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MATO AD ENTRO – 2


Tudo começou num duro golpe dado pela Ditadura Militar
________________________________________________


Um golpe doído foi decretado,
um doido varrido foi exilado.
doído... doído... doído...
... e ele acreditava na evolução do homem!

As samambaias mais belas
desapareceram da minha janela.
Das janelas
das donzelas, dos vasos também.

As flores mais vermelhas
que antes passantes furtavam do meu jardim
ou de um jardim qualquer lá do bairro,
não as encontro mais,
murcharam dentro do vaso
apodreceram no tempo e no espaço,
confundem-se na cor do próprio barro
ou rastejam-se pelas ruas de sangue.

Flores camaleoas
cobrem enjauladas leoas
vermelhas, tontas,
vermelhas mortas
a m o r f a s
(... a m a r e l a d a s)
sobraram as importadas, plásticas,
das floriculturas programadas,
pingo d’água
petrificado e artificial,
dinheiro aplicado a juros do nada.

Nem tudo é levado a sério:
_ nem mesmo aquelas flores das portas de cemitério!

Oh! Feliz idéia que tive um dia
de te guardar no peito
tal flor na minha Lapela
onde tu ficas
com bastante jeito
feito uma moça singela
debruçada na janela.


Ficas mais feliz comigo!
Bem mais feliz que numa sargeta de esquina
balançando-se à chuva e ao vento.
Sou sonhador, louco e poeta,
que teve a sina
de viver num prédio
de 12 andares,
de beber, beber, beber, beber...
e morrer nas ruas ao redor dos bares!
Arremessando alardes
aos corações vazios,
antes que seja tarde!

Esse poema vem de um campo cósmico
onde habitam pétalas lindas,
que foram carbonizadas
dentro da minha cidade.

Essas palavras cresceram junto às plantações
de trigo
adubadas com concreto
semeando areia e escombros por aí...
elas não suportam
as enchentes do rio tamanduateí...
Perdem-se, cegas pelas ruas da cidade vazia!

E agora?
cadê a flora que estava aqui?

Sonho... O sonho de um sonhador urbano!
O tempo é todo meu para sonhar.
E agora?
Cadê você? Meu pé de Ipê da avenida Brasil?
O sol amanheceu em sangue e morte nas trincheiras da minha aldeia.
Sonho... O tempo é todo meu para sonhar.

Sonho o amanhecer dos pescadores,
e o avesso do sonho dos trabalhadores...

O tempo... Não pára...
Apenas projeta o apocalipse!



AVIENLYW
23/10/1983

WILDON LOPES
Enviado por WILDON LOPES em 18/06/2006
Reeditado em 26/11/2009
Código do texto: T177970
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
WILDON LOPES
São Paulo - São Paulo - Brasil, 57 anos
269 textos (14457 leituras)
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