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"Tio Chico" enviuvou antes de se casar e fez um juramento...

Nenhuma vida é sem sentido e nenhuma ação é sem fundamento. Hoje fui ao cemitério. Foi um impulso, não havia nenhuma razão aparente. Lá vi, entre outras coisas, duas cruzes antigas, com quase um século de existência. Sei, por intuição, a história delas. Mas ninguém me contou. Percebi hoje e não há nada escrito para confirmar. Uma está na entrada ao lado da rua principal de visitação - lado direito, quase como um cruzeiro em miniatura. Com certeza não tiveram coragem de desfazer-se dela por tratar-se de uma obra de arte. Foi feita em concreto armado a partir de uma matriz negativa. Imita uma cruz de madeira amarrada por cipós. Está na ala adulta sem o túmulo original que certamente foi substituído por outro em época em que não se comprava o terreno. A outra (parecida, mas não idêntica) está mais acima, na ala infantil, ao lado dos fundos da capela. É um túmulo muito antigo, sem identificação. Por dedução sei tratar-se agora do menino que morreu afogado junto com a mulher do outro túmulo onde o corpo foi substituído. Quem as fêz foi meu tio-avô (irmão do meu avô materno). Sei porque conheço sua história de arte e um pouco da sua vida, embora tenha falecido qdo eu tinha apenas uns dois anos. Ele foi fotógrafo, pintor, escultor, construtor e era muito admirado na comunidade e por pessoas influentes da capital. Tanto que qdo adoeceu foi levado por uma pessoa importante de São Paulo para fazer tratamento no Hospital das Clínicas e ao falecer foi sepultado por lá mesmo - ainda não descobri o local exato e estou pesquisando isso. A moça era noiva dele e o menino sempre dizia que ela não se casaria com o Chiquinho, porque ele (o menino) a levaria com ele. Todo mundo ria daquilo, mas ele não se separava dela e estava ao seu lado qdo caiu no rio e esta morreu tentando salvá-lo. Tio Chico disse então que havia ficado viúvo antes de se casar e por isso fazia um juramento de nunca mais se casar. Foi o que fez. Eu sabia da história, mas não o conheci. Hoje ao entrar no cemitério, vi aquela cruz isolada ali na entrada e o meu olhar foi direcionado imediatamente para a outra mais acima. Naquele momento não tive dúvidas. As cruzes estavam separadas, mas o elo que as ligava estava desvendado. Nem os mais velhos poderiam confirmar essa minha teoria, mas ela realmente está lá. Vi hoje! E compreendi tudo! Não sei exatamente porque fui ao cemitério. Mas de uma coisa eu sei: não foi àtoa! E ninguém poderá contestar isso... sem uma prova mais convincente que a minha! Até porque a arte é realmente dele - qualquer um que o tenha conhecido saberá disso e são únicas no cemitério - com duas matrizes diferentes feitas no mesmo dia... por quê? Uma delas (a do menino) tem um pauzinho amarrado entre os cipós (ao olhar para a ponta dele, tive a sensação de vê-lo cortando-o com o seu canivete). Esse é mais um dos mistérios que terei que desvendar... "Tio Chico" era assim, não fazia nada sem motivo - deve haver ali uma mensagem!  
Lourenço Oliveira
Enviado por Lourenço Oliveira em 23/06/2006
Reeditado em 23/06/2006
Código do texto: T181127
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Lourenço Oliveira
Salesópolis - São Paulo - Brasil
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