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O Construtor de Muros

Há muito e pouco, um homem quis construir um muro, pois viu que tudo ia mal, e desejava que tudo ia bem, mas tudo só ia bem se bem tudo ia com ele, pois ?se mal tudo ia com ele, como tudo ia bem então? Assim foi que desejou um muro, pois a casa era aberta pra rua, com passagem pra calçada e abertura para os outros. E assim foi também que começou a comprar tijolos, e ainda mais, argamassa, cimento, pedra e cal, e areia, e vários outros aparatos necessários. Não que fosse pedreiro, mas já tinha as experiências de outros homens, os quais também haviam construído outros muros em outros lugares, distantes e pertos; e sabia que todo o homem era um pedreiro, pois quando todo o homem tinha de construir, por necessidade que tinha, construía, e tão bem quanto outros diplomados.

Desejou que não tivesse ajuda, construiria sozinho, para que construísse sem que ninguém soubesse sua técnica particular e o desenvolvimento do muro, para que assim também ninguém pudesse um dia conseguir quebrar, não conhecendo os macetes secretos que usaria por segurança.
Assim, pôs o primeiro tijolo, quando tudo já estava em dia, e já foi se sentindo aliviado, pois já no primeiro tijolo viu que tudo andaria bem e que conseguiria, antes ainda que o pensado, fazer com que o muro fosse inteiro. Não conhecia o homem a sua habilidade na construção de muros; tão bem foi colocando o segundo e o terceiro, e ainda o quarto tijolos que se admirou de si mesmo e de sua vocação e não mais parou.

Passaram por ele vários outros homens e disseram que ?construía um muro para quê, se depois não conseguiria ver a rua e as pessoas que passam pela rua, e não conseguiria ver os carros nem os cães, nem veria nada?, pois, através dos muros, o olho não enxerga. E outros homens ainda diziam que sim, que deveria construir, e seguro, e forte, sem vazão, pois assim não sofreria de angústias e medos e ansiedades, e nem sofreria de outros tipos de doenças que o espírito vem trazer. E outros tantos homens diziam coisas demais para se poder contar, cada opinião se unia à outra e causava embrulhos desconexos; isso aconteceria se o homem construtor do muro desse ouvir àquele monte de palavreados enfastiadiços.

Não dava ouvir e continuou a construir e a construir, até que construísse e construísse sem cessar e levantasse já boa parte do muro, podendo trabalhar alto, se livrando cada vez mais de dar ouvir àqueles que falavam tanto e tanto que lhe enjoava só de ver.

Assim foi que foi construindo e alcançando altura e mais altura alcançando que alcançou a altura que almejava e disse que já alcançara altura tão boa que poderia alcançar mais altura e chegar à altura tal em que estaria altamente protegido, assim não podendo qualquer homem passar além do muro e não podendo nenhum homem pular ou olhar além do muro que construía e construía com afinco e determinação. Sabia ele que quando se inicia é triste e calmo, mas que quando se mete na coisa se encontra a habilidade e se empolga e se continua sem cessar em maravilha pela obra, por isso o homem não cessava e não cansava.

Os outros homens que passavam pela rua se encantavam primeiramente, louvavam então a sua força e determinação, depois se assustavam, conjeturavam, e se maravilhavam com a grandeza do muro que sempre mais e mais alto se fazia. E tão e tão alto se fez que o homem construtor pensou que poderia fazer mais, arredondar as pontas, fechar o muro e fazer algo que não houvera ouvido um outro homem que fizesse a mesma coisa, em mesma forma. Assim se veria o grande construtor de muros que era, e se veria a maravilhosa arquitetura produzida, e certamente ganharia prêmios pela grandeza de sua obra. Era uma obra eterna, bela e alta como deveria ser.

Assim foi que terminada uma parte começava-se outra, e ainda outra, e outra ainda, até que se fez o muro uma redoma em que só mais um tijolo tinha de se pôr ao centro do alto teto para que se terminasse a construção. Era a hora mais alta do dia. Terminar o muro que levara a sua alma ao fim de sua imensidade e ao fim de toda a sua consciência e inconsciência, de tão grande e maravilhosa que era a obra. Colocaria o último tijolo e o mundo reverenciaria a sua arte e a sua supremacia. Foi então que colocou esse último e desceu das alturas em que estava e olhou, e admirou entusiasta o muro inteiro, e riu, e se sentiu um rei e uma rainha, e um presidente, e, então, um deus.

Mas era muito pouco o que faltava para que se entristecesse o homem agora, pois acabara tudo e já não tinha o que fazer, mesmo que não quisesse fazer nada, e percebeu que, em todo o seu entusiasmo, esquecera de comer e estava magro e pálido, fraco e faminto, e se esquecera, em todo o seu entusiasmo, de comprar alimento para que pudesse revitalizar a sua força. Pensou que comeria e então construiria outros muros mais, e condomínios fechados, e faria sucesso como o construtor de muros. Disse, assim, que iria comprar comida, para que então ouvisse o que falavam os maravilhados outros homens sobre a enorme obra-prima que construíra. Foi sair, mas esquecera que, em todo o seu entusiasmo, esquecera de deixar uma abertura e construir um portal por onde pudesse passar para sair e entrar normalmente, como se sai e se entra de uma porta ou de um portão qualquer. ?Como agora sairia buscar comida e ouviria os outros homens dizerem bem do que fizera, ou talvez mal, ou qualquer coisa que dissessem?

Assim foi que o homem se viu preso, faminto, pálido e fraco, e viu que não poderia quebrar o muro para sair, pois tão forte e tão bem construíra que não havia como quebrar, e não havia como sair e nem como olhar para o outro lado ou pular, de tão bem que fizera, e tanto bem fizera que nem mais sabia como fizera. Assim, se viu ali para sempre, tendo perdido o seu reconhecimento e a sua possibilidade de construir outros muros, e assim tendo perdido lá morta a sua sensibilidade e suas técnicas arquitetônicas.

Os outros homens, por fora, se maravilhavam e queriam contratá-lo para que construísse outros muros, pois ?e quem é que não queria ter um muro como aquele?. No entanto não havia telefones para contato nem havia portal de passagem, nem havia modos de quebrar o muro, e o homem havia sumido e nunca mais voltado para a cidade.
andré boniatti
Enviado por andré boniatti em 15/05/2006
Código do texto: T156502
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Sobre o autor
andré boniatti
Corbélia - Paraná - Brasil
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