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Aquilo foi feio, muito feio

Já passava das quatro horas da tarde. O povo que descera a serra a fim de fazer compras, retornava em passos sôfregos com as pesadas sacolas. De quando em quando paravam para descansar.  Tanto homens, mulheres, alguns adolescentes e algumas crianças, todos tinham o que conversar. Sentados em pedras ou no chão, faziam um zunzunzum de falas e risadas que chamava a atenção. Era impossível não dar ouvidos às histórias daquele grupo.
- Mas, o senhor viu isso mesmo, é?
- Mas... era feio mesmo? Não tinha luz demais, não?
- Até tinha, luz demais. Mas que era feio, era.
O homem de uns sessenta anos contava muitas coisas, e este último fato que lhe havia ocorrido burilava a curiosidade daquela gente simples.
- Mas por que o senhor não conta desde o começo, eu cheguei no finalzinho da prosa e estou por demais de curioso com essa coisa aí e...
Nesse instante um menino de uns dez anos vai se chegando mais perto e o homem, receoso de algumas palavras que possam vir a assustar a criança, pede com o dedo indicador sobre os lábios, que o outro se cale.
- Seu Nico, o senhor viu lá na bodega aquele homem de boné azul e branco?
- Sabe que não reparei, deixe ver... hummm... nem reparei. Mas por que você perguntou isso, Genilson?
- Bom... é que aquele homem tava falando pro Seu João Pedreiro que ele mesmo já teve com um bicho desse aí que o senhor viu e...
Num repente todos se levantaram, apanharam seus pertences e seguiram para suas casas, pela estrada no meio do mato.
Dona Zilda que morava com os filhos, logo adiante do olho d`água, apressou o passo, com medo, quase apavorada, não fosse a coragem que deveria demonstrar para disfarçar, diante dos filhos.
Gonzáles, era outro que contava muita vantagem e valentias sobre seus feitos e com isso pensava impressionar a todos, mas também apressou o passo, pois ainda havia de passar na casa de Seu Guilherme a fim de apanhar alguns ovos galados para que uma de suas galinhas chocasse.
- Tarde, Seu Guilherme... – disse ele meio desajeitado, com um fiato de lenha a espalitar os dois únicos dentes que possuía – parece que hoje escurece logo, o céu já tá fechando...
Seu Guilherme, sarrista como ele só, logo percebeu que o pobre homem estava se borrando de medo da noite e de ter que atravessar toda a invernada sozinho e ainda com gado ligeiro e solto por ali. O pobre homem deixou resvalar um dedinho da conversa, alí na estrada com os companheiros.
- Que nada Gonzáles, isso aí é o macacão da cara preta que o Nico disse que andou vendo por esse mato, e agora, com o inverno chegando a coisa fica pior ainda. Vai ver se o bicho não quer uma guarita em nossas casas, quem sabe até uma pinguinha, não é mesmo? Por sorte nossa, não é quaresma, senão a gente já podia dizer que o bicho do Nico é lobisomem, eh, ehe...
- ô Seu Guilherme, o senhor abusa com isso, não devia. Diz o Nico que é muito feio, mais feio que alma penada e olha se o senhor puder me arranjar uns ovos eu já vou indo, não demora pra escurecer...
        Seu Guilherme deu de ombros, seguindo para o galinheiro, sempre prosa, afim de "encorajar" o miserável amedrontado.
- Se vi? Mas é claro que vi, com estes zóios que a terra há de comer. Mas então não vi? E vou dizer mais ainda: senti o corpo todo arrepiado e o coração parecia que ia sair pelas goelas... foi feio aquilo... foi feio...
        Gonzáles tremia e se arrepiava, dando olhadelas ao derredor, ciscando um caminho mais aberto , ao longe na invernada.
        - Tá aqui, Gonzáles, duas dúzias de ovos, dos bão. Leva e põe pra chocar ainda hoje que a lua tá favorável.
        - Tem lua certa, não Seu Guilherme?
        - Tem sim, e lua cheia é perfeita, olhe lá por cima do morro... a bichona tá se mostrando cedo...
        - Bão, já vou indo, agradecido seu Guilherme. Anota aí minha conta com senhor... Até amanhã!
        - Até amanhã Gonzáles, e olha, vá pela estrada, é bem mais seguro, agora que está lusque-fusque... se o bicho aparecer, você tem pra onde correr...
        Uns quinhentos metros adiante, Gonzáles apressava cada vez mais o passo, quando as sombras das árvores faziam fantasmas ele correu mais ainda. Sôfrego, sem olhar para trás, não percebeu um toco de árvore e caiu, batendo a cabeça numa pedra. Desmaido alí ficou. Quando recobrou os sentidos, viu-se dentro de uma enorme omelete. A cabeça sangrou um pouco. As cascas dos ovos, moídas pelo baque de seu corpo davaa impressão de terem sido mastigadas.
        Assustado, levantou-se e sem apanhar as sacolas de compras, buscou o caminho de casa. A mulher estava preocupada com sua demora, pois já passava das dez horas da noite. O pobre Gonzáles chegou ofegante. Não podia falar, sua voz não saía. Todo lambuzado de ovos, cheirava mal. Um copo de água com açúcar o animou um pouco. Quando pôde, finalmente falar, arregalou os olhos para sua mulher e para os cinco filhos, disse apenas : - Aquilo foi feio, muito feio...E, ainda come ovo...
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 08/05/2006
Reeditado em 08/05/2006
Código do texto: T152399
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
310 textos (10916 leituras)
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NENINHA ROCHA