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AMÉRICA: CARNAVAL E CINZAS

Novamente os escaninhos da memória,
o inconsciente revisitado.

José Larralde, campeador pampeano,
deflora os ouvidos
em sua permanente denúncia
do gaúcho embretado na cidade,
libertando asas campesinas
em minhas atávicas raízes.

Telurismo. Que bonita e séria palavra!
E a liberdade tem cem anos de solidão,
morando em Macondo,
aldeia global de García Márquez
– não sei se com “esse” ou com “zê” –
só o sei sul-americana voz.

Ah, minha pobre América Latrina!

Só a voz dos cantadores nativos,
dos contadores de causos,
perpetuam o teu explorado território!

E de lança na mão, atávicos gritos do Inca
(em que províncias espirituais andam esses
antigos donos da terra?),
num alarido rústico de cavalaria em pêlo,
vão levantando Sepé, que havia morrido em três luas
antes do combate do Caiboaté,
na mesma cova pampeana de Cacambo,
morubixaba da República Guaranítica.

E aos gritos, choro da terra,
vão gemendo lamúrios contra o invasor.

II

Ainda hoje, nas canhadas e nas várzeas
da pampa internacional, o sangue forma poças.
Do Altiplano à Antártida
as gaivotas rumorejam: América!

O dia, como um facho, atravessa a janela,
e o vinho, sangue vivo do suor de América,
assentou liberdades.

III

Oh, dançarina nua que se esconde
nos tambores dos ouvidos!
Amargura que transita iluminada
nas paredes do quarto.

Paredes em agonia, estampada máscara.

Rugas do rosto,
em que vielas caminham pés descalços?

Ai fonte de lucidez
transporta ao lugar comum da vida,
estampa o confete da alegria,
repleta e permanente.

Ai bandas sons búzios negros de solidão,
façam dançar pular afastando a dor do dia!

Fantasia o bobo-da-corte,
menestrel rindo da cara do Rei,
veste o irônico traje de imperador inca,
ornado de prata!

Ai América, rica de canções,
nem o olor das espoliações te fará estrangeira!

Pacífico, Atlântico dos poetas,
Afundem navios carregados de bombas!

IV

Ai Carnaval, festa do pobre povo deste país,
suja de chocolate
a cara mascarada das crianças.

E tu, Satã, que iluminas a orgia dos pensadores,
enfia fantasias nos sonhos de ser rei
e dono-de-si
na cadência paradisíaca do samba.

– Do livro O EU APRISIONADO. Porto Alegre: EditorArt – RB Editor, 1986, 29 p.

– Este poema foi criado entre 01 e 26 de julho de 1981, período de prisão política do autor, quando Capitão PM da ativa, recolhido ao quartel do Regimento Bento Gonçalves, da Brigada Militar do Estado do Rio Grande do Sul, nos estertores da ditadura militar de 64.

http://www.recantodasletras.com.br/poesias/131540
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 31/03/2006
Reeditado em 24/03/2010
Código do texto: T131540
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709737 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 20:26)
Joaquim Moncks