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A MULATA DO BANG▄╩

Eram os tempos do Brasil Império. Gilberto Freire ainda não havia nascido para o mundo nem para a Sociologia, de modo que ainda não se podia entender as raízes do Brasil e as origens da nossa gente e do nosso jeito. Mas, a matéria-prima estava lá. Em forma de organização social, estrutura econômica, hábitos, costumes e mulher.

Sim, em forma de mulher. Chamava-se Marinalva. Uma bela mulata, filha de uma escrava nagô e um português escriturário que trabalhava nas burocracias do Bangüê de Bento Bosta, um dos homens mais prósperos de sua época, proprietário de engenhos de açúcar na pequena e pacata Vitória de Santo Antão, no interior de Pernambuco.

A propriedade era extensa, contemplando muitos hectares tomados por canaviais. As casas humildes dos colonos, na verdade casebres de pau-a-pique bem primitivos, retratavam a condição subdesenvolvida de um Brasil ainda totalmente dominado por oligarquias espoliativas e por uma dependência econômica plena do capital estrangeiro.

O Barão de Mauá ainda estava desenhando seus primeiros passos empresariais e se preparando para fomentar uma nova mentalidade desenvolvimentista no país. Mas a realidade dos sertões, nos grotões de pobreza e miséria, demonstrava uma total dependência do solo, o cultivo insano da terra, para a sobrevivência do povo. Os bangüês que se desenvolveram ao longo das terras onde o cultivo da cana-de-açúcar tinha se tornado prioridade, atestavam a forma como os pequenos proprietários rurais reagiam ao estado econômico e buscavam conquistar um lugar ao sol.

Isto foi nos tempos pioneiros, antes da instalação das usinas de cana-de-açúcar tais como se desenvolveram abundantemente no país. Os bangüês, engenhos de açúcar primitivos, anteriores às usinas, constituíam-se em um conjunto arquitetônico típico, com engenhocas monstrengas que remontavam a este tempo específico do Brasil Império e que instigavam a nossa imaginação na tentativa de entender o como e o porquê o Brasil se tornou um dos maiores exportadores de açúcar no período, já que a maquinaria parecia tão complicada e tão primitiva.

O Bangüê de Bento Bosta possuía um conjunto arquitetônico em que se destacavam a grande roda de água, a moenda, as tachas, a fornalha, a bagaceira, as formas de purgar; apetrechos e engenharia tão simplificada e acessível que era de fazer duvidar se funcionavam e davam produtividade. Mas funcionavam e davam.

O povoado de Vitória de Santo Antão estava incrustado nas encostas da Serra do Lajedo, formações rochosas do paleolítico, que davam a localidade um ar medieval e misterioso. O povoado não era nem muito populoso nem muito desenvolvido. Se fizéssemos uma estatística não contaríamos mais de duas mil almas na localidade e em torno de quinhentas construções, entre edifícios e casas, que compunham as residências e estabelecimentos comerciais do lugar. Alguns deles eram repartições públicas onde o povo acorria nos seus desesperos. Os sobrados e três templos católicos se destacavam no conjunto arquitetônico do lugarejo.

Ainda havia os bangüês. Eram cerca de trinta na região. Nestes bangüês, espalhados pela periferia de Vitória de Santo Antão, poder-se-ía somar, ainda, mais umas quatro mil almas e outros quinhentos casebres rústicos, além das trinta sedes de fazenda, que já denunciavam o poder nascente dos futuros senhores de Engenho.

No Bangüê de Bento Bosta, Marinalva foi criança peralta e feliz. Até os treze anos gostava de banhar-se nua na grande piscina de cimento bruto que compunha o bangüê dos patrões de sua família. A piscina era utilizada para lavar a cana bruta e ali a pequena Marinalva se divertia. Gostava, também, de tomar água de coco, chupar manga no pé, trincar os dentes na cana virgem e sentir impregnando as narinas o cheiro fresco das tachadas, que, como se tornou lenda entre os nordestinos, uma vez respirado na infância, embriagava para o resto da vida.

