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PENSANDO E POETANDO COM MOLINOS

UM CORAÇÃO PACÍFICO É TRONO DIVINO

   No Capítulo I do Livro Primeiro da Guia,Molinos nos diz que  devemos ter sempre pacífico o coração para que se conserve sempre puro, estando, assim, sempre pronto para receber a Deus, como um templo vivo, e que devemos aceitar, quietamente, sem qualquer alteração, tudo o que o Senhor nos enviar como prova, sem deixar que nada turbe essa cidade de quietude e paz.

Em qualquer inquietude
Deixa que teu coração
Fique sempre sossegado
E livre de tentações,
Penetra dentro de ti
E livra-te das paixões
Causadas por inimigos,
Por suas perseguições,
Porque o homem quieto
Afasta as tribulações.

A força, o castelo forte,
P’ra livrar-te do inimigo
Seja visível ou não,
Está dentro de tu’alma,
Dentro do teu coração,
Que é onde a divina ajuda
Reside. E nunca diz não.
Basta tão só que te entregues,
Sereno, ao seu socorro,
Às suas sagradas mãos.

  Devemos ter sempre em paz o nosso coração para que Deus, o divino Rei, possa nele repousar. E é através do recolhimento interior, da oração e recolhimento amoroso na divina presença, que sossegaremos das adversidades e venceremos o inimigo.

“Para que Deus repouse em tua alma, terás que estar com ela sempre limpa, quieta vazia e pacífica”.

Com um olhar amoroso e humilde
a alma jaz
Diante do seu Senhor, que
muito feliz a faz,
Sem elaborar palavras e nem pensar nada mais
Que a tornaria sensível aos enganos possíveis
Que ela,
ao aquietar-se,
Deixou-os todos para trás.

   O que mais importa para a alma redimida, diz ainda  Molinos, é a paciência : “Dos divinos bens, não são capazes os sentidos; assim, se tu queres ser feliz e sábio, cala e crê, sofre e tem paciência[...]”

Sofre, cala, e te entrega
Às mãos do Divino Ser,
De Deus, Bondade Infinita,
Que tudo que irá fazer
Será tão só p’ro teu bem,
E não procures saber
Como Ele irá agir
Pois não irás entender.
Basta tão só que confies.
Assim sendo, “Cala-te e crê”.

         ...
E ao meu coração vazio,
puro, limpo, e sem bolor,
Deus o preencheu com o brilho
do mais puro e belo amor.


“QUANDO A ALMA CRÊ NÃO HÁ NECESSIDADE DE DIZER”

Deus sabe o que há em mi’alma
Sem que eu precise dizer,
E o seu amor me acalma
Preenchendo todo o meu ser.

Toma conta dos meus desejos
E da minha imaginação,
Tirando-me qualquer ensejo
De dor, tristeza ou paixão.

Mas  para que eu O tenha,
Vazia a alma tem que estar
De qualquer um sentimento
Que impura a possa tornar.

“A perfeição da alma não consiste em falar nem em pensar muito em Deus, senão em amá-lo muito. Alcança-se este amor por meio da resignação perfeita e do silêncio interior”.


A DEUS,O QUE TE CONVIER,A TI,ACEITAR QUIETA E RESIGNADAMENTE

"Esteja quieta, alma bendita. Esteja quieta, humilde e resignada, para  tudo  o  que Deus quiser fazer de ti. Deixa  a Deus o cuidado, que ele, como amoroso pai que é,  sabe o que a ti  mais convém.  Conforma-te  totalmente com sua vontade, que é onde fundou-se a  perfeição,  porque o que faz a vontade do Senhor, este é  mãe,  e irmão do  mesmo Filho de Deus."
    A alma terá ainda, que, nada desejar. Não desejando, portanto, nem mesmo a divina presença em si, pois tal desejo tomaria o espaço que a mesma poderia ocupar.  “Se fosse possível esvaziar perfeitamente uma vasilha e mantê-la vazia de tudo  que  pode enchê-la,  inclusive o ar, a vasilha  sem  dúvida  renegaria  e  esqueceria  a  sua  natureza,  e  o  vazio  a  levantaria até o céu.”
(Mestre Eckhart) 21
    A contemplação, ou êxtase contemplativo, seria, pois, a saída dos próprios limites. “É uma saída fora de si mesma” (Tomaz de Aquino). É o ponto “onde termina a criatura e começa o Ser de Deus”(Mestre Eckhart). E é tudo que Deus quer de ti: “Sai totalmente de ti, por amor a Deus, e Deus sairá totalmente de si por amor a ti. E o que sobrará depois de ambas as saídas, será a unidade simples.” (Molinos).
                    ...
    Muitas são as almas que buscam o caminho da perfeição na paz interior que a levará à Divina Graça, mas poucas são as que conseguem superar dentro de si mesma a sequidão passiva, as trevas, as angústias, as tentações do inimigo e muitas outras adversidades que lhe preencherão o caminho de acesso ao divino Ser.

