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UMA VISITA SURPREENDENTE

de
CHE QUEVARA
e a
Transformação da sociedade
FLÁVIO MARTINS PINTO

Fundação BIBLIOTECA NACIONAL/MEC
Escritório de Direitos Autorais
Nº de registro: 332.524-Livro:590-Folha:184
Protocolo de registro-2004RS_332
A todos que se indignam contra aqueles que manipulam a mente humana para fins escusos e os que tentam justificá-la alardeando que é para a salvação do homem.
O autor
Esta é uma obra de ficção e os aspectos apresentados são mera coincidência.

UMA VISITA SURPREENDENTE
João foi procurado por um antigo amigo: era o Agnaldo, mais conhecido como MOCKBA, que a mais de 20 anos não via.
- Porquê chamam esse cara de MOCKBA, João?
- Ganhou o apelido, ainda nos velhos tempos, quando, no auge da influência soviética, perguntaram-lhe de onde vinha sua inspiração e respondeu que de MOCKBA, uma fonte brilhante de difusão de idéias socialistas. É que ele acreditava que era uma universidade ou coisa parecida. Não sabia que queria dizer Moscou em cirílico, o alfabeto russo. No mais, era uma palavra muito comum nos dicionários daquelas letrinhas estranhas que o fascinavam. Afinal, vinham da Mãe Rússia, a pátria do comunismo internacional. E dizia que sabia tudo de comunismo e ninguém se atrevia a desafiá-lo. Claro, com quase 1,90 metros de altura e cara e braços de estivador.....Delirava e não sabia de nada.
- Como tu eras, não é?
- É, tem loco prá tudo neste mundão de Deus. Mas não me sacaneia, Quevara. Ainda bem que agora tô noutra.
Nos velhos tempos, quando MOCKBA chegava com João nas greves insuflando as massas e nas passeatas....Era uma loucura. Tinha desenvolvido uma filosofia muito particular com sua fala mansa apesar de sua figura meio grotesca.
 Mas havia dado azar na vida, Quando tentava realizar seu sonho de estudar na Universidade Patrice Lumumba em Moscou, ao colocar os pés em território russo, Gorbatchev desmonta a União Soviética e o sistema da Cortina de Ferro comunista cai como um castelo de cartas, sem um tiro, desmantelando todo o totalitarismo comuno-soviético do leste europeu. Foi demais para ele, pois nem matriculado havia sido. Vagou durante muito anos nas casas de antigos amigos, sempre se escondendo com sua mania de clandestinidade e buscando as causas da queda. Achava que o comunismo era perfeito e não poderia cair. Andou pela Rússia, Polônia, Albânia, Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, Hungria. Chegou a perder a noção do tempo.
- É, nos cagamos para os capitalistas. Mas não vai ficar assim: vamos reconstruir tudo na América sempre dizia.
Fez de tudo um pouco, sempre na clandestinidade para não perder o costume, ajudado por ex-integrantes dos partidos comunistas do leste europeu. Na  Alemanha  brigou num sinal de trânsito com um alemão ocidental,  chamando-o de capitalista decadente e opressor por ter sido  ultrapassado por um Porsche 911 Biturbo quando dirigia um Trabant de um amigo comunista. Vingou-se quando o próximo sinal fechou e bateu de propósito no Porsche: só que o pára-choque do Porsche resistiu e o Trabant literalmente se desmanchou. Não é preciso dizer que teve de fugir da Alemanha para não ter de responder pelo prejuízo.
Aliás, era cisma sua com os Porsche- aquele carro representante-mór do capitalismo opressor do operariado, arre! Também detestava sorvete de casquinha.
Até que decidiu voltar ao Brasil e foi direto procurar as antigas parcerias.
A sua proposta para João, bem dentro de sua personalidade, era de organizar grupos para pressionar o regime opressor capitalista e também de candidatar-se a qualquer coisa..
- Tchê, achei que tinhas morrido.
- Não, João, mas voltei a tempo de derrubar esse regime capitalista amigo do FMI e do Banco Mundial. Ora se viu, um comunista amigo dessa gente? O petróleo é nosso!!
- Mas, MOCKBA, o petróleo é nosso e a Petrobrás é uma das maiores multinacionais do óleo do mundo, verdadeiramente transnacional. Uma potência internacional.