A nossa mulata bangüê gostava de ver sua bisavó, de pra lá de seus noventa anos, encolhidinha em sua cadeira de madeira entalhada, postada em frente do casebre antigo, de paredes descascadas, telhas de barro envelhecidas e janelas azuis. Vovó Nicota era o xodó da vizinhança e Marinalva tinha um carinho enorme para com ela. Sua dentição foi perfeita até agora, mas, naquela altura, os dentes cismaram de cair repentinamente e tudo configurava para breve uma velhinha banguela. Quando, finalmente, isto aconteceu, Marinalva que já tinha seus quatorze anos, ria de escangalhar da boca murcha da bisavó Nicota.

Da infância Marinalva trazia as gratas recordações das estripulias nos canaviais, os banhos na piscina, as frutas doces, a risonha bisavó sem dentes, a mancha escura de almanjarra no moinho movimentado, quando ela presenciava o escorrer do caldo forte da cana pela moenda. Mas, trazia também, a triste lembrança da prima menorzinha, a Júlia Kakepa, de seus sete anos, sendo triturada na moenda, esfacelada no descuido da imprudência infantil.

Marinalva cresceu. A mulata do Bangüê de Bento Bosta abandonou os banhos desnudos na piscina, desde o dia em que descobriu que havia uma rapaziada bisbilhotando escondida por entre as árvores e nos desvãos das construções antigas. O corpo de Marinalva estava formado. Belo e desejável corpo de mulata brasileira no esplendor de seus quinze anos. E os rapazes a desejavam como a semente anseia por água fresca para desabrochar. Mas a menina tinha outros planos. Ela não queria ser “mulher” do patrão como tantas de suas colegas, nem queria ser brincadeirinha de porão ou de floresta dos filhos do patrão. A nossa negra ioruba queria casar diretinho. Não importava que fosse branco ou negro, mas que fosse homem de bem, que desejasse constituir família, pois ela era moça sonhadora.

Numa tarde quente de verão é anunciada a chegada à Vitória de uma comitiva de Muribara. Comerciantes e aventureiros foram até as fraldas da Serra do Lajedo, ao encontro da próspera vila, fazer negócios ou buscar diversão. Mas nem tudo funcionou como se esperava. A expectativa da chegada estendera-se por toda a manhã, pois, como se soube mais tarde, a viagem correra difícil. Os carros puxados por parelhas de bois, empacavam na lama e obrigavam os serviçais a manobras radicais para preservar a mercadoria e proteger os senhores. A força bruta dos musculosos trabalhadores braçais foi posta à prova, empurrando carros a braço e utilizando-se de cordas enroladas nas cangas das juntas de bois e nas braçadeiras dos carros.

Por isso a demora. Por isso a aglomeração da turba na praça central da Vila, pelas avenidas, nos botequins e junto à casa do Contratador. Havia naquela efervescência a emanação natural da alma profunda do Brasil nordestino. As gentes daquele lugar, pessoas simples e de bom coração, faziam festa para tudo. Era um amor desimpedido; um amor sem experiência; um amor livre, solto. E o povo amava a vida e amava as novidades que a vida trazia das cidades mais cosmopolitas da Região.

O ramo espanhol da velha aristocracia rural que se instalara em Vitória de Santo Antão dominava o comércio. As mercadorias que estavam para chegar significavam mais prosperidade para os Casayres e os Lyores. Tradições eram mantidas a todo custo e, por certo, naquela tarde e noite a provinciana Vila veria o gosto das comidas típicas, das danças folclóricas, das roupas hispânicas, das bebidas e dos livros lidos nos serões vespertinos da pacata Vitória de Santo Antão.

No meio de todo o alvoroço provocado pelo atraso da chegada da comitiva e pelo desencontro das notícias alarmistas que davam conta do extravio de mercadorias - diziam que peças inteiras de tecido fino haviam sumido ou que um enorme prejuízo havia sido causado pelo tombamento de dois carros na ribanceira do rio Chanicó -, Marinalva sonhava com os festejos do dia. Ela acabara de entrar em seus dezesseis anos. Era uma mulata mui bela. Rosto arredondado, dentes alvos a sobressair em sorriso largo, cabelos trançados à moda nagô, corpo esbelto e trigueiro, chispando juventude e prazer.

