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A Morte de Nhá Sibila

   Já à beira dos noventa anos, Nhá Sibila, que morava na capital, quis ir morrer no interior. Dizia ela que morrer no mato era bem melhor que na cidade. Na cidade ninguém sabe quando alguém bateu com as botas. Lá no mato é bem melhor, repetia sempre a anciã. Certo dia, bem cedinho, arrumou sua poucas tralhas e embarcou em um ônibus para o interior do Paraná. De onde estava até o Distrito de Goioxim, levava cerca de dez horas de viagem, pegando pelo menos três ônibus.
   Até Guarapuava foi uma eternidade! Passou por Palmeira, depois Irati. Sua bagagem era uma longa história de vida e de trabalho árduo. Criara dezesseis filhos. Pois quatro não viveram mais que alguns meses, lamentava isso em toda sua vida... e culpava o marido de não ter bom sangue...
   Em Guarapuava não havia parentes seus. Uma de sua filhas, morava no Distrito de Goioxim e era para lá que queria ir morrer. Não havia ônibus para o Distrito, apenas algumas poucas caronas de alguns bem abastados fazendeiros da região, ou então de uma boa alma que tivesse pena dos miseráveis de estrada. Contudo, Nhá Sibila insistia em seguir para lá. Lá queria morrer, lá queria sentir a morte roçando seu corpo magricelo.
   Tão logo foi possível, arranjaram-lhe uma carona, e lá se foi Nhá Sibila rumo à sua última morada. Mais umas três horas em um Jipee velho. O vento lhe incomodava, cobria as orelhas de abano, prendia os parcos cabelos ruivos que lhe restavam. Lá pelas tantas, o motorista parou. Olhou firme para os seus caroneiros e disse: - Já volto, vou só urinar. Quem quiser pode urinar também. Todos desceram e foram urinar no mato. Mulheres e crianças para um lado, os tres homens para outro. Depois de uns dez minutos voltaram e cada um acomodou-se como pode no velho Jipee.
   Mais alguns quilômetros pela estrada de chão, cheia de solavancos e Nhá Sibila, devagarinho, foi abrindo uma trouxinha. Desenrolou uma colher de prata, e a enfiou na panela escondida em um pano de prato, branco, mas já meio empoeirado do pó da estrada. As crianças olharam para ela, com um olhar de quero um pouco disso que você tem aí. Ela meio encabulada, puxou as mãos das crianças e nelas depositou a farofa com pedaços de carne de galinha. O aroma era realmente apetitoso, e as crianças comeram com ela, as mães também e os homens também. Ainda sobrou farofa.
   Uma das mulheres, logo puxou uma sacola de saco e dela tirou fatias de pão preto, umas bananas e algumas balas de caramelo. Todos comeram também. Uma festa...
   Um dos homens ofereceu água com açúcar. Todos também beberam. Um deles fêz cigarros de palha e ofereceu para todos os adultos. Que festa. Conversa vem, conversa vai, todos acabaram por se conhecerem.
   Conheciam Dona Palma, filha de Nhá Sibila. Quem não conhecia Dona Palma?? E seu marido Seu Fradigo? Todos conheciam aquele casal. E os filhos deles? Aqui não dá pra dizer todos. Eram quatorze vivos no total, e creio que uns três mortos.
   Nhá Sibila contou de seu desejo de querer morrer alí, junto dessa filha. As pessoas escutaram respeitosamente e a incentivaram. - Aqui é o melhor lugar para se morrer! Disse uma das mulheres, com uma criança no colo. - E sim, aqui é bem tranquilo, lugar quieto, bom mesmo pra morrer.
   Era quase noite quando chegaram, e o motorista, que por sinal morava perto da casa de Dona Palma, fêz questão de conduzir a anciã até lá. Entregou-a em mãos. A surpresa foi geral, todos correram pedindo louvado, abraçando, beijando, chorando, rindo. Que festa.
