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Canto de Retirante

Se quisé sabe d’onde vim, moço,
e insisti em preguntá,
posso dize que vim de longe,
vim do Cariri,
no sertão do Ceará.
Mais se quizé duvidá
e saber inda mais
eu digo que tô vindo inda agora
do interior das Minas Gerais.
Se o sinhô não tive pressa
de se arretirá e ir-se embora
posso conta tudinho
enquanto minha viola chora.
Mode eu me lembrá  di tudo
e conta ansim di graça
só lhe peço licença
de molhá  a minha guela
com um trago de cachaça.
prossigo assim não mais
dizendo que campiei o mundo.
Fui seringueiro no Amazonas
Boiadeiro em Goiás,
fui tanta coisa, seu moço,
que nem me alembro mais.
Mais sei tanta história
dos lugá d’onde passei
e inda guardo na memória
cada légua que andei.
Não foi só no sertão, seu moço,
queu botei a minha mão.
Fui morá  na capital
trabalhá  em construção.
Mode eu me alembrá di tudo
e contá minha sina
só lhe pelo um ajutório
que assim a memória ensina
a melhorá  meu repertório.
Tá vendo essas mão, moço,
caco véio, calejada,
é di trabaía no eito, de todo jeito
no cabo de uma enxada.
Tá vendo, moço, se aprochegue e arrepara
as linha da mão, que dizem sê da vida,
é da vida minha, que não pára,
e vô fazê minha dispidida,
que já é tempo de mudança,
vô catá serviço, quarqué trabáio não me nego
não me fio na tardança
de si ademorá num canto só.
Já ouviu meu canto, moço,
compreenda, mais num tenha dó,
causa di quê dos trabáio feito em toda cidade
enchi meu emborná di sôdade
dinheiro que é bão, foi pouco,
trabaiando feito louco
vistindo minha honestidade
qui nem o sinhô verga este terno e gravata.
Vô trabaiá até morrê, moço,
qui trabaio honesto não mata.

iniciado em 1991 e concluído em 2006

*este poema tem uma longa jornada, já foi perdido e achado, já foi dobrado e rasgado, finalmente achei ele semi-acabado, com pedaços faltando, dentro de um livro antigo na estante de meus pais. A parte concluída hoje (15/05/2006)começa no trecho "Tá vendo essas mão, moço, caco véio, calejada," são fragmentos de memória do que eu já tinha escrito mas se perdeu por desleixo.
Mauro Gouvêa
Enviado por Mauro Gouvêa em 15/05/2006
Reeditado em 16/05/2006
Código do texto: T156635

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Sobre o autor
Mauro Gouvêa
Alfenas - Minas Gerais - Brasil, 51 anos
432 textos (56516 leituras)
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Mauro Gouvêa