A bela mulata do bangüê sonhava com a existência de um possível príncipe encantado, que pudesse ter vindo na caravana proveniente de Muribara. Nas outras ocasiões em que houvera incursão de tal monta no povoado, ela estava muito ligada aos seus folguedos infantis e suas tarefas domésticas, que não se dera conta do potencial de sociabilidade do evento. Desta feita, porém, sua atenção e seus olhos estavam voltados para as possibilidades românticas que ela mesma farejava no ar como um cão faminto, abandonado, largado à própria sorte. Como que dominada por um sexto sentido aguçado, ela se deixava levar por grandes expectativas naquele dia, mais do que normalmente ocorreria em outras ocasiões. Preparara-se da melhor forma. Colocara seu melhor vestido, perfumara-se de almíscar e âmbar e vestira no rosto seu melhor sorriso. Nalva, como era conhecida na intimidade, esperava muito daquele momento, pois, o que se percebia, era que ela estava amadurecida para a vida e para o amor.

Enquanto esperava toda emperiquitada a chegada da caravana de mercadores e aventureiros, Nalva observava a movimentação do populacho ao seu redor e se divertia com os folguedos, as conversações acaloradas, a algazarra alegre da petizada que corria sem limites por entre os tabuleiros das feiras, os tachos das pretas-velhas, os alerquins e palhaços de ocasião. Estava neste marasmo contemplativo, quando uma cena lhe chamou a atenção. Num canto da praça, já se desligando da muvuca da turba, uma padiola encardida entrava numa ruela transversal e já ia desaparecendo. Aquilo lhe chamou a atenção e ela correu decidida na direção da dupla que conduzia a padiola, a tempo de ver os homens recolherem um preto-velho que estava morto no chão de terra batida. Era um antigo escravo, muito conhecido na Vila, que morrera de velhice e agora estava sendo colocado na caçamba. A dupla se retirou, sabe-se lá para onde.

A cena chocou Nalva que estacou atônita no lugar onde o morto fora recolhido, olhando perdidamente à distância, com olhar vago, a padiola sinistra desaparecer na curva do vento. Uma sombra toldou-lhe o olhar e a face, roubando o sorriso que acordara preso em seu rosto naquela manhã. Caminhou de volta à praça e o reencontro com o povo que se alvoroçava feliz com a chegada da caravana de Muribara, a fez esquecer o episódio, devolvendo-lhe um verniz alegre no rosto.

A chegada dos forasteiros promoveu um banzé danado na Vila. Fogos de artifício foram soltos para o alto; a bandinha de meia dúzia de instrumentos de metais e sopro prorrompeu em sons estridentes e o alarido dos foliões e dos aldeões que se aglomeravam na praça sacudiu a até então pacata Vila. Com janelas e portas escancaradas, as casas floresciam de alegria, com moçoilas e velhos se acotovelando enquanto a libido vibrava as cordas do amor e as rugas sulcavam faces desesperançadas.

Foi uma tarde de muitos festejos e negócios. As quitandas e bazares se apinharam das mercadorias novas que chegavam aos borbotões em caixas e baús. Nas ruas, alguns comerciantes avulsos negociavam seus produtos na busca de amealhar alguns contos de réis daquela gente. Praticava-se também o escambo, a velha arte brasileira de negociar produtos. A região de Vitória de Santo Antão era rica em ouro e esmeralda e por certo algum comerciante encontraria alguma pepita interessante. Além disso, ainda circulavam alguns patacões e moedas de Portugal, cunhadas a ouro, e que despertavam a cobiça por tais escudos.

Marinalva estava feliz no meio daquele alvoroço. Com alguns trocados guardados no bolsinho de pano costurado no forro da saia, passeou por entre os tabuleiros e bandejas de cuscuz, tapioca molhada, angu de milho e outras gostosuras. Decidiu-se por saborear um cuscuz, depositando a moeda na mão da gorda baiana que lhe atendera. Deliciou-se de se lambuzar, naquele saboreio doce, quando ouviu o badalar do sino da igreja matriz. Instintivamente olhou para o alto da pequena torre da modesta igreja da Vila, fazendo sua prece de costume. Quando baixou os olhos, e os fez circular pela multidão, deu de cara com um jovem grandalhão, tipo musculoso, bem vestido, que esboçava um sorriso cortejador para ela. Nalva se encolheu e se intimidou. Toda a sua espontaneidade ficou comprometida naquele momento e ela sucumbiu ante o olhar cobiçador do estranho.

