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Incêndio na Caixa d'Água

        E então aconteceu o que nem o leitor vai acreditar: a caixa d’água do sítio pegou fogo. Sim, é verdade o que está grafado nestas linhas.
 
Além do quê, tudo começou bem cedo, quando faziam um churrasco de domingo. Os cozinheiros sofriam para acender a churrasqueira, tentavam de todas as maneiras, já tinham tentado com uns pães duros de quinze dias, mas o máximo que conseguiam era dar banho de álcool no carvão. Daquele jeito não dava, as mulheres já reclamavam, as crianças choravam de fome e os demais convivas reclamavam de prato na mão, não conseguiam mais se manter só na farofa, no pão com vinagrete e na cerveja, eles queriam picanha, lingüiça, costela, queriam mastigar, queriam carne assada. Enquanto lutava-se para atiçar nem que fosse uma fraca chama ali na churrasqueira, na caixa d’água, postada no alto dum poste acima do banheiro, desprendia um cheiro de queimado.
 
Começou com o odor da fuligem, depois evoluiu para uma fina fumaça, um fumo acinzentado que se enrolava nos ares, e então apareceram as primeiras brasas. Delas, levantou uma chama fina, contorcendo-se como uma cobra cega envenenada. Alimentada pela brisa, a chama logo virou fogueira.
 
Começou então o corre-corre. Os avós e tios-avós foram removidos às pressas do ambiente, a fumaça poder-lhes-ia atacar a asma, comprometer o enfisema, dar um ataque do coração e inflamar os joanetes, embora ninguém tivesse um embasamento científico claro sobre isso. Depois foram as crianças, elas poderiam se machucar naquele incêndio, mas as mesmas começaram a pular, gritar e chorar, escapando de sua proteção com mordidas, pontapés, beliscões e pisadas, pois elas queriam ver a caixa d’água pegando fogo.
 
Numa assembléia informal entre as mulheres, ficou decidido em unanimidade que a parcela masculina deveria se responsabilizar pelo fogaréu. O tio mais novo, recém-saído do seminário, há poucas semanas ordenado padre, pegou do seu crucifixo e tentou exorcizar a caixa, argumentado que aquilo só poderia ser uma artimanha de Lúcifer. Um dos cunhados chatos, pastor protestante, falou que o culpado era o padre, aquele incêndio sobrenatural era culpa deles e de todos os católicos, aqueles pulhas que viviam adorando imagens e seguindo um falso profeta vestido de branco que morava no Vaticano. Brigaram os dois.
 
Uma das cunhadas, espírita essa que comprava todos os lançamentos em livros psicografados, disse que aquilo era normal, que existiam espíritos zombeteiros que viviam soltos pela terra, pregando peças nos encarnados. Tanto padre quanto pastor argumentaram que aquilo era bobagem. O tio cientista, físico professor da UNICAMP, dizia que aquilo não tinha como acontecer, era inconcebível que a água não apagasse o fogo. Ao que a sobrinha adolescente, uma ametista pendurada no pescoço, anéis nos dedos e incensos no bolso, afirmou categoricamente que aquele fenômeno era possível sim, pois bem poderia a água da caixa estar mais energizada que o fogo, e por isso ela o repelia, segundo princípios duma física mística que parecia não fazer sentido.
 
Consumida pelas labaredas, a tampa tombou na gramado da casa, quebradiça, quase um pedaço esturricado de carvão. E as chamas continuavam avançando, sem medo da sua maior inimiga desde o início dos tempos.
 
Uma nuvem de vapor d’água agora emergia do incêndio, misturada à fumaça. A água ali ilhada pelo fogo chiava como uma panela de pressão cozinhando feijão, fervilhava com colinas e mais colinas de bolhas.
 
- Ei, tá fazendo barulho de panela de pressão! Parece até que tão cozinhando uma panela inteira de feijão...epa, mas tão cozinhando feijão! Sente só o cheiro!
 
Um aroma apetitoso de feijão bem temperado inundou o sítio inteiro. Mas como, será que algum engraçadinho tinha jogado uns grãos lá dentro para ver se cozinhava? A caixa d’água se assemelhava tanto a uma panela de pressão que, pelos seus inúmeros remendos, cuspia um jato de vapor quente.
 
O cunhado bêbado e chato(todas as famílias tem um, até a do leitor, aposto), acordando do seu sono ébrio, levantou-se trançando as pernas e alisando o bigode frondoso, ignorando totalmente a caixa d’água em chamas. Dirigiu-se ao banheiro, alheio à confusão.
 
- Ói, oceis são tudu uns bosta, uns medroso! Afiná prum negócio desse? Eu num tenho medo di nada dessas bosta, i vô no banhêro i nem é pra cagá di medo!
 
Mas a cerveja e as caipirinhas deixaram sua visão de tal maneira obscura que ele não percebeu a névoa que escapulia por entre a fechadura e as frestas da porta. Não ficou nem sessenta segundos dentro do toalete, saiu de lá desesperado, as calças ainda arriadas, só de cuecas:
 
- Oceis são tudu uns bosta! Eu vô matá o lazarento morfético qui mi sacaniô!
 
Dentro do sanitário era uma verdadeira sauna úmida, cheirando a eucalipto. Seus rolos de vapor praticamente envolveram toda a casa do sítio, umedecendo todos os cantos. Ficou tão abafado ali que precisaram trancar a porta e vedá-la com fita isolante.
 
Os homens tentavam controlar o avanço das chamas, até que o poste, espontaneamente, começou a tremer, sacudido com alguma força invisível. Tremeram de medo, e fugiram para trás das bananeiras. Um gêiser levantou-se do meio das chamas, cuspindo uma coluna fervente de água sulfurosa. A fumaça amarelada que apareceu para acompanhar a fuligem e o vapor, segundo alguns, fedia a ovo podre, mas uma tia professora falou que era enxofre, e era muito bom para os pulmões.
 
O incêndio perdurou até o anoitecer. Munidos de uma mangueira enorme, cortesia do tio bombeiro, o incêndio foi debelado com jatos violentos, e dele só restou a fumaça e umas brasas assoviando. O duro foi que, antes de bombardear a caixa, a mangueira encharcou a churrasqueira, frustrando os planos de assar as carnes. Mas não havia nada de mal, o incêndio até foi benéfico para o sítio, pois as torneiras e o chuveiro ficaram com água aquecida por vários dias ainda, sem precisar gastar nem uma fagulha de energia elétrica.
 
Com a churrasqueira alagada, guardaram-se as picanhas e costelas no refrigerador. Mas, como na segunda-feira era feriado, decidiram fazer lanches à noite. Trouxeram uma chapa, ligou-se o fogão e abriram-se várias garrafas de cerveja, uma vez que ninguém precisaria se preocupar em acordar cedo no dia seguinte.
José Marcelo Siviero
Enviado por José Marcelo Siviero em 08/04/2006
Código do texto: T135788
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Sobre o autor
José Marcelo Siviero
Araras - São Paulo - Brasil
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José Marcelo Siviero