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Planos para matar uma bruxa.

Estava tudo armado. Ela deveria ir pra vala no dia trinta e um de outubro, dia das bruxas. Esse seria o meu presentinho para aquele diabo encruado. Já não suportava mais aquela velha nojenta pisar o meu calo o dia todo, deixando a noite para eu ter pesadelos com ela. Meu amigo Nego Bom (eu não sei se é bem assim: amigo e bom) deveria fazer o servicinho sujo. Combinei que na festa da empresa ele seria o churrasqueiro. Eu sei que o Nego não entendia nada de churrasco, apenas de comer e fazer mal e porcamente umas galinhas roubadas, numas panelas também roubadas dos incautos do meu bairro. Porisso ele entraria no segundo tempo, quando todos já estavam “altos de muito álcool no sangue”.

Falei pra ele no churrasco que a desgraçada que deveria comer do espeto com a carne envenenada, seria aquela que gesticulava pedantemente e não parava de falar. Olha Nego – eu disse – a carne tem que estar mal passada, sangrando, ela gosta de sentir o gosto de sangue nas peçonhas. Capricha senão ela te enfia este espeto goela abaixo. Ele disse que antes arrancaria as tripas dela. Eu disse pra ele "segurar a onda", que o “troco” dele pelo serviço já estava separado.

Deixei-me estar no churrasco, estava ansiosímo pra vê-la estribuchar. Conversava com todos cordialmente para maquiar a podre e pérfida intenção. Para abrandar a ânsia e também até para começar a comemorar, pedi ao garçon que me trouxesse uma generosa dose do “cavalinho branco”, pois eu estava muito afim. Tomei umas, umas, umas e outras, outras, outras...

O diabo trabalha de dia e de noite, já dizia meu avô que tinha parte com ele. Pois a megera se dirigiu docemente a mim. Disse que eu era o cara mais simpático da empresa. Chamou a filha – uma princesinha, que eu conhecia de vista e há muito desejava – e me apresentou. Disse que eu que era homem ideal pra namorá-la e não aqueles boyzinhos imaturos que vivem cultuando o corpo, esquecendo-se da mente. Papo vai, papo vem e a gostosona parou na minha e começamos ali mesmo a nos pegar. Esquecei-me do Nego Bom e do meu plano. A velha arrancou da maneira mais engenhosa o ódio que me movia.


Quando senti a língua quente passar pelos meus lábios achei que estava acordando no paraíso. Achava que ainda estava sendo amado pela bonitona. Abri os olhos e vi aquilo peludo a me lamber. O que fiz foi dar um soco na cadela que me lambia (depois até fiquei com pena – o animal apenas quis ser carinhoso). A festa havia acabado. Todos haviam ido embora e eu não agüentei o tranco e adernei ali no estacionamento, atrás do meu carro. Sobrou-me a esperança do sucesso do plano. Resolvi passar no barraco do Nego Bom. Não estava.


Soube que o Nego estava namorando a gostosona, filha da megera e que andava freqüentando a casa e até tomava banho na piscina, com uma ridícula tanguinha, tipo tigrinho.

Eles não perdem por esperar. Agora serão três na vala. O diabo trabalha de dia e de noite, mas é velho e não é dois.
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Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 18/03/2006
Código do texto: T124809
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Sobre o autor
Joel Rogerio
Colatina - Espírito Santo - Brasil
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