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GAROTA EM TRANSE

Tudo parecia novo e improvável para ela quando a conheci - meio que no susto -, pelas salas de bate-papo da Internet. Depois, fiquei me perguntando o que ela fazia ali, se na hora do vamos ver, ela engasgou e começou um discurso moralista, que ela era diferente das outras, que era uma menina decente, família, essas coisas que a gente já está acostumado a ouvir.

Além disso, fui descobrindo também que ela acabara de optar pela desculpa básica: amizade. Ela estava à busca de amizades, fazer novos amigos, conhecer pessoas, estas coisas. Achei meio enjoado aquele papo, mas, pelo menos, ela ficara no meio termo das três possíveis opções para quem entra em salas de bate-papo: zuar, fazer amizades e sexo.

O caso dela não era nem a vazão do apetite sexual dos comandados por Eros nem a zueira adolescente dos que não têm o que fazer e optam por matar o tempo nos papos virtuais sem sentido.

Mas, buscar novas amizades? Faça-me o favor! Ela ficara na resposta mais insossa de todas. Uma evasiva filha da puta que não definia nada e ainda a infantilizava muito, quando, na verdade, acabara de completar seus dezoito aninhos.

Fiquei pensando nisto e meu coração descansou ao dar-lhe o crédito de certa ingenuidade estudada, o que emprestava um atrativo a mais no meio de tantas meninas moderninhas, estilosas, que partem para dentro, à caça de seu homem, sem se preocupar com conseqüências. Pelo menos ela não estava a fim de queimar etapas, mas seguia como manda o figurino Vitoriano e pretendia, quem sabe, arrumar um casamento.

O contraditório disso tudo era que ela tinha um namorado. Um namorado?! Porra havia um cara na vida dela que dominava seus anseios e emoções e eu não estava gostando nada disso. Era para este cara que ela concentrava seus anseios de menina-moça, no desejo pueril de chegar ao altar de véu e grinalda e um longo vestido branco de cauda. Teria que vencer este embate...

Some-se a isso, uma formação evangélica que a prendia a certos comportamentos antiquados e a fazia recusar tudo o que fosse novo e pudesse comprometer seus valores, tão solidamente estabelecidos.

Até o dia em que ela decidiu ler um conto que escrevera e disponibilizara em uma página na Internet. A partir daí tudo mudou...

Ela viu ali a descrição da alma feminina feita por um homem. Ela percebeu o carinho e o romantismo com que tratava meus personagens femininos. E ela desejou estar no lugar de Déborah, Chelli, Alice, Camila, Nayara e tantas outras figuras femininas que compõem a galeria de tipos que fui construindo literariamente.

Foi nesse instante que alguma coisa começou a mudar em seu coração. Ela se identificara comigo e passou a ver em mim alguém que lhe dava algo que seu namorado não oferecia: carinho e compreensão. E ela se tornou minha amiga. Neste ponto, estava seguro de ter-lhe conquistado a confiança e de tê-la trazido para o meu universo, despertando nela desejos adormecidos na esterilidade canhestra da sua libido de mulher.

- Quem sabe troque meu namorado por você?!

Ao ouvir-lhe, certa vez, dizer isso meu coração disparou e vi nascer em mim a esperança de um dia poder amá-la. Havia uma chance, uma possibilidade, e ela demonstrara isso, no instante em que aventara a hipótese da troca. Percebi que já não estava tão segura assim com relação aos seus sentimentos para com o namorado, mesmo que aquilo não passasse de uma brincadeirinha de sua parte. E ela me deu um presente...

Quando a foto de Keli acabou de abrir na tela do meu micro, vi que estava diante de mim a coisinha mais doce que já tinha visto. Keli estava linda, numa evolução sensual por um calçadão qualquer da Zona Sul do Rio, jeito de moleque, ar de menina sapeca, cheia de vitalidade, trazendo no corpo a fonte inesgotável de prazer que uma mulher na sua idade tinha de mais valioso.

Mas ela não gostava de ser tratada por mulher. Era virgem. E queria ser menina. Ainda que por pouco tempo! Pois minha menina preencheu-me os olhos e aprofundou-se para dentro de mim, como aquela menina graciosa, tipicamente brasileira, que com desenvoltura de garça em pleno vôo, planava etereamente nos devaneios que àquela altura me fazia ter.

Keli devia ter seus 1m69cm de altura, cor morena, naquela mistura de raças que só se encontra no Brasil, corpo de top model com tudo no lugar, conforme a foto estampada à minha frente denunciava. Seios fartos, porém, não extremamente volumosos que lhe destoassem do conjunto harmônico de seu corpo, Keli trajava uma blusa branca tipo collant, que lhe ressaltava os contornos do busto; e uma calça de brim, também branca, que demonstrava as reentrâncias curvas da parte de baixo de sua linda anatomia feminil.