- João, mas era só o que faltava, não acredito. A Petrobrás multinacional? Desde quando? Agora é agente do capitalismo selvagem? O petróleo é nosso, O petróleo é nosso, O petróleo é nosso, bradava MOCKBA.
- Calma, índio véio, te acalma.Vamos dar uma volta.
- Sim , vamos matar a saudade dos velhos tempos: iremos até a refinaria revoltar os companheiros.
- Não dá mais para ir lá fazer o que fazíamos, MOCKBA. Agora ela é da YPF.
- Y o quê, João?
- Uma petrolífera multinacional hispano-argentina. A refinaria foi trocada por outra e alguns postos de distribuição de combustível da Argentina.
- O quê ? Mas logo na Argentina? Não poderia ser uruguaia pelo menos? Mas que falta de consideração. Esse capitalismo selvagem não tem pátria mesmo. Veja, de réles petroleiro cheguei a presidente do sindicato, parei cidades, parei o Estado e quase parei o Brasil. Deixei muito capitalista opressor sem combustível. E agora me vens com essa história que deram a refinaria para os gringos? O meu canteiro de lutas...E tu que quase enlouqueceste aquela vez querendo beber o reservatório de álcool...
- É, MOCKBA. Pra ti ver como eram as coisas. Olhe quem vem lá!!
- Grande MOCKBA! Quanto tempo. Onde andavas que nem tua família sabia ? Onde andaste?
- Grande Oscar, fui até a Mãe Rússia, beber na fonte.
- Na fonte de quê, MOCKBA?
- Fui ter nos braços de Lênin e voltei revigorado para retomar a revolução do petróleo-O petróleo é nosso! Mas aquele reacionário do Gorbachev  destruíu o império socialista e o meu sonho.
- Sim,  e daí?
- E daí que chego aqui e encontro esse governo capitalista unido ao FMI, Banco Mundial, que massacra os aposentados...mas que sacanagem.......
- Mas os todos teus amigos estão no governo, MOCKBA! Não te disseram?
- Não, e não. Um comunista não se alia a FMI, nem ao Banco Mundial, nem oprime aposentados, nem os funcionários públicos, nem coloca companheiros na guilhotina. Os capitalistas corruptos devem ter feito uma lavagem cerebral neles. Não é possível. Não são eles que estão lá. Tudo é mentira.
- Mas, MOCKBA, tenho um emprego agora e, como sabes sou engenheiro e preciso de um...
- O quê? Me ofereces emprego? Eu,  um defensor das massas, trabalhando como um burguês? Um comunista verdadeiro não foi feito para trabalhar e sim para buscar soluções para a melhoria da vida dos proletários.
- Ah, sim entendi. Começaríamos com a melhoria da tua vida, é claro!
- Sim, então me arranja um cargo de chefia no governo, pois dizes que é nosso.
- Nosso não, é dos teus amigos, bem entendido. Tanto que já misturaram tudo: partido e governo. Mas de quê entendes , MOCKBA, prá trabalhar no governo ?
- Simples: de tudo. Sou militante comunista e pronto. Tenho carteirinha, pago o partido em dia e basta.
- Mas desde quando pagas o partido se és funcionário dele?
- Isso é um detalhe, não me enche o saco, Oscar. Já tô achando que tu é capitalista expoliador!
- Não mudaste nada. No que me toca, fiquei aqui e vou continuar na minha. Já fiz uma análise da minha vida pregressa e cheguei a conclusão que devia estudar e trabalhar. Já estava com quarenta anos só promovendo agitação e sem futuro garantido.
- Promovendo agitação? Estavas era auxiliando o progresso da consciência coletiva do proletariado. Preparavas o caminho para a plena assumção da vida política das massas desgovernadas. O teu papel era  de conscientizador e amalgamador da vontade marxista.
- Isso é conversa prá boi dormir, MOCKBA. Só fazíamos agitação e usávamos os operários e estudantes como bucha de canhão. Deixa disso e fala sério.
- Ta bem, mas tem outra, como fui perseguido vou solicitar uma indenização por danos morais. Claro, não? Os nossos tem a chave do cofre ou não tem?
- Desde quando foste perseguido, MOCKBA? Muito pelo contrário, o quê achacaste de jovens  á força  não está no gibi!