O moço, como se soube depois, descendente dos fidalgos vienenses que aportaram em Pernambuco com Duarte Coelho, era daquela gente esnobe que comia nas calçadas da Rua Nova em Recife, deliciando-se em pratos de porcelana azul de Macau, enquanto fornicavam com as filhas adolescentes das escravas. Nalva ingênua, Nalva sonhadora, se deixou engodar por aquele tipão, aquela estampa caricata de macho europeu, de garanhão profissional, a quem ela, perdidamente, lançou olhos apaixonados.

Os galanteios do rapaz não foram só em forma de palavras. Um lindo colar de ouro; um vestido de seda pura; um conjunto de maquiagem européia, última novidade de Paris, com perfumes e aromas estimulantes e sedutores; compunham os presentes que lhe dera, além de outros badulaques. Diante de tantos mimos, o estranho se tornara irresistível. E Nalva caiu direitinho na armadilha de conquista que Gastão Roncador preparara para seu apaixonado coração.

Segurando os embrulhos e sacolas que o moço lhe dera, Nalva caminhava esbanjando alegria ao seu lado, entretida em conversas etéreas e sensações indizíveis, tal qual uma cordeirinha muda para o matadouro. E, quando foi perceber, estava no fim da praça e tinha entrado numa alameda deserta, e a multidão tinha ficado para trás, e mais um pouco e já estavam fora do lugarejo e caminhando e conversando e trocando idéias marotas sobre a vida e o amor e lorotas sobre estrelas e fadas. E Nalva jogava conversa fora e nem sequer suspeitava que estivesse diante de um cafajeste, profissional da sedução, e ela ali, conversando com estrelas e sendo iluminada pela lua apaixonada que tentava adverti-la, mas ela nem sequer se dava conta que estava sendo conduzida para o precipício.

De repente, estavam num bosque. Bosque fechado. Em meio a árvores densas, cujas copas ganhavam os céus e cujas folhagens encobriam o esplendor da lua. E tudo isso, ao lado de um homem que ela acabara de conhecer e cuja reputação não conhecia. Acordou do sonho do príncipe encantado, com a voz grave e rouca de Gastão a lhe dizer:

- Experimenta!

Nalva sacudiu a cabeça e esfregou os olhos para ter certeza de que não dormia e perguntou:

- O que?

- Experimenta, vamos! Você é a mulher mais linda que já vi...

E sem dar tempo para ela refletir, Gastão foi logo colocando em seu pescoço o lindo colar de ouro que contrastava solene com a pele mulata da moça.

- Agora coloca o vestido que lhe dei e este cachecol.

Nalva se assustou. Tremeu um pouco. Deixou cair no chão coberto de folhas secas, as sacolas que trazia na mão. Mas, tentou se controlar sorrindo amarelo; sorriso quase desconfiado quase descrente de que pudesse estar passando por aquela situação. E pediu para ele se afastar.

- Chega para lá! Vá ver aqueles bezerrinhos ali no pasto, enquanto eu me troco...

O moço se retirou e ela, livrando-se da blusa, pôs-se a tirar a saia simples, de festão barato. Abaixou-se para pegar o lindo vestido de seda chinesa, multicolorido, que ganhara do estranho. Nalva estava nua, totalmente nua. Somente vestida do colar de ouro que reluzia em seu pescoço e caia sensual por entre os seios desnudos.