   A pobre Nhá Sibila levou uma semana para descansar da viagem, longa demais para seus quase noventa anos. Depois disso começou a pôr em prática seu tento: Morrer naquele lugar. Mas antes, Nhá Sibila queria conhecer o cemitério do lugar. Uma das netas, prontificou-se a levar-lhe até lá. Para a menina era um jeito delicioso de sair passear e não ter que seguir para a roça com o pai. Dona Palma, preparou  comidas para elas. O "passeio" gastaria um dia inteiro, ida, permanência e retorno. A distância era cerca de oito quilômetros ou um pouco mais. Tinham que sair bem cedinho, e aproveitar a fresca manhã. Depois que o sol subisse, nada causaria mais pena que se escaldar e fatigar-se na caminhada até o cemitério.
   Às cinco da manhã, as duas se puseram a caminho pela estrada deserta e escura. Mas Nhá Sibila sabia que logo, logo, viria o sol e apressaram o passo, na medida do possível, é claro...
   Ludmila, a neta, estava adorando sair de casa e acompanhar a avó naquela empreitada macabra. Mas assim mesmo, era uma festa!
   Um carroceiro as encontrou, cumprimentou-as respeitosamente e continuou seu trajeto pela estrada rumo à roça.
    Outro carroceiro, e mais outro, Depois veio mais um e mais outro. E de repente todos sabiam que Nhá Sibila estava indo morrer. O vilarejo todo sabia que Nhá Sibila estava indo morrer.
    Pelo caminho, Nhá Sibila indagava da neta Ludmila como era o cemitério. Seria bonito morrer lá? A neta dizia que sim, que havia palmeiras, vento fresco, túmulos de pedra e lindas flores. Um cruzeiro enorme de cedro, cheio de velas acesas, todos os dias. E, em dia de Finados, a festa era muito grande. Ela ia gostar de morrer alí. Havia muitos pardais cantando pelas árvores em tôrno do muro dos fundos do cemitério. Lindas borboletas voando de flor em flor. As pessoas mais ricas tinham em seus túmulos coroas de flores em metal pintado, lindas coroas. Ela haveria de gostar daquilo tudo. Havia também procissões em certas datas, que deixava aquele cemitério infestado de rezas e flores, gentes e velas acesas. Ela tinha que gostar de morrer naquele lugar.
    Lá pelas nove horas da manhã, Nhá Sibila e sua neta Ludmila, chegaram ao portão do cemitério. A anciã encantou-se. Lágrimas de emoção caíram de seus olhos claros. Suas mãos entrelaçadas ergueram-se em reverência, agradecendo. A neta Ludmila, ajudou Nhá Sibila entrar solenemente naquele "jardim de sonhos". Andaram por entre os túmulos. Leram inscrições de muitos anos. Comentaram certas mortes, ainda muito jovens. Reclamaram do sol quente. Acenderam velas no cruzeiro. Beberam água, comeram pão com linguiça de porco. Chuparam umas laranjas, e fumaram uns palheiros, as duas. Que festa.
    Sentadas em um banquinho improvisado, Nhá Sibila, reparou em certos buracos no chão, perto de alguns túmulos. Curiosa que só, perguntou à Ludmila do que se trataria aquilo. A moçinha em sua empolgação em "ajudar" a avó, falou-lhe que aquilo não era nada de importante. Eram apenas buracos dos tatús-do-rabo-mole que por alí habitavam.
    Nhá Sibila de um salto (como pode,leia-se), pôs-se em pé e às carreiras quis sair daquele belo e perfeito lugar. A neta seguiu-a, sem compreender.
    Fizeram o caminho de volta para casa. Caladas. Cansadas. Derrotada, estava a anciã.
    Sem entender o desatino de Nhá Sibila, a neta ousou indagar-lhe sobre o que ela achou do lugar.
    A avó, irritada, puxou-a pelos braços magrinhos e lhe disse: - Se você pensa que eu quero virar comida de tatú-do-rabo-mole,menina, você tá muito enganada... eu vou achar outro lugar pra eu morrer, longe daqui...
   
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 23/04/2006
Código do texto: T144117
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
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NENINHA ROCHA