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O FUNDO DO POÇO



 

Numa modorra costumeira, Jojoca estava acocorado ao lado do amigo Leleco - seu companheiro de infortúnio -, sob uma das marquises de uma loja central. Os dois observavam o intenso movimento da rua. O desfile das pessoas apressadas, sem interesse e tempo de se preocuparem com os problemas alheios; nem com a miséria de algum dos seus irmãos humanos que acostumavam ver no seu itinerário habitual da cobiça e da fama. Ás vezes, algum cidadão ao passar por Jojoca, lhe presenteava com olhar de repulsa e nojo. Isso acontecia, porque algumas moscas voejavam ao seu redor, devido ao forte odor nauseabundo que lhe emanava do corpo por falta de banho e roupas limpas. Jojoca nem se importava com o fato. Por sua cabeça passavam lembranças dos bons tempos, quando ele possuía uma casa e traçava planos com o velho amigo Nestor. Infelizmente, as condições da vida fizeram com que fosse compelido a abrir mão de todo conforto; a vender a casa e ficar na penúria atual. Não se importava com o fato das pessoas lhe evitarem. O que mais lhe preocupava, era o momento de satisfazer o apetite e aplacar a fome.
Nesse dia, Jojoca já havia feito seu percurso rotineiro em busca de alimento. A cada pedido, recebia uma crítica maldosa:
— Ora seu vagabundo! Vá pedir esmola noutra freguesia. Imagine se eu nasci para sustentar malandro como você!
Desanimado, com os olhos marejados, continuava sua peregrinação.
Uma descrença total na humanidade,invadia-lhe o coração. “Por que eu não voltei para o campo com Nestor? Por que  tive que teimar em seguir com  essa estúpida idéia de ser famoso?”
O dia foi passando. Á tardinha, uma chuva fina veio aplacar o calor e refrescar a cabeça atormentada de Jojoca. Nesse dia, não foi possível para ele e o amigo Leleco, encontrar nenhum alimento.Triste e sombrio, fechou os olhos para um breve cochilo. Enquanto isso, Leleco saiu farejando a procura de algo para comer. Em dado momento, Jojoca foi despertado pelas lambidas do cão. Qual foi sua surpresa, ao olhar para o animal e ver que ele havia colocado junto aos seus pés, um pastelão todo sujo e de aspecto nada saudável. Com um olhar triste afagou o pêlo do animal e disse:
— É Leleco, você é mais humano que muitas pessoas que conheci nessa vida. Só você, sendo cão, foi capaz de ter esse gesto carinhoso com esse ser que você nem conhece direito.
Jojoca apanhou o pastel. Deu uma olhada e, verificando que ele não estava com mau cheiro  comentou:
— È Leleco, esse pastel parece que não está podre. Mas na fome feroz que estou e, devido à necessidade de sobrevivência não me resta alternativa, a não ser devorá-lo.
— Leleco, eu cheguei mesmo ao fundo do poço. Imagine comer alimento contaminado. É bem capaz que esse pastel me cause algum desarranjo intestinal; mas pensando bem, talvez ele não me faça mal. Afinal de contas, você já viu urubu ter caganeira? Eu nunca vi! Portanto, se nem urubu tem diarréia, por que é que eu vou ter?
Jojoca então, repartiu o alimento ao meio, deu um pedaço para Leleco e devorou o resto agradecido com o fiel companheiro de desventuras.
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Gilberto Feliciano de Oliveira
Enviado por Gilberto Feliciano de Oliveira em 18/06/2006
Código do texto: T177768
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Sobre o autor
Gilberto Feliciano de Oliveira
Araguari - Minas Gerais - Brasil, 61 anos
75 textos (8104 leituras)
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