Percebia-se o seu bom gosto na escolha do que vestir, pois estava elegante e a cor branca da roupa valorizava a tez morena que me encantava. O jeito gracioso e elegante de Keli era um detalhe à parte, pois se via nela uma leveza e candura, que despertava vontade de apalpá-la e retê-la junto de mim, como alguém que acabara de encontrar um rico tesouro.

O suporte do disc-man na cintura e o headphone no ouvido denunciavam certa informalidade na foto que era típica de quem estava passeando ou de quem apenas curte a vida, sem maiores preocupações, amparado pelas costas-quentes dos pais que provisionavam todo o necessário para a sobrevivência.

Olhava para aquela foto e sonhava com o corpo perfeito que a mãe Natureza havia desenhado. Keli possuía rosto de ninfeta em transes afro-descendentes para desbancar qualquer Naomi Campbell das passarelas da vida. Os cabelos, sempre bem cuidados, ofereciam tranças harmônicas que caíam longitudinalmente sobre a nuca, emoldurando um rosto belo como a noite. Os lábios grossos e bem torneados eram convidativos a beijos eternos na utópica emoção de sugar-lhe o mel de amor que destilava dos favos da paixão. O nariz afilado seguia os contornos das maças do rosto, em traços finos e delicados que abeiravam a perfeição. E os olhos? Os olhos eram perscrutadores e misteriosos, tentando bisbilhotar o mundo à sua volta, como se no instante fugaz ao seu redor pudesse captar a mágica do amor que sustentaria sua vida até o fim.

Mas, o que dava o realce supremo a este conjunto harmonioso que se chamava Keli era o seu sorriso. O sorriso espontâneo e verdadeiro que se estampava em sua face, apresentava ao mundo uma menina de bem com a vida, alguém alegre, entusiasta, aberta para o mundo e desfilando jovialidade e graça sob meus olhares gulosos e sedentos de amor. Keli era a fina flor do jardim do Paraíso que meu instinto de macho latino desejou colher. Mas, Keli, era uma flor delicada que não poderia ser colhida de qualquer jeito; caso contrário, ela murcharia e se apagaria o belo sorriso de seu rosto.

Keli era flor que precisaria ser transplantada do jardim da vida para o jardim particular de um homem que pudesse ser o jardineiro zeloso de sua existência. Não tinha dúvidas: este homem era eu! Estava convencido de que somente eu, com meu jeito de ser e veracidade de meus sentimentos, poderia fazer de Keli a flor sempre bela e viçosa a preencher a vida com suas formas, sua cor e seu perfume.

E desejei ardentemente alcançar este posto no coração de Keli. Mas, como alcançá-lo? Conseguir traçar este perfil de Keli não foi fácil, pois, muito arredia, hesitava sempre na conveniência de me mandar uma foto.

- O que você vai fazer com a minha foto?

Não sei que tipo de pensamento passa pela cabeça das meninas que fazem perguntas como essa e regateiam quando lhes é solicitada uma foto. Algumas têm medo de que suas fotos apareçam em páginas na Internet de sites não muito recomendáveis e manchem sua reputação. Outras que o pedinte insistente as usem como estímulo erótico para o seu prazer solitário. Mas, se eram possuidoras de tais receios, por que, então, produziam fotos sensuais? Por que se davam ao luxo de produzir essas fotos, se tinham certeza de que as mesmas seriam requisitadas com avidez pelos machos? O fato é que essas meninas tinham o sobressaltado prazer de serem vistas, contempladas, apreciadas e desejadas, e isto lhes servia, com os elogios decorrentes, como massagem no ego, talvez carente em função de alguma desventura da vida real.

Mas, este não era o caso de Keli. As fotos dela eram comportadas, decentes, e o que atraia os olhares para o seu corpo era o não-visto, o apenas entrevisto, idealizado, sonhado e desejado naquele instante mágico de contemplar um belo corpo feminino. Os receios de Keli eram voltados para pudores e medos ancestrais, religiosos. Saber-se flertando com um cara na Internet, esboçando qualquer palavra mais carinhosa, mesmo que neste plano virtual, era-lhe já uma traição inconcebível para com o namorado. Mas ela começava a achar que havia alguém mais que poderia fazê-la feliz...

As certezas de Keli começaram a ruir no instante em que ela se abriu, com o coração derretido, para ouvir e assimilar os meus galanteios. As palavras têm um poder que nem sempre conseguimos mensurar. Palavras têm poder destrutivo, e é assim que funciona com crianças que são sistematicamente chamadas “burras”, “imbecis” “imprestáveis”, “bagunceiras” e que acabam assumindo o comportamento que a pecha que lhes foi imposta propunha; bem como têm poder construtivo, à medida que encorajam, estimulam, aconselham, levantando a moral do abatido e lhe dando um pouco mais de esperança na vida.

