fome, pela miséria, pelo desamor da mãe (que não desejava o filho), pela sociedade – a mesma que foi contra a descriminalização do aborto - que sempre o considerará um bastardo.

Então, meus caros, ser contra ou a favor da descriminalização do aborto não é uma causa religiosa, porque não creio que deus algum desejasse que seus devotos pagassem pelo alívio da consciência de determinadas pessoas.

Ser contra ou a favor da descriminalização do aborto é ser contra ou a favor da mulher ter direitos sobre seu corpo, seu destino, suas escolhas. Antes de levantar a bandeira da defesa de embriões, por que não defender menores de rua? Por que não trabalhar em causas sociais de recuperação de delinqüentes? Não querem respeitar a vida? Por que somente a vida intra-útero de conceptos de mulheres que não os desejam?

Ser contra a descriminalização do aborto, hoje em dia, significa muito mais ser a favor da criminalidade e do aumento do número de infelizes.

O mais interessante é que as pessoas que são contra a descriminalização do aborto, são favoráveis, na maioria das vezes, à pena de morte de menores criminosos. Ou são favoráveis a deixá-los bem distantes de seu caminho.

E o mais triste disso tudo é ver uma mulher ser contra os direitos das outras, que a duras penas vêm lutando e se expondo para que a miséria, a criminalidade e a injustiça social sejam reduzidas.

Eu convivo no meu dia-a-dia com as mulheres que chegam com hemorragias, infecções, perfurações de útero, de intestino, em virtude de abortos provocados em circunstâncias desesperadas. Convivo com mães que não entendem a razão de uma filha sua ter feito um aborto, quando elas mesmas pregam a independência, a prevenção, o uso obrigatório de preservativo. Só que parece que essas mães, assim como nossa sociedade impiedosa, não sabem da realidade masculina de não aceitar o uso dos preservativos, com a velha desculpa do "chupar bala com papel".
- "Dê um fora no cara que não aceita!" - dirão alguns. Mas elas, as que dizem isso, na hora H aceitam... mas é muito fácil condenar os outros, melhor ainda, as outras.

Então, não estou aqui como apologista do nazi-fascismo (como me acusaram em outro site), não estou querendo raça ariana, muito menos querendo convencer as mulheres a abortar. Não estou fazendo campanha para que todas as mulheres abortem.  Queria apenas sensibilizar as pessoas de que a mulher tem o direito de ter assistência médica, como qualquer ser humano, na hora em que decidir não levar uma gravidez em estágio inicial adiante.

Concordar ou não, tb é direito de cada um.


Lílian Maial


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Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 05/03/2006
Reeditado em 28/09/2011
Código do texto: T118991

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Sobre a autora
Lílian Maial
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