                         ...
E na Conclusão temos:

    Pensando Deus como um ser a quem nada pode atingir, como poderia o ser humano, na  sua pequenez,  pensar atingi-lo  com  os parcos conhecimentos que o mundo pode oferecer?   E
partindo desse questionamento, tomando como base os ensinamentos de Miguel de Molinos na sua Guia Espiritual, o que nos ficou de tudo o que lemos e meditamos sobre o assunto, é que, em primeiro lugar, o ser humano terá que  esvaziar-se  de tudo que o faz ficar ansioso: da raiva; do
desejo; da compaixão; da tristeza; da alegria; da dor; da vergonha e de quaisquer sensações, até mesmo do amor que dedica ao Senhor Deus, pois para que este possa apossar-se da sua alma, esta terá que estar limpa de quaisquer sentimentos.
   É a pobreza de espírito que leva o homem a dispensar tudo que não lhe for necessário que o aproxima do seu próprio ser, que faz com que ele seja tão somente o que ele é, sem nada desejar, e deixando para  Deus a ação necessária ao seu aperfeiçoamento. E “um homem pobre é aquele que nada quer, que nada sabe e que nada tem.” (Mestre Eckhart)22
   E segundo Molinos, de acordo com o nos transmite na sua Guia Espiritual, para que a alma  se torne trono  do Divino Ser, terá que está completamente vazia de tudo, seja físico ou espiritual: expulsando de si todos os desejos, dores,  prazeres, ansiedades; não amando nem odiando; não sentindo dó nem compaixão;não tendo nem ao menos o desejo de ascender a Deus, pois como “morta” ou plenamente nadificada, nada sentirá. E aí, restará apenas o trono divino, ou o próprio Deus que agirá sobre si mesmo. Porém enquanto acreditar que sua vontade deve ser a de querer fazer a vontade de Deus a quem ama acima de tudo, não terá, ainda, esse homem, a pobreza de espírito necessária ao esvaziamento da sua alma que daria lugar a Deus.
    E, em todo o decurso do seu trabalho, Molinos tenta explicar esse estado contemplativo, onde o ser se nadifica, levando consigo o entendimento e os sentimentos, deixando-nos, pois, sem nada sentir ou entender. Ou seja, tentando explicar o que um místico sente quando em êxtase na presença do Divino Ser, que é o estado de êxtase que a alma atinge na presença de Deus e que jamais se conseguirá dize-lo com palavras, uma vez que estas não seriam capazes de alcançar o que não pode ser dito.
    Há ainda algumas citações interessantes que demonstram a ligação do pensamento de Molinos com o outros pensadores  no que se refere ao cessar da inquietude, e que gostaríamos de mostrar em nosso trabalho:

"...uma vez que se esgote a análise das premissas que considero necessárias, te mostrarei o caminho que pode levar-te para casa. Fixarei também asas ao teu espírito para que com elas possas elevar-te até as alturas, e quando houver se dissipado todas as inquietações, podes voltar são e salvo à tua pátria sob meu comando, seguindo meu caminho e inclusive em meu próprio veículo." (Boécio).23

    E esta, de acordo com Mestre Eckhart, seria uma verdade que deveríamos saber: “Quando o espírito livre se mantém verdadeiramente desprendido, ele força Deus a vir ao seu ser; e se pudesse subsistir sem forma alguma e sem quaisquer acidentes, ele assumiria o ser próprio de Deus.”

    Temos ainda algumas citações interessantes, que são alguns fragmentos de Heráclito, a partir de Mestre Eckhart, tendo como Título: “Viver sem Porquê” e que nos foi transmitido pelo Professor Doutor Oscar Federico Bauchwitz, do Departamento de Filosofia da UFRN, no Café Filosófico realizado em 12/12/2002, na Livraia Nobel, localizada no Natal Shoping-Natal/RN, e que me influenciou bastante na escolha do tema para este trabalho:

“Deixe estar todas as coisas sem importuná-las.”

