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VIDA DE CÃO




Eta vida de cão! A gente fica vagando sem rumo certo pelas ruas da cidade. Sem saber se vai ter a chance de fazer uma refeição decente; sem ter um abrigo seguro para passar a noite, e sem nenhuma perspectiva de melhorar  a situação. Na verdade, o Nestor é que foi esperto voltando para a lida na roça. Eu deveria ter seguido o mesmo caminho.
Esses, eram os pensamentos que agitavam a cabeça de Jojoca, naquela tarde tórrida, enquanto ele fazia sua caminhada errante pelo  centro da cidade. Eram doze horas e, para completar o desânimo desse tão desafortunado cidadão, em cada esquina por onde passava, vinha-lhe até o nariz, um aroma diferente de algum alimento que estava sendo preparado pelas pessoas que ele considerava serem os afortunados desse mundo ingrato e tão desproporcional.
Em dado momento,  avistou perto de uma das muitas lanchonetes que infestavam a cidade, um cão vira-latas, de pelo negro, manchado de branco encardido. O magriço animal, de olhar fixo no interior do estabelecimento, esperava  paciente e salivando, que alguém lhe atirasse algo  que lhe aplacasse a fome. Ao observar a cena desoladora, Jojoca sentiu um aperto no coração. Vasculhou os bolsos esfarrapados em busca de alguma moeda. Por fim, aproximou-se do cão. O animal acostumado com a vida dura e, com inúmeros maus tratos, ao perceber a aproximação daquele ser estranho, quis recuar. Porém Jojoca com a voz mansa, acalmou o medo da pobre criatura.
—É meu colega, essa nossa vida é mesmo injusta. Mas fique calmo porque eu não lhe farei mal algum. Espere aqui que eu já lhe trago algo para comer.
O pobre cão, como se compreendesse a mensagem de Jojoca, ficou à espera com o rabo balançando e uma expressão de alegria no focinho comprido.
Jojoca entrou na pequena lanchonete. Havia no ar, um forte cheiro de pastéis fritos.
Pediu ao balconista que lhe servisse dois dos maiores pastéis que estavam à mostra na mesa atrás do balcão. O homem sorriu e disse:
—O senhor parece que está bastante faminto. Será que tem dinheiro suficiente?
Jojoca irritado respondeu:
—Sou pobre, pareço um mendigo, mas sou honesto! E com um gesto de raiva, atirou sobre o balcão duas moedas.
—Calma, amigo! Eu só estava brincando.
—É, mas o senhor deve pensar bem, antes de ofender os outros. Saiba que eu já tive uma vida igual à sua. Tinha minha refeição nas horas certas, mesmo sendo parca, mas me aliviava a fome. Tinha uma casa modesta, mas me abrigava do sol, da chuva e do frio. Hoje, eu tenho é a ajuda dos outros. Por isso eu te digo: Seja prudente. Essa vida nos trás muitas surpresas.
Saiu da lanchonete e, com todo cuidado, deu um dos pastéis para o cão que devorou a iguaria com voracidade. Ao sair a vagar sem rumo, teve como companhia, o velho e caquético animal, que a partir desse dia, não o deixou mais nem por um minuto, numa fiel e devotada amizade. Jojoca lhe deu o nome de Leleco e desde então, os dois compartilharam várias aventuras.
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Gilberto Feliciano de Oliveira
Enviado por Gilberto Feliciano de Oliveira em 01/05/2006
Código do texto: T148600
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Sobre o autor
Gilberto Feliciano de Oliveira
Araguari - Minas Gerais - Brasil, 61 anos
75 textos (8104 leituras)
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