É neste instante que toma o maior susto de sua vida. Enquanto preparava-se para vestir o belo vestido de seda, ouve o farfalhar de folhas secas nos arbustos laterais e sobressaltou-se com Gastão vindo em sua direção, de forma decidida. O olhar penetrante que vê naquele rosto disforme a assusta. O semblante do moço está transtornado e se aproxima ligeiro. Aquilo não a agrada nem um pouco. Há uma determinação no homem que lhe incomoda. É fera no cio. Silvícola dominador. Gastão está possuído, e uma força incomum o move em direção a ela. Nalva está aterrorizada e percebe que um demônio qualquer, de luxúria e desgraça, se apossara de Gastão. Não lhe resta outra saída senão fugir. Joga o vestido que está em suas mãos na direção do vulto que se avoluma à sua frente e, dando meia volta, corre em desabalada carreira no meio daquela propriedade agrícola, que ela tanto conhecia. Um pouco mais a frente, correndo, com certo contentamento, descobre-se dentro das terras do Bangüê de Bento Bosta. Conhecia cada trilha e cada trecho daquelas terras.

Corre. Está nua. Tem chances de escafeder-se desimpedida por entre árvores, pois sua nudez elimina os riscos de ter qualquer peça de roupa enroscada em algum galho de árvore, impedindo a livre progressão de seus movimentos. Em compensação, suas pernas, coxas, barriga e costas, começam a ficar marcadas pelos vergões provocados na carne nua. Gastão está atrás. Vem em seu encalço com fúria infernal, mas sua roupa volumosa de nobre português, com camisões e calças afofadas de tantos tecidos, o retém de vez em quando, na medida em que iam ficando presas nos galhos. Já está todo rasgado, mas não desiste de sua empreitada, correndo arisco pelo bosque no encalço de Nalva nua.

A cena é selvagem. Quem a presenciasse na solidão da noite, sob a luz do luar, a compararia a uma perseguição atroz de predadores em savanas africanas. Leão em perseguição a gazela; lobo no encalço da ovelha. Gastão é jovem, mas sua aparente vantagem de macho dilui-se no conhecimento pleno que a mulata tem da região. Nalva está apreensiva e sabe que mais um pouco estará alcançando um descampado, pradaria longa, de descortinar horizonte e arrepiar esperanças, onde a relva miúda cobre toda a área e não há árvores frondosas para encobrir corpos e sombras. Ela sente um pavor ancestral perpassar-lhe o corpo. Esse tremor assoma seu corpo enquanto desvencilha-se de galhos à frente que teimam em bater-lhe nas faces.

Nalva agora alcança as pradarias que compõem o chapadão plano na base da Serra do Lajedo. Seu corpo avança célere pelo vento, seguindo as picadas abertas na relva pelos trabalhadores do bangüê. Gastão vem atrás. Ela está nervosa. A aproximação do agressor vai acontecendo e, mesmo que lentamente, tal aproximação a amedronta. Ela sente um frio na espinha. Enquanto corre, o vento frio da noite eriça seus pêlos e faz sua derme arrepiar-se: dos fios dos cabelos da cabeça à planta de seus pés já intensamente machucados.

A imagem de Nalva nua correndo nos campos repletos de flores silvestres é agressivamente bela. O aroma do campo entra por suas narinas e ela respira forte na luta tresloucada da noite para superar o inimigo. O suor desce abundante de seu rosto e escorre pelo corpo. O vento da noite no corpo suado excita Nalva. Seus mamilos estão intumescidos em seios enrijecidos. O estômago se contrai junto com os músculos da barriga que vão se amoldando ao impacto da correria. Os pêlos pubianos tremulam soltos, grudados ao triângulo do sexo, neste monte rebatizado de Relva de Vênus. Seu sexo está umidecido. Quase nada pela excitação; muito pela sudorese que insiste em brotar. Nalva corre. Sabe que sua corrida terá um fim. E que ele está próximo. Ela conhece a área. Sabe das armadilhas da geografia daquela chapada. Ela está na dianteira. É ela quem conduz a perseguição, quem tem nas mãos os destinos de duas vidas. Por isso que sua previsão de fim é trágica.