“Que tudo ocorra, se faça, como tem que ser sem que tomemos qualquer decisão para tentar modificar o que é.”

“O fundo de Deus é meu fundo e o meu fundo é o fundo de Deus” pois no fundo da alma os meios silenciam.

“Se durante milhares de anos se perguntasse a vida por que ela vive, ela responderia: vivo porque vivo.”

“O verdadeiro pobre de espírito esvazia-se totalmente até de si mesmo ou até do desejo de Ter Deus em si.”

“Um homem verdadeiramente desprendido por Deus – não busca, pois, mas só deixa-se estar sem qualquer desejo – até mesmo de Deus.”

“No supra-essencial ou supra-Deus, homem, mosca e Deus têm a mesma essência”.

    Finalmente,  vemos em Miguel de Molinos que: “Para que a alma chegue à total transformação com Deus é necessário que se perca e negue o seu viver, sentir, saber, poder e morrer; vivendo e não vivendo; morrendo e não morrendo; padecendo e não padecendo; resignando-se e não resignando-se, sem fazer nenhuma reflexão.” Morrendo para o mundo para que possa viver na Divina Essência, que é a verdadeira vida.  Assim,


Depondo a minha vontade às mãos de Deus, tenho que
Deixar que a sua vontade aja ao seu bel prazer.

Não importa se estou doente, fraco, sem disposição;
É que o meu espírito crente, aceita com gratidão.

Pois sabe ele que o melhor para mim, é o padecer
Quieta a minha dor, para a Deus merecer

E assim, aceitando tudo que vier das mãos do pai,
Vazia do Ser, e muda, minha alma, ao céu, atrai.

Esquece o que é terreno, e o que é divino também;
O que é grande e o que é pequeno; o que faz mal ou faz bem.

Esquece o sofrimento e o que traz alegria.
Não tendo mais sentimentos, já que a alma está vazia.

E é esse vazio que gera, em si, a oportunidade
Que a alma já não espera, de total felicidade.

Pois o espaço sacrossanto em que a alma se transformou,
Onde já não há dor ou pranto; não há ódio nem amor;
...
Não há alegria ou quebranto;
Desejo, raiva, o que for;
...
É pois o espaço adequado que o Ser, modificado,
Sem querer, deixou preparado:
Limpo, puro e aquietado, para trono do Senhor.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AREOPAGITA, D. Teologia Mistica, Biblioteca de Autores Cristianos – BAC. Madrid, 1995.

BAUCHWITZ, O. F. El Conocimiento de la Ignorancia Según Eriúgena, in “Azenoes y los Averroísmos”,  Zaragoza, 1999.

BOECIO, A Consolação da Filosofia, Ed. Martins Fontes, SP, 1998.

CELSO, El Discurso Verdadero contra los Cristianos, Alianza Editorial. Introdución y notas de Serafin Bodelón, Madrid, 1996.

ECKHART, M. O Livro da Divina Consolação in Coleção PENSAMENTO HUMANO, O Livro da Divina Consolação e outros textos seletos, Coord. Emmanuel Carneiro Leão, 2a Edição, Editora Vozes, Petrópolis, 1991.

MOLINOS, M. de, Guia Espiritual, in Guia Espiritual precedida de um ensayo de Claudio Lendinez. Biblioteca Jucá, Madrid, 1a  Edição - 1974 .

MUGUERZA, J., Instituto de Filosofia de Mdrid, El Silencio, cap. 5 – Las Voces Eticas del Silencio. Compilacion de Carlos Castilla del Pinto, Alianza Editorial – Madrid, 1992.

VALENTE, J. A. Ensayo sobre Miguel de Molinos, in JOSÉ ANGELVALENTE, Variaciónes Sobre el Pajaro y la Red precedido de La Piedra Y el Cientro. Tusquets Editores S.A., Barcelona, 1a  Edição –1991.


Por Rosa Ramos Regis da Silva - Natal/RN
(parte do trabalho monográfico de final de curso - Curso: Filosofia Licenciatura Plena - UFRN)
Rosa Regis
Enviado por Rosa Regis em 05/06/2006
Reeditado em 23/09/2010
Código do texto: T170103
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