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Herói

Sou um criminoso em liberdade condicional. Um herói, na verdade. Do xadrez e das décadas, me sobraram as barbas crespas, os olhos afundados e a magreza doentia; do tempo, me sobrou a cor branca dos pêlos. Não fosse meu passado, a mim mesmo eu veria como um bom velhinho abandonado em um asilo pela vil família - família: um descaso e um ocaso vil, nunca tive. Eu pouco me lembro do que quer que tenha antecedido a prisão; uma casa, uma filha, talvez? Lembro de ter sido preso por roubar arroz em um supermercado para minha filha única, e lembro de ser um exímio estuprador de crianças.

Hoje, na rua, posso me ver perfeitamente nos olhos de um transeunte qualquer - cuidadosamente um personagem construído, como quem encarna deliberadamente um papel a interpretar na sociedade e veste-se da melhor maneira possível seu figurino. O jaquetão de couro emoldurando um corpo inexistentemente altivo, o óculos escuros escondendo as ciatrizes da alma mesmo enquanto o teto máximo de são paulo tinge-se de nuvens cinzas e torrenciais; não é um escape ao astro-rei mas ao brilho escuro de meus olhos. Na rua, ainda me acostumando com a visão de tudo aquilo que ouvia além das grades.

- Dois desses! - curto e criminoso. Não muito pelas balas de goma; mais um teste dessa imperação traiçoeira que minha voz adquirira. O vendeiro amuou-se e não firmou palavra, sequer viu que eu tinha dado a menos - ou melhor, para nenhuma surpresa, notou o descaso no dinheiro, mas deixou estar, pobre homem. Ao final deste relato, eu mesmo me surpreenderia ao lhe arrancar o coração do corpo.
- Obrigado. - com as balas, sai à rua novamente.

Como em um filme mafioso, andava preocupado com olhares inquisidores, tentando me precaver de possíveis seguidores, como se me caçassem - e não era esse o papel a que me destinaram ao soltar-me da prisão? Andava no fluxo contrário da Ipiranga, enquanto todos se socavam nas calçadas esguias da Ifigênia - a necessidade inconsciente da evolução tecnológica, a inerente vertente do progresso visto em câmeras digitais e celulares da última geração do contrabando. Chequei uma tira de papel escrita à mão, o endereço estava correto; entrei. Um porteiro dormia em sua função, desbalanceando a cena - era para eu ser questionado neste momento, caro leitor, mas o que faz um homem como eu em um ocaso desses? Prossigo, de qualquer forma, acordado ou não, aquele homem emigrante não me poria dificuldades de subir as escadas do prédio - fosse à fala ou à faca.

Uma hora, no mais tardar, eu sairia daquele prédio em disfarçada tranquilidade. O porteiro, agora acordado, não se dava ao caso de checar se aqueles que saiam do prédio eram os mesmos que costumeiramente entravam - dei de ombros, o cumprimentei e saí pela rua. Estava feito, minha faca presidiária já havia saciado seu gosto de sangue e no terceiro andar, dois corpos ensanguentados não puderam nem ao menos terminar sua transa rápida de meio do expediente. A mulher, pobre coitada, não era para morrer - disse que tinha filhos e um marido e foi aí que eu entendi que não podia deixá-la viva. Não desbalanceando sua família com mentiras, não poluindo a rede mental que interconecta todos os seres humanos com todo sentimento ruim que ela carrega nessa cabeça mundana, não, não posso deixar um cão viver assim. Matei-a, era católica; lhe disse que era Deus e a abençoei antes de perdoá-la de todos seus pecados com uma fisgada na jugular.

Voltei à quitanda das gomas e mascar. Eu havia estuprado e filha daquele homem, eu tinha certeza - lembro dele ainda mais jovem, pai orgulhoso.
- Pô cara, me vê uma coca? - estendi as notas, calculadamente a menos do que precisava - ele sorriu amarelo, com aquele nó que dóe na garganta. - Minha família me deixou. - continuei. Tirei os óculos, a face retorcida, mentirosa, cada linha um pecado diferente, mas em uma língua que somente eu sabia ler. Aos olhos de outrem, linhas do tempo, degenerações da pele usuais de quem viveu trabalhando e foi açoitado pelos chicotes da vida, sofreu e agora estava ali, incapaz de mendigar, mas fazendo de tudo para viver. O vendeiro fingiu ter se importado e muito mais querendo ver aquele homem fora de sua loja, estendeu um pequeno pedaço de bolo embrulhado em papel filme.
- Foi minha filha quem fez. - falou, e eu senti um calafrio imenso na espinha.

Saí novamente da loja e olhei para o bolo: de um lado, onde o adesivo selava o papel, havia um endereço. Pobre diabo aquele vendeiro, mas um bom homem - sem querer, deixaria que eu visitasse sua filha mais uma vez.