Enquanto corre, relembra da padiola que recolhera o morto no fim da tarde. A morte lhe sobressalta. Sentimentos inseguros e inquietos tomam conta de sua mente. Há pavor. Está no sopé da montanha da caveira. Enquanto corre, aquele sentimento de morte lhe traz a imagem da prima, Julinha, sendo esmagada pela moenda. Como num flash-back, outras imagens lhe vêm à mente. A infância. O bangüê onde tantas brincadeiras tivera. Os banhos nus. A espuma das tachas de açúcar escorrendo pelo canal ladrilhado. As várias padiolas de cipó trançados transportando a bagaceira para o lixão. O conjunto da fornalha e as três tachas sobre ela assentadas. Aquelas imagens do Bangüê de Bento Bosta, lhe trouxera o frescor da cana e o cheiro da infância que embriaga e aprisiona, tornando imorredouros o amor e o cheiro do melaço. Nalva corre afoita pelas pradarias. Está próxima do penhasco. Faz sexo com o vento na noite.

Sim, Nalva nua faz sexo com o vento. Sexo de virgem não tem penetração; só sensação. Penetração, só se for de vento. E Nalva curte a sensação angustiosa do toque impetuoso do vento em seu sexo exposto à Natureza, na noite de seu amor de despedida. Corre pressurosa. Corre estabanada para fugir do invasor estrangeiro que quer lhe roubar o sonho.

Nalva lembra-se de um senhor que chegara à casa de seus pais numa certa liteira com teto e cortinados de couro, fazendo uma proposta indecente de mil contos de réis, se pudesse levar a menina. Ela tinha doze anos. E, escondida por detrás de um monte de palha e espigas de milho seco, estremeceu com a conversa entreouvida à contragosto até a sentença final do velho Nkoze, que arrematou zangado, empunhando uma velha garrucha, que sua filha não estava à venda.

Naquele dia Nalva determinou em seu coração que nunca abriria mão de seus sonhos. Ela tinha uma família que a amava. E com a retaguarda da família, podia voar até onde seus sonhos a levassem.

A corrida insana pelas brenhas do bangüê já contava mais de meia hora, embora ela só tivesse a lua por relógio e o coração disparado por pulsação. Nalva estava arfando e cansada. Alguns tropeções em pedras, a fizera rolar por capins queimantes, que lhe vergastavam o corpo, deixando-o ferido como seus antepassados, que enfrentaram altaneiros os pelourinhos.

Gastão continuava em sua perseguição louca. Tinha a desvantagem de não conhecer o caminho, e de ser interrompido por situações que lhe fugiam ao controle. Até a Natureza concorria para a libertação de Nalva. A luz da lua e das estrelas iluminava quando ela precisava vencer algum obstáculo que se interpunha em seu caminho. Até as bestas feras do campo lhe davam passagem, optando em descarregar toda sua ferocidade sobre Gastão, que, nesta altura, corria quase que totalmente desnudo, portando apenas um afiado facão, com o qual pretendia intimidar sua vítima, tornando-a presa sem reação, e desvirginá-la em seguida nas gramas do chapadão.

Nalva corria e lembrava-se ainda da imagem recorrente de sua infância, quando as grandes tachas de cobre reluziam a sua frente. Nestas tachas, para festas e celebrações, sua avó e sua mãe se revezavam fazendo preparar a canjica de coco. Olhando firme para a lua que estava cheia e bela nos céus, Nalva respirou fundo, suspirando no seio triste sua desdita. Julgou ver na lua redonda o encarnado do cobre polido, que sempre fora a cor mais nítida de toda a sua infância. A lua era a tacha dos doces da infância, cujo cheiro e paladar ela agora se deliciava, na recordação daqueles pratos saborosos de que fora participante ativa.

A situação de Nalva era periclitante. No seu coração havia um tom pessimista de que ela não sairia ilesa, sequer viva, daquela perseguição indomável. Nalva corria nua, trazendo apenas o cordão de ouro ao pescoço e seu pingente incrustado de diamantes que rebrilhava no aconchego da claridade da noite. A mulata do bangüê transpirava sensualidade e excitação, mas sabia estar seus momentos contados. Restavam-lhe poucos minutos.