- Mas e os outros... quantos já ganharam... e eu nada? Quero o meu, Oscar e o resto é que é conversa.
- Pois é, MOCKBA, teus antigos amigos conseguiram o impossível: fundaram um partido sustentado por verbas do governo, se sustenta com a porcentagem dos cargos de confiança, quase 150 mil, segundo dizem, e agora vai ter financiamento da campanha eleitoral. Que mamata, hein?
- Mas como, que mamata? Com isso não precisamos fazer rifas, nem sorteios, nem ..mas posso garantir que podemos atuar pelo povo com toda tranqüilidade..
- Sim, o teu partido foi organizado com base nos funcionários públicos, não é?
- E daí,Oscar? Tu não fizeste parte dele?
- Sim, mas fiz minha autocrítica e caí fora. Saí da caverna , MOCKBA.
- Olha para teu rabo, cara......
- MOCKBA, olhe o respeito.....
- Mas que respeito? Um comunista nato é sustentado pelo governo, uma fonte recepientária nata das necessidades dos combatentes socialistas, não sabias? Assim, devo ter um emprego...
- MOCKBA, pelo que  senti queres mumu, mas pra cima de mim, não.
- Bom, deixa pra lá. Vou então vou consultar as minhas bases para conseguir a indenização.
- Tu és louco, mas de sem vergonha. Desde quando mereces tal indenização?
- Olha, o Oscar, o Mateus, o Daniel,  Leonardo, Honório e a Estela estão lá dentro do fedor. Tão com tudo eles e não vão me negar esse auxílio. Descobri que o Gustavo é o encaminhador dos processos.  A Comissão é toda nossa. Até o Apolo ganhou uma baba.Te mete., hein? Tô com tudo. Será mais fácil que empurrar bêbado em ladeira.
- Isso é uma vergonha, até para um comunista. Roubar o próprio povo com indenizações mentirosas, pois, afinal das contas, esse dinheiro sai do Tesouro Nacional. É do povo. É preciso não ter o mínimo de caráter e escrúpulo para aceitar essa situação.
- Que Tesouro? Que indenizações mentirosas, Oscar? Que escrúpulos? Por acaso não mereço? Se meus amigos estão lá o Tesouro é nosso. Até o Daniel ganhou, não é?
- É, pois é. Seria como fazem na China mas ao contrário: ao fuzilarem malfeitores , a família tem de pagar pelas balas e vocês fazem algo parecido. Assaltaram, seqüestram, justiçaram, roubaram e tentaram destruir as instituições pelo terror. Agora cobram a fatura do governo...prá mim é demais.
- Sem essa, Oscar. E outra, se engrossarem, tenho o Marcito e o Comprido na mídia. Ninguém me segura. Basta dizer que fui torturado, maltratado pela ditadura militar e pronto. Vou faturar uns trezentos contos e uns dez por mês, fácil, fácil. Que achas?
- Com esse dinheiro até comprava meu sonho de consumo. Mas não sei se teria coragem.
- Qual é o teu sonho? Montar um spa socialista?
- Um Porsche, um Porsche Biturbo, MOCKBA.
- O quê, aquele monumento consumista capitalista? Arre, sai da frente capitalista safado e corrompedor. E saiu largando palavrões para todo lado.
-   Mas porque ele não gosta de Porsche? Aquele carro espetacular, João? perguntou Oscar.
- Amigo velho, certa vez ele estava viajando, melhor se arrastando com o Trabant -a jóia rara da catigoria do metalúrgico socialista e a obra prima da indústria automobilística  concebida por Lênin e Stalin como dizia - numa autobahn. Ao parar para urinar na estrada deixou a porta aberta e passou um Porsche a uns 200 por hora e só com o deslocamento de ar arrastou o Trabant  pra dentro de um brejo. Foi um estrago só. Logo após teve o incidente no sinal de trânsito.
- O que é? Estão me sacaneando? Fala MOCKBA retornando
- Mas o que houve com o Trabant , afinal, MOCKBA? Pergunta Antonio Armando.
- É, fui sacaneado por um capitalista opressor, mas isso é um detalhe.
- Acho que Quevara vai ganhar mais um cliente, mas esse não, pensou João.

FLAVIO MPINTO
Enviado por FLAVIO MPINTO em 09/03/2006
Reeditado em 07/08/2006
Código do texto: T121054

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Sobre o autor
FLAVIO MPINTO
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 65 anos
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