Duas batidas e a porta de um apartamento modesto se abriu: uma bela criança, lacinhos no cabelo loiro e sapatilhas novinhas me olhava com aqueles olhos grandes que sempre me atraíram. Eu, um velho e andrajoso. Que docinho de criança, eu simplesmente as adorava - era realmente uma pena eu não poder apenas admirá-las. Uma voz soou de longe.
- Quem é Jô?
- Um vovô. - ela respondeu com essa voz inocente, intocada pelo arco do tempo. A mulher apareceu e a criança foi ao seu encontro, ela sorrindo, incapaz de me reconhecer e imaginei que nem o faria: azar o dela. Ensaiei:
- Estou passando fome, se, por favor... - a interrupção fazia parte do exercício de construir uma fala em que você não tem a coragem de terminá-la e, somente não tendo a coragem de levá-la adiante, a intenção revela-se verdadeira - é a vergonha quem legitima a intenção na maioria dos casos e este, bem, este era um deles.
- Ah, me desculpe, mas estou com minha filha agora e estamos de saída... - tentou esquivar-se. E então escolhi o desespero.
- Ora, por favor... Deixa-me entrar, dê-me um pão que seja... Não, uma migalha apenas e eu já ficarei grato. - desconcertada, ela continuou.
- Faço bolos e sobrou alguns, vou buscar um para o senhor. - olhou melhor, afinando os olhos para mim. - Eu já te vi em algum lugar?
- Mas que bonita menina você têm aqui. - acrescentei rapidamente desviando do assunto, mas o segundo seguinte me subiu à cabeça uma revolta interna de não ter dito "Claro, no pequeno quarto da edícula.", mas completei em seguida. - Deus lhe dará em dobro o que está dando à esse velho. - a evocação divina, um largo oceano de conexão entre as pessoas.
- Só quero ajudar.
- Que alma magnífica. - e então me redimi comigo mesmo. - Eu te estuprei quando era criança, e mesmo assim vai me ajudar. - já dentro do apartamento e a face fortemente controlada para que demonstrasse pena e um dedo de arrependimento, só um dedo.

Uma golfada de ar súbita, e ela juntou as cenas de horror que jamais esquecera com aquele velho andrajoso de couro à sua frente. Mais de vinte anos que eu, ainda reconhecível como homem, deitara sobre seu corpo pequeno e a fez gritar e chorar de dor. E cá estou eu novamente, à folha da porta, e com um bolo recheado de paixão, que a mãe havia feito para a sua filha. Sua filha! Tão perto do monstro que seu coração despencou para o estômago e só então olhou nos meus olhos com uma fúria terrível na face - não pelo passado, mas pela sombra da possibilidade daquilo se repetir com sua filha. Isso a encheu o peito com um líquido poderoso do amor, uma dose completa de um sentimento visceral por sua filha, mas, ao mesmo tempo, um copo de cólera preencheu seu corpo inteiro a deixando no mais perfeito equilíbrio entre as duas coisas. Sempre que o amor evanesce no corpo de alguém, brota também uma semente impenetrável de ódio, pronta para virar uma erva daninha maravilhosa; uma faca de dois gumes da natureza, uma naturalidade tão brutal da condição humana que nada lhe escapa. Uma naturalidade tão crua que chega a ser impensável que a mente degenerada divinize sentimentos tão díspares e acabam por tornar dois sentimentos naturais em duas procriações terríveis. Uma, naturalmente não vive sem a outra, como qualquer outra coisa que pretende equilibrar-se. Mas o amor é divino, o ódio é divino. E a divindade, criação da mente, potencializa as tragédias.

- Fique longe de mim. Jô, vai pro seu quarto! Você está de castigo. - ela falava chorando, sem notar, e eu sentia pena dela, ao mesmo tempo que sorria.
- Sou mais forte, e você sabe que é de criança que eu gosto.
- Não! Faça qualquer coisa comigo, mas não toque na minha filha, pelo amor de Deus. - a divindade que legitimiza o pedido.
- Não farei. Se continuarmos o que não acabamos.
- Por favor. Faça o que quiser, mas não faça nada com ela. Por Deus!
- Por Deus. - repeti e empurrei-a para o quarto aos soluçõs.

Aquela transa não encontraria em seus dois protagonistas o real terror de seu encontro, mas sim na percepção da filha: no quarto ao lado, ao escutar os sons bestiais que atravessavam as paredes. Não eram seres humanos, eram bestas e animais copulando com fúria e desprovidos de sentimentos - ou ao menos sentindo algo inonimeável ou jamais nomeado pelas cadeiras das ciências humanas - não era ódio, não era amor, não era fúria, talvez algum tipo de paixão terrível que levava aquele homem à loucura, e aquela mulher às lágrimas.

Ao fim, levantei-me; vesti-me. Passei no quarto ao lado e me despedi de Joana, sem antes deixar de tocar seu sexo pequeno, em que tremeu ao contato de minha mão calejada - nada fiz! Sentei-me à mesa da sala e escrevi no verso de um papel qualquer jogado na mesa. O som do choro contido da mulher começava a me dar nos nervos, ao passo que quase não a mato por gemidos. Mas deixei estar e saí apressado para a Ipiranga cheirando a chuva.

Abriguei-me na quitanda de antes. Entrei e estendi o papel para o homem:
- Infelizmente o homem que criou o amor, foi obrigado a criar o ódio. - girei nos calcanhares e sai.
Ele leu, infeliz: "Eu estuprei sua filha quando ela tinha nove anos. Lembra-se das marcas?". Ficou possesso, e tudo que consegui foi ouvir sua respiração difícil. Seu coração havia se deslocado.
Bruno Portella
Enviado por Bruno Portella em 17/05/2006
Reeditado em 02/01/2009
Código do texto: T157694

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Sobre o autor
Bruno Portella
São Paulo - São Paulo - Brasil, 30 anos
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