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Sonhos de uma Prostituta da Praça do Diário


Costumo colocar a minha roupa de trabalho às seis da noite,
Pinto-me com muito cuidado, a pintura esconde as rugas,
Disfarço as minhas estrias e celulites usando calças justas,
Calço os meus saltos altos, os quais garantem ao menos uma pernoite.

Olho o meu relógio de pulso: são seis e quinze,
O expediente já começou lá na Praça do Diário,
Mas hoje eu acordei com um grande mau estar,
Suponho que deve ter sido um dos meus remédios,
Tenho Aids e, para sobreviver, sou obrigada a toma-los,
Fui contaminada por não ter usado preservativos, por não ter tido critérios,
Agora, forço os meus clientes a se protegerem e a usa-los.

O meu maior sonho é poder sair dessa vida,
Poder ter uma família, vários filhos, um marido,
Poder ter um amor, um carinho, um abrigo,
Mas acho difícil isso acontecer, a juventude deixou-me,
Tenho quase cinquenta anos, o trabalho secou-me,
A doença absorveu-me o que restava, destruiu-me, apagou-me.

Estou pronta, coloquei um pouco de pó no rosto,
O batom deixarei para colocar quando chegar no meu posto,
Espero conseguir algum dinheiro para o aluguel,
Com algum velho aposentado que me leve para um motel.

Não gosto dos olhares das pessoas nos coletivos,
Parece que sou uma ladra, uma assassina, uma criminosa,
Julgam-me uma criatura desrespeitosa,
Alguns ficam boquiabertos, aturdidos.

Qual é o problema em ganhar o meu pão?
Ora, quisera eu ter um emprego descente,
Na minha juventude eu até tive: fui atendente,
Mas depois de alguns anos fui demitida,
E depois não encontrei mais ocupação, fiquei desiludida.

Ah... quisera eu que os meus sonhos se realizassem,
Quisera eu que tivesse a chance de deixar o meu ponto,
Para adquirir um emprego, um salário, o meu canto,
Coisas que acabariam com o meu sofrimento, com o meu pranto,
Quisera eu ser curada da minha triste e mortal doença,
E que na minha vida marca constante presença,
Pelos remédios, pelas dores, pelas diarréias, pela ausência,
Ausência de amor, de atenção, de vida, de esperança.



* Todos os Direitos Reservados pelo Autor.
Fábio Pacheco
Enviado por Fábio Pacheco em 13/04/2006
Reeditado em 17/04/2006
Código do texto: T138264
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Sobre o autor
Fábio Pacheco
Recife - Pernambuco - Brasil
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Fábio Pacheco