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menino morto de portinari

suspenso no ar
voa o menino morto de portinari.

o cadáver árido da terra
figura a crença
do absurdo lírico dos meninos de brodósqui.

outros meninos brincam de ainda ser criança em outras partes do
                                                                          [universo,
mas aquele menino particularmente
não era uma criança,
era um amontoado vermicular de fome no estômago
e dois bracinhos nervulentos que buscavam abraçar o peito baço da
                                                                            [esperança
depois de vomitar esfomeadamente o pus dos intestinos
e encharcar a terra da vontade do leite,
do pão e da aguardente.
os dentes podres
roíam as próprias cáries suspensas, e salivava alguma coisa que não
                                                                          [era a saliva,
mas também a vontade da saliva lambuzava a língua e os beiços
e o coração pequenino, que encolhia à medida que cessava o sonho de
                                                               [encontrar a terra fértil,
os meninos de brodósqui,
onde corre leite e mel
ou talvez algum desembaraço, algum bagaço, alguns bocados de
                                                              [verdidez de chão
e o chão batido da casinha com panelas.

suspenso no ar
voa o menino morto de portinari.

não escolheu morrer,
morreu,
fatidicamente morreu de gula, penitência e alheamento.

quando exposto aos olhos
as pessoas que olhavam calaram,
mas quem cala consente,

e seis meses depois, a menina que chorava aconchegando a cabeça
    [dele entre lágrimas dentuças, morreu de aflição enquanto a mãe
                                                            [rezava uma ave-maria
pra jesus,
cheios de dor,
os outros se recolheram em fissura de ilusão,
mas a ilusão, fatidicamente, não existe.
não existe.
não existe.
não existe.
não existe.

suspenso no ar
voa o menino morto de portinari
enquanto o seu corpo busca agonicamente compreender o que seja a
                                                                                   [morte.
andré boniatti
Enviado por andré boniatti em 28/03/2006
Reeditado em 28/12/2012
Código do texto: T130022
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
andré boniatti
Corbélia - Paraná - Brasil
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