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Soneto de um Mendigo

 
Não sei muito versejar,
Aprendi à rimar observando os poetas nos bares,
Bares onde eu peço esmola, onde desperto olhares,
Pois tenho que viver, tenho que me alimentar.

Aprendi a ler e a escrever num orfanato,
Nunca tive pai, nunca tive mãe, nunca tive família,
Tais parentes que poderiam ter me dado amor e alegria,
Mas, por motivos que desconheço, fui abandonado.

Agora, deitado sobre o papelão, conto o meu dinheiro,
Dinheiro que consegui durante todo o dia: meras moedas,
Pedindo a um velho, pedindo a um jovem, ao povo inteiro,
Hoje até foi um bom dia, consegui onze reais para o moedeiro.

Amanhã posso comer um pouco mais quando acordar,
Talvez dois pães acompanhados de uma xícara de café,
Acordo muito faminto, como o que me derem, como o que vier,
Também tenho que economizar, a fim de que possa também almoçar.

Bons tempos eram quando ficava esmolando perto de um shopping,
Os usuários olhavam-me com desprezo, mas as esmolas eram boas,
Porém, tive de sair de lá, fui chamado de vagabundo pelas pessoas,
E a polícia humilhou-me, espancou-me, e dali severamente expulsou-me.

Sabe o que mais gosto de fazer?
É de ficar deitado sobre o papelão contemplando as estrelas,
São tão claras, tão limpas, tão perfeitas, tão belas,
Ah... se eu pudesse ir para uma delas, para em paz puder viver.

Apenas não gosto quando chega o inverno,
Começa a chuva, o frio, a dor, a tristeza,
A natureza suprime o que tem de maior beleza,
E o silêncio some, as estrelas somem, é um Inferno.

Tenho de ficar debaixo das marquises das lojas,
Concorro com os meus colegas de ofício,
Que procuram um local sêco em qualquer edifício,
E em último caso, fico embaixo até de uma lajota.

Pois bem, caros leitores, vou parando por aqui,
Amanhã volto a minha sofrida jornada,
Jornada que preferiria que fosse usando tão somente a enxada.
Mas o que posso fazer, se emprego não pude adquirir?

Meu Deus, como essas estrelas são lindas...
São elas que me dão consolo, prazer, alívio,
Pra essa vida de sofrimento, de martírio,
Espero vê-las amanhã à noite, ainda.



* Todos os Direitos Reservados pelo Autor.
Fábio Pacheco
Enviado por Fábio Pacheco em 13/04/2006
Reeditado em 14/04/2006
Código do texto: T138263
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Sobre o autor
Fábio Pacheco
Recife - Pernambuco - Brasil
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Fábio Pacheco