Correndo ao vento, suando em bicas, Nalva nua foi tomada por forte emoção, quando estas últimas imagens de recordação tomaram de assalto sua mente. Lembrou-se do engenho; recordou-se das brincadeiras infantis na varanda acolhedora do prédio principal da fazenda; veio-lhe à mente, de supetão, a capelinha amorável e o seu altar. Recordou os cânticos que a negrada da família entoava, nos diversos dialetos africanos: kikongo, kimbundo, ovimbundo. Sorriu. Sorriu quando a imagem seguinte lhe veio à mente a refrescar-lhe as idéias. Ela de pé, com uma vontade danada, atrás da capelinha. Era dia de casamento na roça e todos estavam vestidos a caráter. Ela de pé, mijando quente, feito égua. E o mijo batendo no solo esturricado, fazia espuma, enquanto ela tentava limpar-se de qualquer jeito, do jeito que dava. Ela sorria um sorriso triste na lembrança de suas travessuras. Nalva lembrou também da bisavó banguela. A miúda Nicota que tanto a encantara com suas histórias de África.

A mulata chorou. Lágrimas furtivas desciam pelas faces ilustrando sua decepção e a saudade. Parecia para ela que a vida de amor que sonhara tanto na infância e adolescência a recepcionava pela porta dos fundos. Sentiu a aproximação perigosa de Gastão que já estava há poucos metros de seu corpo combalido; que não mais suportava correr. Num esforço sobrenatural imprimiu um pouco mais de agilidade à fuga e sabendo-se próxima do desfiladeiro da morte, embicou em direção as pedras lisas do limo verde, para que tivesse uma chance de vencer seu agressor.

Quando Gastão reuniu seus últimos esforços para por as mãos no corpo nu de Nalva, e ele já estava prestes a fazê-lo, ela conseguiu dar uma meia freada, a tempo de observar o corpo descontrolado de Gastão deslizar velozmente no limo da pedra e precipitar-se no despenhadeiro adiante. O corpo de Gastão foi chocando-se nas pedras e sendo retalhado à medida que batia forte nas pontudas pedras do penhasco. Em princípio ouviram-se gritos lancinantes de dor. Depois, só o silêncio. O silêncio da noite e o baque surdo do corpo esfacelado.

Manhã de sol. A população de Vitória de Santo Antão passara uma noite angustiada na expectativa do retorno para casa de sua filhinha querida. Todos se empatizaram com a família da mulata, pela tristeza de não saber onde ela estava. Quando clareou o dia, intensificaram as buscas pela região para encontrar algum vestígio indicador de qualquer acontecimento. Primeiro foram os presentes caros de Gastão para a moça e que foram encontrados daquele jeito largado. Quem os encontrou recolheu-os e entregou ao pai da moça. Depois, a equipe que viera pelo despenhadeiro se deparou com as carnes partidas do corpo de Gastão e divisou seu corpo disforme esborrachado nas pedras. A cena era chocante e os mais sábios enxotaram as crianças dali para que não a vissem.

Faltava ainda a moça. A encontraram nua, de bruços, gemendo de dor e delirando numa febre alta, no meio de uma moita de capim, perto do penhasco. Os ventos benfazejos da misericórdia haviam soprado para a mulata do bangüê naquela noite fatídica. Nalva teve tempo de controlar-se, quando da aproximação perigosa de Gastão na noite anterior, e posicionar seu corpo em direção a algumas pequenas árvores que floresciam naquele lugar, tendo tempo de agarrar-se aos seus galhos no instante em que também estava para precipitar-se no abismo.

Fora sua salvação. Depois desta escapatória, com o corpo já moído de tanto desgaste e sofrer, conseguiu arrastar-se até a moita de capim, lugar que achou mais seguro e aconchegante, onde perdera os sentidos. Era este o lugar onde fora encontrada naquela manhã de sol. Estava viva. Respirava. E todos se alegraram com a chance de devolver à menina seus sonhos. Tomaram-na com jeito e colocando-a numa padiola especial a conduziram para a Casa de Cura. O cortejo seguia apressado e compenetrado para providenciar medicação para a moça. Sua mãe cobriu seu corpo com o vestido de seda que havia sido encontrado. O sol incidia forte sobre todos, mas alguns raios projetavam-se sobre o colar no pescoço de Nalva, em especial sobre o pingente tomado de pedras brilhantes onde havia a inscrição: SUKU UNENE! A mulata do bangüê podia ter certeza de que Deus era realmente grande...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 06/06/2006
Reeditado em 31/08/2006
Cˇdigo do texto: T170249
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunßpolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima