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Um matuto na praia

             
      Aquela era a primeira vez que ele saía de sua cidade do interior de Goiás. Como gerente, sempre tinha todas as despesas pagas pelo banco onde trabalhava. As convenções anuais tinham por finalidade uma integração e mesmo um modo de dividir experiências entre os funcionários.

    Depois de dois dias de reuniões, era aquilatado o resultado de cada um, de acordo com os dados que a diretoria tinha em seu poder.
    O desempenho de cada agência  e mesmo da região era analisado e, quando positivo, servia de referência para mostrar aos menos competentes o que seria o ideal exigido pela empresa que vivia do comércio do dinheiro.

    Ele, como gerente de pequena cidade do interior  de Goiás, mais ouvia do que tinha a acrescentar, diante de colegas de várias regiões do Brasil, onde o crescimento do banco seguia de vento em popa.

    Depois das reuniões costumeiras, sempre havia o espaço para o lazer, onde os funcionários seguiam um roteiro prévio, estabelecido como recompensa pelo lucro que o banco obtivera. Este era um modo de integrar todos dentro do programa que era elaborado pelo banco.

            Naquele ano as atividades de lazer seriam em Santos, onde o programa já havia sido preparado para receber o enorme número de gerentes que quisessem ir e aproveitar as águas mornas e salgadas do mar.

           Ele nunca havia saído do estado de Goiás e não conhecia o mar, por isso apenas observava os colegas que já conheciam o esquema e se sentiam como se estivessem acostumados com aquele programa.

           Quando o ônibus, que o levava rumo ao mar, enfrentou o enorme trânsito da rodovia que demandava as praias, como de costume estava caótico, pois enorme fila serpenteava a encosta de descida da serra, ele, que viajava pela primeira vez naquela rodovia, vendo a enorme fila de carros seguindo lentamente rumo à praia, dirigiu-se ao colega que estava sentado a seu lado e comentou:

          - É, o indivíduo que morreu deve ter sido muito importante, olhe a fila de carros seguindo o enterro!

          O colega do lado ouviu e esboçou um sorriso, pois sabia que aquele goiano não estava acostumado com o trânsito rumo ao mar.
         Quando chegaram a Santos, ele quis conferir a história que a água do mar seria salgada, aproximou-se e enchendo as mãos levou à boca e tentou beber.

         Momentos depois, o colega que o acompanhava, vendo que ele ainda não havia trocado de roupa e que se encontrava vestido com terno e gravata, pergunta-lhe:

        - E aí, não vai trocar de roupa e tomar banho de mar?

         O pobre goiano, que nada sabia, dirigiu-se ao colega que fora seu companheiro de viagem  e respondeu-lhe:

         - Eu não posso, pois não sou sócio.

         Ouvindo aquilo, o colega do goiano entendeu que ele realmente deveria ter vindo de um lugar onde poucos fazem algo além daquilo que mandam e, com cuidado, tentou entender o que ele havia falado em não ser sócio.

        Depois de muita conversa, entendeu o que se passava com o goiano. Ficou sabendo que na cidade de onde ele vinha havia um clube com praia artificial e que neste clube só podiam entrar  quem era sócio.
        Ele havia pensado que ali também era necessário ser sócio para tomar banho de mar.

        Depois de muitas explicações, ele deitou e rolou literalmente pelas areias da praia e durante todo o dia foi alvo de constantes cochichos.
        O sol inclemente, aliado ao sal, foi suficiente para transformar aquele pobre matuto numa vítima da falta de conhecimento.

        E isso ele somente foi entender quando chegou à noite e sentiu o corpo em brasas, obrigando-o a procurar cuidados médicos pelo excesso de sol.
        Depois daquela aventura atabalhoada, ele passou a ter verdadeiro horror ao mar, razão pela qual sempre que ia a uma praia, ficava vestido e alegava ser alérgico à água do mar.

              09/10/05
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 27/05/2006
Reeditado em 05/03/2009
Código do texto: T164338
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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