Com Keli, minhas palavras afetuosas tiveram o efeito de penetrar fundo em seus sentimentos, deixando-a em suspenso sobre que tipo de homem estava por trás daquelas palavras tão doces, tão suaves, tão românticas:

- Cacete! Ainda existe homem assim?

Por trás dessa sua indagação, a convicção de que a sociedade não tem produzido mais homens românticos, acolhedores, atenciosos, mas somente homens bonitos, interessados só em sexo, mas num sexo apressado, animal, mais voltado para o prazer próprio do que para a satisfação da mulher.

Ela viu em mim algo novo que os homens com os quais convivera não ofereciam e, com grande probabilidade de acerto, imaginava que seu namorado também. Comecei a perceber que sombras de dúvida começaram a pairar nos pensamentos de Keli. Seu receio de me enviar uma foto foi transformado na expectativa de saber o que eu achava dela fisicamente também. E assim, ela mandou não só uma, mas duas, três, quatro fotos, sempre com a requisição de que enviasse a minha, mas isso ela nunca conseguiu. Para tudo funcionar sem sobressaltos, sem o risco de frustração, de fazer ruir o castelo dos sonhos que ela passou a ter com o personagem que ela própria construíra de mim a partir de minhas palavras, era vital não mandar-lhe a minha foto. Não que eu não confiasse em minha estampa pessoal, na minha beleza elegância e poder de sedução, mas para que não mudasse o referencial. Estou satisfeito, desde já, com a forma como ela me aceitava e me idealizava. Quebrar este encanto só mesmo num encontro pessoal, quando teria a chance de, com palavras, gestos e ações, - e não na frieza de uma foto -, poder influir a meu favor na conquista total e plena de seu coração.

E a cada foto que ela me enviava, já emitia meu parecer sobre ela de imediato, o que, percebia, ia embevecendo-a e deixando-a, de certa forma, enamorada, se não por mim, mas, pelo meu jeito de ser. Para ela já me constituíra numa pessoa interessante que, no mínimo, merecia ser conhecido mais de perto. Prometi-lhe que escreveria um conto para ela se ela fosse mais generosa com sua foto. Ela indagou assustada:

- Que tipo de conto?
- Pode ser erótico, sensual ou romântico.

E, sem dar-lhe chances de escolher, completei:

- Para você tem que ser um conto romântico com algumas pitadas de sensualidade...

Já conhecia o seu temperamento e não faria algo que destoasse de sua personalidade.

- Sensualidade? Como vai ser isso?

Ela ficou preocupada com o tom de sensualidade que eu daria ao conto. Mas, não poderia omitir isso, pois ela era uma garota sensual e isto, minhas próprias palavras, denunciariam.

Foi quando eu lhe perguntei se ela tinha uma foto mais sensual, de biquíni, por exemplo, para que eu pudesse construir melhor os aspectos físicos da Musa de meu conto. Mais uma vez ela hesitou:

- Tenho sim, mas de biquíni nunca mandei para ninguém!
- Então vai ser a primeira vez. Preciso dela para os detalhes do personagem.

Ela hesitou, mas a possibilidade de me enviar esta foto passou a existir. Eu prometi que escreveria um conto lindo, que traduzisse sua beleza e a emoção que sua existência passou a me emprestar desde que a conheci.

Finalmente a foto chegou. Ela estava linda, deslumbrante, naquele minúsculo biquíni que me levava a desejar aquele corpo de sílfide. Enviei-lhe trechos do conto para aguçar seu interesse. Ela se encantou com o tratamento que dei ao personagem. E, quando lhe propus o encontro, ela já estava totalmente apaixonada e vivendo uma crise interior na possibilidade de ter que abandonar o namorado por outro que, só agora, estava prestes a conhecer pessoalmente.

No dia e horário combinado peguei-a em sua casa. Quando ela viu o Mercedes Benz conversível estacionando em frente ao portão, desceu rápido as escadas do velho sobrado, vindo ao meu encontro, num vestido longo de cetim preto, preso com alças nos ombros. Estava maravilhosa. Entrou no carro. Viu o meu rosto pela primeira vez. Desvendou o mistério do ser por trás das palavras e ofereceu os lábios para um longo e apaixonado beijo.

Fomos a um restaurante e em seguida a um Motel, onde nossos segredos foram desvendados no Universo da paixão. No outro dia, ela ligou para o Bruno, encerrando aquele ciclo para dar seqüência ao primeiro dia do resto de sua vida, que se inaugurara com pompa e circunstância no dia anterior.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 10/03/2006
Reeditado em 13/04/2006
Código do texto: T121182
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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